Usamos cookies para personalizar e melhorar sua experiência em nosso site e aprimorar a oferta de anúncios para você. Visite nossa Política de Cookies para saber mais. Ao clicar em "aceitar" você concorda com o uso que fazemos dos cookies

Segunda, 25 de Outubro de 2021 - 11:10

Tereza Paim

por Mari Leal

Tereza Paim
Foto: Divulgação

À frente da pasta estadual da Saúde desde a saída de Fabio Vilas-Boas, Tereza Paim, em entrevista ao Bahia Notícias, traçou um panorama das ações governamentais diante da crise sanitária, classificando como exitosas. A Bahia vive atualmente um momento de redução dos índices epidemiológicos, assim como na ocupação de leitos de UTI Covid-19, utilizados em manifestações graves da doença, e leitos clínicos.

 

A secretária interina reconhece o momento atual como resultado, sobretudo, do avanço da vacinação. Ela, no entanto, prega cautela quando o assunto são grandes aglomerações, a exemplo do tradicional Carnaval de Salvador. “As pessoas estão começando a ter uma certa comodidade e achar que o vírus não está circulando. Não é isso”, diz. Segundo Tereza Paim, uma festa desse porte, aberta a visitantes de outros estados e países, pode criar uma ambiente de “incubadora” de novas variantes.

 

Ao BN, Tereza Paim comenta ainda a relação com o Ministério da Saúde na compensação de vacinas e no repasse de medicamentos, o legado da pandemia, entre outros assuntos.

 

No geral a Bahia tem vivido um momento de equilíbrio da pandemia, mas, ao mesmo tempo, sabemos que não há um cenário homogêneo em um estado tão vasto. Poderíamos começar essa conversa com um balanço das ações desempenhadas e os pontos mais críticos ainda enfrentados?

Começamos a pandemia de uma forma centralizada e fomos descentralizando, porque a gente precisava dar pontos de atenção a todos os municípios por ser uma doença viral e respiratória e, com isso, no planejamento a gente propiciou e proporcionou aos municípios as Unidades de Pronto Atendimento, com suporte adequado, inclusive ventilatório, porque era um paciente que rapidamente piorava. Assim fomos construindo essa rede de atenção com os hospitais regionais e os próprios municípios com seus hospitais municipais também, fazendo uma rede de apoio. No início nós tivemos muitos pacientes com indicação de UTI. Conforme a pandemia foi acontecendo, o próprio manejo do paciente foi mostrando que ela era uma doença que a gente precisa fazer mais prevenção, né? Ou seja, métodos todos de barreira, que são a máscara, distanciamento, higiene das mãos e, para além disso, sedentos por vacina por alguns meses. Ficamos aqui a espera dessa vacina, mas no caso do paciente, também de uma forma mais preventiva da internação para ele ficar melhor acolhido, mais seguro. Esse planejamento, eu posso lhe dizer, foi assim exitoso porque a Bahia é o segundo o estado com menor mortalidade do Brasil. Nós não somos o mais rico, nós não somos os que têm mais leitos, mas somos o segundo em menor mortalidade. E essa prática de atender e acolher o paciente rapidamente, colocar no leito, inclusive clínico, nos deu essa possibilidade. Quando chegamos na primeira, na segunda onda e quando veio a vacina, o governador Rui Costa determinou imediatamente ‘vacina chegando, vacina distribuída’. Então, o gerúndio era chegando porque nós esperávamos a vacina, mas nós distribuímos imediatamente todas as vezes que recebemos. E para além disso a comunicação, independente de qualquer diferença. A gente mantinha reuniões com todas as regiões de saúde, com o governador, com os prefeitos, secretários e dentro da secretaria estadual com os núcleos regionais de saúde, com os secretários municipais e todos nesse dimensionamento que a gente chamava sempre de status situacional, aquele panorama epidemiológico. A gente foi evoluindo e, então, nós chegamos a mais de mil e seiscentos leitos de UTI e com taxas de ocupação alta, com pessoas realmente esperando ainda em UPA, mas sendo assistidos. Com o avançar da vacinação fomos melhorando muito esse status. A gente chegou a um patamar mais confortável. Mas lembrar que leitos de UTI são leitos caros e a gente precisa ter um planejamento também assertivo por conta desse orçamento financeiro, que não é barato. E pra além disso, pessoas que ficaram em casa, que tinham doenças crônicas, foram também agravando porque o risco dela sair de casa era maior do que o risco da própria doença. Hoje nós temos o avanço da vacinação. Mais de 50% da nossa população, público alvo, vacinado com uma dose única ou as duas doses. Ainda temos uma estabilidade que não é tão confortável porque ela não cai, nós gostaríamos que fosse já o número de casos ativos bem menor, mas ele vem sempre se mantendo em torno de dois mil e quinhentos casos ativos. Cai no final de semana, mas uma questão de notificação, e depois ele vem para esse patamar. E nos permitiu, com esse avançar da vacinação – mais de dez milhões e quinhentas mil pessoas já completamente vacinadas – a gente reduzir o número de leitos e deixando o legado de leitos que antes eram de UTI Covid bem estruturados para leitos de UTI não Covid. Hoje nós estamos mantendo uma taxa de ocupação de leitos de UTI menor de 40% para a Bahia inteira. Esse é o alvo. Estamos reduzindo um pouco mais ainda o número de leitos pra revocacionar pra não Covid.

 

E se olharmos por regiões?

As regiões que a gente tem uma taxa de ocupação maior, no geral, são regiões que a gente não consegue avançar muito com a vacina ou que tem alguma cultura diferente nesse sentido, porque a vacina está disponível e as pessoas apenas precisam buscar os postos para serem acolhidos. E saúde é educação também. Então, elas precisam ser estimuladas a se vacinar. É uma estratégias do governo cobrar o passaporte da vacina. Eventos com o passaporte para que a gente consiga fazer com que a pessoa entenda que ela precisa estar vacinada para não gerar risco para outras pessoas. Na evolução, percebemos que deveríamos aplicar também a dose de reforço nas pessoas com mais de seis meses de vacinadas, essa deve ser uma prerrogativa que deve ampliar pra a população e a prerrogativa de vacinar até doze anos. Então esse é o nosso público alvo e a gente vem incentivando e querendo ainda que as pessoas continuem se vacinando. Existe uma ainda grande, principalmente com a redução do tempo da vacina, porque esse também é um dos aprendizados, reduzir o tempo da segunda dose melhora e faz com que a gente vacine mais rápido as pessoas com a segurança. E a gente está fazendo essa busca ,tentando educar as pessoas pra que isso continue acontecendo porque a gente precisa voltar um pouco a possibilidade de outras esferas de trabalho poderem estar mais ativas também.

 


Foto: Divulgação

 

Já é possível pontuar legados positivos da pandemia para a oferta de saúde na Bahia?

A pandemia deixa vários legados. Um aprendizado que teve que ser rápido, dinâmico, a tecnologia de informação pesada, urgente, evidenciando que a gente consegue, sim, se comunicar amplamente à distância, matriciar, porque nós tivemos profissionais que instruíram outros profissionais, desde a escola de saúde pública como aqui também, atores profissionais médicos, fisioterapeutas orientando e fazendo melhorar esse aprendizado de pronto atendimento e mesmo nas UTIs. Então, educação e saúde. O investimento, um auto investimento e custeio por conta dos leitos de UTI; novos leitos, e esse é um pleito que a gente leva ao Ministério da Saúde, que nos informa que deverá deixar de legado também cinco mil leitos, então a Bahia está sendo proativa e já tentando habilitar o máximo possível, lembrando que nós somos do Nordeste e nós temos uma deficiência. O Brasil é diferente, vamos dizer assim. Então, nós estamos já vocacionando novos leitos habilitados, leitos de legado de UTI Covid. Por enquanto, com o costela absoluta do governo do Estado. Ainda não do Ministério da Saúde, a despeito de já estar estarmos com leitos não Covid em funcionamento. E aí a gente percebe que se a gente não tivesse fazendo isso colapso era bem maior. Pessoas precisam de leitos hospitalares e, por fim, registro, dados, identificação, indicadores, esse também é um grande legado. Nós primamos por isso pra mostrar o nosso trabalho. As notificações da patologia, a agenda trabalho com as declarações de óbito, investimento que foi feito em tecnologia a gente sabe, hoje, que foi exitoso. Nós temos barramentos e super computadores e muita informação que é compartilhada porque precisamos, porque essa aceleração que a Bahia teve em tecnologia de informação nem foi acompanhada muito pelo Ministério da Saúde. Nós somos mais rápidos. Nós conseguimos divulgar e buscar dados mais rapidamente pelo investimento que a gente conseguiu fazer. E vocês vivencia isso também e o quanto isso foi importante até pra educação, né? No ensino híbrido e todas essas perspectivas. Eu acho que a gente deixa um legado principal, que é a comunicação entre todos os setores técnicos, independente de qualquer partido e o trabalho realizado.

 

E em relação a demandas reprimidas. Qual a atuação situação? Qual o planejamento estadual para dar conta das demandas eletivas que foram impactadas?

O SUS é tripartite. A gente tem o Ministério da Saúde, o Estado e os municípios. Nós temos 417 municípios. A atenção primária precisa estar totalmente vocacionada a isso, a busca ativa de pacientes pra que eles consigam ser inseridos na rede de atenção à saúde, para que não gere paciente indo pra o acolhimento, vamos dizer, que não seja aquele específico pra ele. Ele tem que atravessar a rua na Unidade Básica de Saúde já que ele é diabético, hipertenso mesmo sem sintoma ele precisa ser acompanhado. O governador Rui Costa ao longo desses anos criou 21 policlínicas que têm exames de média e alta complexidade, então, não está distante da população que tem o acesso garantido através do seu município e essa inserção da rede de facilitação à saúde importante para que não tenha agravos. Neste momento estamos vivenciando agravos, pessoas que por conta desse tempo terminaram infartando ou tendo algum AVC ou tendo outros problemas vasculares. Eu diria que são a grande demanda. As pessoas retornaram ao uso das motocicletas, os acidentes automobilísticos, e isso vem numa avalanche que realmente tem feito que a gente debruce, mas é muito importante dizer que a rede de atenção primária é fundamental para que a gente possa colocar o paciente no leito certo, no tempo de permanência certo e ele possa ser beneficiado, seja com a cirurgia seja com leito de UTI seja com leito de internação clínica.

 


Foto: Divulgação

 

O método de distribuição das vacinas pelo Ministério da Saúde provocou uma defasagem para a Bahia, evento que foi contestado pelo Estado junto ao STF. Essa compensação já foi feita?

Nós reivindicamos, juridicamente também, claro. Nós tínhamos mais de 1 milhão de doses que estavam em déficit, fomos decrescendo essas doses. Hoje ainda temos uma reparação a ser feita porque a própria Anvisa distribuiu algumas doses de vacina onde ela represou e não indicou a distribuição. A gente tem esse déficit de quantidade e a gente vem sendo reposto gradativamente, mas o número ainda gira em torno de 800 mil doses que a gente precisa receber o Ministério da Saúde. Em contrapartida, lógico que a gente vai continuar monitorando, mas a gente sempre solicita a população que colabore e venha aos postos se vacinar para que a gente consiga ter essa comprovação total. Lembrar que a estimativa do Ministério da Saúde é do IBGE, um Censo antigo. A população cresceu. A gente tem buscado que os municípios faça a sua parte, convidando as pessoas que venham se vacinar. Hoje a gente ainda tem uma população grande, de aproximadamente 2 milhões de pessoas, por causa também desse encurtamento, o intervalo menor entre a primeira e a segunda dose faz com que tenhamos ainda mais pessoas sem tomar a segunda dose. É pegar a caderneta, é lembrar o dia de vacinar, é antecipar. A gente está vacinando para vacinar mais pessoas.

 

Recentemente pautamos também aqui no BN o atraso no repasse de medicamentos essenciais aos cuidados de doenças crônicas por parte do MS. Algum avanço?

O Ministério da Saúde tem a responsabilidade do repasse desses medicamentos também de alta complexidade e a gente tem dificuldade no Brasil inteiro em relação a isso. Os estados tentam, entre um e outro fazer permutas. É isso que a gente tem tentado, mas tem déficit ainda de muitos medicamentos, pelo menos 20 tipologias diferenciadas.

 

A situação epidemiológica já permite vislumbrar mais próximo da realidade festas públicas de grande aglomeração, a exemplo do Reveillon e do Carnaval? 

Uma das coisas que a gente aprendeu com a pandemia é que nada pode ser programado a longo prazo. Planejamento é fundamental. Toda vez que você não tem a maior parte da população vacinada amplamente, e a gente não chegou a 80% da população-alvo, é preciso deixar isso muito claro. As pessoas estão começando a ter uma certa comodidade e achar que o vírus não está circulando. Não é isso. Nós temos exemplo, sempre tivemos. Todas as ondas que tivemos aqui no Brasil, elas apareceram antes em outros lugares do planeta. Isso é legado, isso é aprendizado. Então, todos os países que já foram abandonando o uso da máscara tiveram que retroceder. Isso precisa estar como aprendizagem. A gente também tem que entender que cada vez que não temos todos vacinados novas cepas aparecem. O vírus vai mutando para que ele consiga transgredir o painel imunológico. Se o painel imunológico está fragilizado, ele se aperfeiçoa e consegue adoecer pessoas e se multiplicar. A gente tem várias cepas novas, alfa, beta gama, delta, e o quanto elas se espalha. Nos exames de sequenciamento que a gente vem fazendo ela saiu rapidamente para um espalhamento de 10% para mais de 80%, então ela é predominante hoje. A gente só não está vivenciando uma nova onda de catástrofe por conta do percentual da população vacinada, mas ainda temos casos de pessoas que estão adoecidas nos leitos de UTI. Quando você abre o Carnaval, que vem pessoas de outros estados e outros países, você está fomentando novamente uma nova incubadora para novas cepas. A gente só pode falar isso depois que estivermos a maioria da população-alvo vacinada para que a gente comece a entender se algo diferente ainda pode vir a acontecer. Lembrando que, ao longo, da pandemia, desses quase dois anos, percebemos que depois de seis meses as pessoas idosas, com imunidade um pouco mais enfraquecida perdem a capacidade de se defender contra o vírus. Isso pode acrescer tanto para outros, como os trabalhadores da saúde que a gente já vacina, quanto evoluir para as crianças, porque nós vacinados de 12 anos para cima. Muita coisa ainda pode acontecer para a gente já estar com programações exatas.

 

A senhora ainda está na condição de interina. Já há prazo para a nomeação definitiva? O que falta para sua efetivação no cargo?

Eu tenho sempre dito que eu estou aqui para trabalhar, para servir com servidora. Não me furto disso. Aí a gente está aguardando. Foge da minha esfera (risos).

Histórico de Conteúdo