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Segunda, 23 de Agosto de 2021 - 11:10

Davidson Magalhães

por Matheus Caldas

Davidson Magalhães
Foto: Fernando Duarte / Bahia Notícias

Após o diretor-geral da Superintendência de Desportos Aquáticos da Bahia (Sudesb), Vicente Neto, justificar que a saída dos atletas de ponta do estado se dá por demandas requisitadas pelas próprias confederações nacionais, o secretário Trabalho, Emprego, Renda e Esporte (Setre), Davidson Magalhães considera natural o movimento de os principais competidores baianos irem para outros centros no Brasil.

 

“Eu vou pegar o exemplo de um segmento, a canoagem. Estamos terminando de entregar o terceiro centro de canoagem, com programas sociais de acompanhamento, de incentivo, para a prática. Isaquias, aliás, é fruto de um desses programas. Agora, é igual a projeção de jogador de futebol. Um jogador do Nordeste, quando se destaca, sempre vai ser atraído por iniciativas que têm relação com os grandes patrocínios. É difícil você superar essa limitação”, pontua, em entrevista ao Bahia Notícias.

 

Após as três medalhas de ouro e a prata individual conquistadas pelos atletas da Bahia na Olimpíada de Tóquio, o titular da pasta que administra o esporte indica que, para o ciclo olímpico visando Paris 2024 - e para outras Olimpíadas -, a Setre vem lançando projetos para fortalecer as categorias de base.

 

“Além do censo esportivo que estamos fazendo em todos os municípios do estado da Bahia, nós atuamos junto com as federações, porque para um atleta participar das competições eles são ranqueados por elas. Então, qual o nosso papel? Estamos lançando um conjunto de programas de iniciação esportiva através das federações, além de um calendário de competições para que os atletas apareçam”, explica.

 

Ele ainda indicou que o antigo projeto do Centro Olímpico de Pituaçu, que nunca saiu do papel, será pulverizado com o “fortalecimento de algumas modalidades”. Neste contexto, ele pontua que o Centro Pan-Americano de Judô servirá como espaço multiuso - com objetivo semelhante ao que seria feito no entorno do estádio de Pituaçu. “Sim, entre outras iniciativas. Porque ali [em Lauro de Freitas] já temos uma estrutura montada e em Pituaçu nós temos uma discussão sobre fazer uma concessão do estádio para a iniciativa privada. Estamos aguardando esse debate. Também não adianta construir outra estrutura se você já tem uma que precisa ser melhor utilizada”, pondera.

 

A conversa com o dirigente, contudo, não se resume ao esporte. Ele é presidente do PCdoB na Bahia. Ele ainda falou sobre os espaços do partido no governo Rui Costa (PT) e comentou as mudanças promovidas com a chegada de Luiz Caetano à Secretaria de Relações Institucionais. Para conferir este papo, leia a entrevista completa.

 

Neste ano a Bahia acabou batendo alguns recordes de pódios em Jogos Olímpicos e foi o estado com mais medalhas de ouro em categorias individuais. Como o senhor avalia a participação destes atletas olímpicos.

Primeiro há o reconhecimento do esforço individual destes atletas, porque para ser um esportista de alto rendimento é uma vida de sacrifícios. De êxito, consagração, mas de muito sacrifício. A Bahia é um dos estados que têm feito por onde aparecer esses atletas. Temos uma política de esporte, um conselho de esporte, estamos fazendo um levantamento completo sobre a situação do esporte em todo o estado - isso é algo inédito - para saber qual estrutura temos, município a município, as práticas... A Bahia tem uma política de esporte que vai da inclusão social, da iniciação, ao esporte de alto rendimento. É um conjunto de políticas que favorece o surgimento de atletas com alto rendimento.

 

Entrevistamos em nosso programa de rádio, o Bahia Notícias no Ar, da Salvador FM, o diretor-geral da Sudesb, Vicente Neto. Ele sinalizou que muitos dos atletas de ponta baianos não ficam no estado porque acabam sendo requisitados pelas próprias confederações para treinarem em centros tradicionais e com maior estrutura no Brasil. Não há como mudar este quadro e ter esses talentos treinando em casa?

Eu vou pegar o exemplo de um segmento, a canoagem. Estamos terminando de entregar o terceiro centro de canoagem, com programas sociais de acompanhamento, de incentivo, para a prática. Isaquias, aliás, é fruto de um desses programas. Agora, é igual a projeção de jogador de futebol. Um jogador do Nordeste, quando se destaca, sempre vai ser atraído por iniciativas que têm relação com os grandes patrocínios. É difícil você superar essa limitação. Grande parte desses atletas acabam se profissionalizando. A profissionalização já não é mais uma responsabilidade do próprio estado. Ele faz a iniciação esportiva, dá as condições e depois o atleta voa, vai em busca de onde tem as melhores condições. A manutenção de atletas de alto rendimento tem um custo muito alto e nenhum estado executa isso, que é mais absorvido pelas confederações com o patrocínio de empresas.

 

Depois dessa campanha, há alguma proposta da Sudesb para preparar uma nova leva de esportistas para o próximo ciclo olímpico? Existe um mapeamento para identificar possíveis participantes de competições em Paris 2024?

Além do censo esportivo que estamos fazendo em todos os municípios do estado da Bahia, nós atuamos junto com as federações, porque para um atleta participar das competições eles são ranqueados por elas. Então, qual o nosso papel? Estamos lançando um conjunto de programas de iniciação esportiva através das federações, além de um calendário de competições para que os atletas apareçam. Nós temos grandes ações junto às federações para que elas promovam e, através da iniciação esportiva e das competições, tenham destaque cada vez mais atletas.

 

Atualmente a Bahia tem enfrentado dificuldades em trazer grandes eventos esportivos para o estado, não é? Eventualmente, temos disputas de torneios nacionais que acabam não sendo amplamente divulgados. Por outro lado, faltam eventos como jogos da Confederação Brasileira de Vôlei, do próprio UFC... Quais são os planos da Setre para reverter esse quadro?

Nós trouxemos em 2019 os Jogos Universitários do Brasil (JUBs). Foi a maior edição da história. Realizamos no Centro Panamericano de Judô e em vários outros espaços esportivos. Foi uma grande iniciativa. Outras iniciativas nós vamos divulgar em breve. Estamos em negociação para alguns grandes eventos que já estavam encaminhados antes da pandemia. Tivemos algumas iniciativas da própria Sudesb, como o "Costa a Costa", em todo o litoral baiano e com cinco modalidades. Começamos o evento em janeiro de 2020 e no mês de março tivemos que parar. Quem sabe possamos retomar no final do ano. Essa busca por eventos depende muito dos patrocínios também, desses interesses comerciais. Mas nós estamos lutando e, em breve, vamos divulgar um calendário de eventos nacionais que envolvem a área de esporte. Nossa captação está em curso.

 

Em 2015, Álvaro Gomes, o então secretário da pasta que hoje é comandada pelo senhor, disse em uma entrevista aqui para o Bahia Notícias que o projeto executivo para o Centro Olímpico de Pituaçu estava sendo feito. Seis anos depois, ainda não vimos esse equipamento multiuso que foi prometido, essa ideia foi descartada pela Setre?

O projeto que estamos encaminhando agora é de fortalecimento de algumas modalidades. Temos, por exemplo, o Centro Panamericano de Judô, que foi concebido na época que tínhamos uma política nacional muito forte no esporte. Essa política foi, praticamente, interrompida, o Ministério [do Esporte] acabou. Aquela estrutura tinha patrocínio da Petrobras e tinha uma política federal para isso, hoje a Confederação Brasileira de Judô (CBJ), que foi pensada para administrar, já não tem mais como fazer a gestão daquilo. Trouxemos, captamos o recurso federal para construir o Centro Panamericano de Judô e a estrutura é muito boa, mas, infelizmente, a manutenção dela ficou limitada por conta desses condicionantes nacionais. O que vamos fazer ali é transformar numa grande arena esportiva do estado. Já construímos uma quadra poliesportiva e, além disso, teremos um grande conjunto de ações com o objetivo de receber grandes eventos de artes marciais. O governo do estado está investindo em grandes complexos esportivos em todo o interior da Bahia, vinculados com as escolas estaduais, integrando a educação com o esporte. Da nossa parte, estamos investindo, nos próximos 12 meses, R$ 100 milhões na recuperação e construção de equipamentos esportivos. É um investimento muito alto e que vai permitir o acesso a esses equipamentos de prática do esporte.

 

Então o que seria construído em Pituaçu vai ser transferido para o Centro Panamericano de Judô?

Sim, entre outras iniciativas. Porque ali [em Lauro de Freitas] já temos uma estrutura montada e em Pituaçu nós temos uma discussão sobre fazer uma concessão do estádio para a iniciativa privada. Estamos aguardando esse debate. Também não adianta construir outra estrutura se você já tem uma que precisa ser melhor utilizada.  

 

Ainda sobre o Centro Panamericano de Judô, estava lendo matérias que falavam sobre a CBJ ter frustrado algumas expectativas ao não cumprir algumas promessas feitas ao estado da Bahia, uma delas seria a de trazer a sede da seleção brasileira para cá. Isso realmente aconteceu?

É, agora vamos fazer uma reforma ali de R$ 3 milhões para colocar o Centro para essa nova configuração. Não diria assim, mas é que mudou o quadro, a realidade, de sustentação das confederações, especialmente na área do judô. Houve exatamente essas perdas de patrocínios e que terminam por inviabilizar o projeto inicial. Foi bom ter captado aquele recurso porque deixou um belíssimo equipamento para nós - que, se não na área do judô, apesar de que vamos também utilizar para essa modalidade - vamos ter uma excelente estrutura ali, onde hoje também é utilizada pelas federações.

 

Com a sede administrativa do Centro de Judô passando a ser utilizada pelas federações, há essa alienação do Palácio dos Esportes, no Centro Histórico, em curso, não é?

Exatamente. As federações vão ser acomodadas lá [em Lauro de Freitas], numa área onde funcionava a Sudesb, seguindo o conceito de que seja um grande complexo esportivo do estado da Bahia. A mudança das federações já está acontecendo, estão sendo feitas as adaptações.

 

Partindo para os assuntos mais ligados ao processo de articulação político-partidária. O senhor acredita que federação de partidos pode ser a tábua de salvação de partidos médios como o PCdoB?

Foi aprovado não só a federação como também o retorno das coligações. Na verdade, o que temos hoje são dois mecanismos que dificultam a organização partidária no Congresso Nacional. Um é o fim das coligações e o outro se trata da cláusula de desempenho. Não é o número de partidos que tem dificultado o bom desempenho do Congresso, são as práticas fisiológicas. Vamos [o PCdoB] fazer 100 anos, nós entendemos que não é correto esse posicionamento de tentar dificultar a organização partidária. Por isso nós defendemos a existência das coligações e a federação, porque ela não é uma aliança apenas para a eleição, ela dura todo um mandato. Você tem partidos que têm o mesmo pensamento, defendem pontos de vista em comum que podem ser aliançados. Isso existe no mundo todo, só não existe no Brasil porque você retirou a coligação e impediu que os partidos fizessem um processo de aliança. Muita gente não defende a coligação proporcional, para a eleição de deputado federal e estadual, sob o argumento de que às vezes vota em fulano e elege outro que tem a posição ideológica diferente, mas isso desconsidera as misturas que existem para a eleição de governadores, prefeitos e senadores, em que as coligações são permitidas. A federação é um avanço, do ponto de vista da legislação eleitoral, que permite, sem acabar com os partidos, que eles se juntem. Ela permite que as legendas se juntem para fazer um enfrentamento durante o período legislativo.

 

Como o senhor avalia o espaço dispensado pelo governador Rui Costa ao PCdoB? A chegada de Luiz Caetano deu uma melhorada na interlocução entre os partidos da base?

Foi um avanço importante, porque se você tem, por um lado, o êxito administrativo grande e isso tem que corresponder com o nível de articulação política para dar sustentação a esse projeto. Vários setores realmente se queixavam da falta de articulação política, das limitações nesse âmbito. Luiz Caetano deu um salto importante, pela presença e força política que ele representa. A capacidade de articulação e experiência por ter sido vereador, prefeito, presidente da UPB... Era muito importante que tivesse dentro do governo essa articulação política para facilitar. O governador Rui Costa acertou nesse aperfeiçoamento.

 

Já há discussão sobre o planejamento do PCdoB para a eleição do ano que vem?

Temos um projeto majoritário. Lutamos para manter unido esse campo que vem governando a Bahia e tem feito o estado sair do atraso administrativo, da falta de projetos e programas sociais que estávamos. Hoje nós temos uma Bahia diferente, Salvador é uma outra cidade. Nos 27 territórios de identidade do estado temos obras estruturantes, como policlínicas, hospitais, estradas. Você sente uma estratégia de governo muito forte que vem desde o período da gestão de Jaques Wagner. O primeiro ponto é defender a unidade deste grupo político para continuar esse projeto. A ideia do PCdoB é ampliar a participação na Assembleia Legislativa e na Câmara Federal. Iremos aguardar o desfecho desse processo de legislação eleitoral, mas nossa estratégia para enfrentamento a 2022 está sendo construída no dia-a-dia.

 

Para encerrar, vamos falar sobre emprego e renda: com a pandemia e a saída da Ford, tivemos números alarmantes de desemprego e queda de renda das famílias. Com a estabilização dos números da pandemia, já é possível fazer alguma análise mais otimista de melhora desse cenário?

O Brasil já vinha estagnado economicamente antes da pandemia. Quando abrimos 2020, o crescimento de 2019 foi de 1,1%. Estamos na pior década de crescimento na história do país. Isso se acentuou depois da crise política de 2015/2016 e das medidas adotadas pelos governo Temer e Bolsonaro, que são de redução do investimento público, fazendo com que em um ano o montante destinado a essa área fosse reduzido em 45%. Você não tem mais investimento público, não tem grandes obras de infraestrutura sendo encaminhadas. É o investimento público que puxa o privado. Nos Estados Unidos, estão investindo mais de US$ 3 trilhões para anunciar um programa do Biden voltado exatamente para ampliar a infraestrutura e promover transferência de renda. Isso tá na Europa, na China, em toda Ásia e em continentes em que se tem alguém pensando em ter responsabilidade na economia. Na economia deprimida é o Estado que puxa isso. Não estamos vendo isso no Brasil, muito pelo contrário. Estamos vendo aqui uma política de desindustrialização que atinge fortemente a Bahia. É a Fafen, é a Refinaria Landulpho Alves, a Ford foi embora... por falta de política industrial no Brasil. Na década de 1930 éramos uma grande fazenda de café, agora estamos virando um exportador de soja, laranja, café e minérios, ou seja, um país primário exportador. Estamos perdendo a estrutura industrial. Na década de 1980 o Brasil, sozinho, exportava mais que a China, Vietnã e Coreia juntas, hoje o Vietnã já tá ultrapassando a gente em exportação. As políticas que estão sendo desenvolvidas pelo governo Bolsonaro prejudicam estados como a Bahia. Eles cortaram o aumento real do salário mínimo, foi um impacto terrível porque grande parte do nosso interior, em que temos uma quantidade grande de pessoas que dependem da aposentadoria e do Benefício de Prestação Continuada (BPC), todos eles têm com referência ao salário mínimo e quando você não faz um aumento real há perdas substanciais na geração de renda. Agora também tem as políticas trabalhistas, que estão precarizando o trabalho. Aprovaram na semana passada a política de incentivo ao emprego, em que a pessoa recebe uma bolsa, não tem vínculo, não tem FGTS, não conta para aposentadoria. A precarização do trabalho não fortalece o mercado interno. É uma política anti-trabalhista e anti-desenvolvimento do país. O cenário é sombrio.

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