Usamos cookies para personalizar e melhorar sua experiência em nosso site e aprimorar a oferta de anúncios para você. Visite nossa Política de Cookies para saber mais. Ao clicar em "aceitar" você concorda com o uso que fazemos dos cookies

Segunda, 14 de Junho de 2021 - 11:10

Marcelo Oliveira

por Gabriel Lopes

Marcelo Oliveira
Foto: Divulgação

Diante do cenário de impasse que o setor da educação enfrenta em Salvador, o secretário de Educação do município, Marcelo Oliveira, aponta a liderança sindical como principal responsável pela baixa adesão de professores na retomada das aulas presenciais na rede particular e diz que o movimento "desconsidera interesse dos alunos de forma obstinada".

 

"Esse prejuízo que as crianças estão experimentando é uma tragédia, uma bomba relógio social. Os professores estão insistindo em só voltar depois da segunda dose, o que não tem nada a ver com o risco de contágio, porque todas as outras atividades econômicas já voltaram", disse, em entrevista ao Bahia Notícias.

 

O secretário também citou novas condições impostas por uma associação para o retorno das aulas no modelo presencial e semipresencial. "A APLB (Associação dos Professores Licenciados do Brasil) mandou para mim uma correspondência dizendo que só volta quando tiver 75% da população vacinada. Quando é que vai voltar? Não tem expectativa, nós não sabemos quando vai atingir esse número", questiona. Leia a entrevista na íntegra abaixo.

 

Salvador tinha conseguido avançar no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), segundo divulgado em 2020. Quais são os planos para evitar uma queda muito drástica no índice?

O plano não poderia ser outro, se não a volta imediata às aulas presenciais. O afastamento das crianças da sala de aula está causando um prejuízo pedagógico nessas crianças que vai ser de ‘dificílima’ recuperação. Em outros estados, a exemplo de São Paulo, que voltou às aulas desde o ano passado, fizeram uma avaliação depois de um ano fora da sala de aula e constataram que houve uma regressão no aprendizado. Um aluno de 11 anos, que deveria estar no 6º ano, só conseguiu responder adequadamente as questões do 4º ano. Nós estamos tentando finalizar o processo de aquisição de dispositivos de acesso à internet, como tablets, para entregar um a cada aluno do 1º ao 9º ano e para cada professor para que eles possam fazer o ensino remoto. Ao contrário das escolas particulares, alguns alunos não têm acesso a computador em casa. Apenas 20% dos alunos da rede municipal tem esse tipo de facilidade em casa. Todo o ensino remoto está sendo baseado em aulas pela TV, que é um processo que não há interação com o professor, é uma via de mão única.

 

Como as suas experiências como prefeito, que também conseguiu bons índices no Ideb, secretário de Saúde e de Educação vão te ajudar a lidar com os problemas de uma cidade mais complexa?

No ponto de vista da educação na verdade a distinção se dá na sala de aula. E essa pouco importa se é de uma pequena cidade do interior ou se é uma grande metrópole. Sempre você vai encontrar um professor e os alunos na sala de aula com o ‘mesmíssimo’ conteúdo e matriz pedagógica. Não tem tanta diferença no termo de metodologia e táticas pedagógicas. Aqui em Salvador por exemplo, a rede municipal de 437 escolas é dividida em 10 gerências regionais que abrange regiões da cidade. Então são 40 escolas em média em cada regional. Para essas crianças mais pobres, o público da rede municipal de ensino, a única chance que eles têm de mudar o seu destino, de uma vida diferente da dos seus pais, ter alguma atenção social, uma vida digna é através da educação, todo mundo concorda com isso.

 

O governo do estado vai possibilitar que os alunos do 3º ano do Ensino Médio utilizem o Enem para concluir a série. A prefeitura pode adotar uma estratégia parecida e realizar algum tipo de prova para que os alunos do 9ºano/8ª série concluam também?

Em janeiro nós estivemos com a Secretaria de Educação do estado para fazer esse alinhamento. Tanto a rede municipal como a estadual estavam com um déficit de horas de aula no ano de 2020, era o mesmo problema. Então nós convidamos o governo do estado para fazer o que chamamos de “contínuo curricular”, ou seja quando voltasse às aulas mesmo a partir do ensino remoto, que voltou em fevereiro, a gente faria os conteúdos de forma contínua. O aluno que estava no 9º ano em 2020, ele foi para o 1º ano do ensino médio na escola do estado e essa instituição o recebeu lá por currículo que contempla conteúdos do 9º ano mais os do 1º ano. Mas para que isso aconteça é preciso que as aulas presenciais voltem o mais rápido possível. O ensino puramente remoto, pela televisão, ele é ineficaz sem a presença e orientação do professor.

 

Em Salvador, as aulas no modelo semipresencial voltaram no dia 3 de maio. Em quase um mês, até o dia 30 de maio, a Secretaria Municipal de Saúde registrou 121 casos de Covid em instituições de ensino. O que o senhor acha sobre esse dado e como avalia o protocolo vigente nas escolas da capital?

Não há nenhuma evidência de que esse contágio aconteceu na escola, zero. Nas escolas municipais, apenas 10% dos alunos e 28% dos professores estão indo. Então qual é a razão para eles terem adquirido isso na escola. Zero possibilidade. E veja, 121 casos falando de rede pública e privada. Nós estamos falando de 60 mil profissionais nesse conjunto de professores, se você fizer uma conta, nós estamos falando de 0,2%. Então é muito menos que a curva de contágio da cidade, não tem essa possibilidade. A escola é um ambiente seguro. E quando essas pessoas saíram da escola? Para onde vão? E quando se fala em surto nas escolas em Salvador, não houve surto nenhum. Essas pessoas contraíram o vírus em algum lugar, que certamente não foi na escola e aí como trabalham na escola há essa associação. Então, criou-se uma situação de terror, de pavor onde não existe. Ninguém está falando que deveria suspender atividade de outros setores, do comércio, farmácia, transporte, limpeza urbana. Parece que o vírus só entra nas escolas e isso não é razoável.

 

Ainda sobre as escolas, algumas instituições chegaram a suspender as aulas após os episódios. O senhor acha que a retomada foi feita no momento certo, na data correta? E o protocolo está sendo bem seguido nas escolas?

Não concordo, deveria ter voltado muito antes. Novamente digo, o ambiente da escola é mais seguro do que o ambiente doméstico da maioria das crianças que estão na rede municipal. Basta circular um pouco pelas comunidades mais periféricas, mais humildes, que você vai ver as crianças na rua sem máscara circulando com adultos, em aglomerações e brincando na rua. Tem um protocolo que diz que se tiver mais de dois casos na mesma sala, deve suspender aquela aula. Mas essa história de que as escolas tiveram um caso e suspenderam as aulas, é muito mais pelo pavor que as pessoas estão. Mas nós estamos em um ambiente onde os adultos estão vacinados. Qual é a razão de não estarem na escola? Por que mantivemos o comércio funcionando? Por que as pessoas saíram na rua em transporte público? Por que essa preocupação está sendo manifestada apenas com a escola? É como se a escola não fosse necessária. Só que a escola é indispensável.

 

O senhor falou que todos os profissionais adultos já estão vacinados. Antes da retomada, o prefeito Bruno Reis divulgou que até o domingo, dia 2 de maio, todos os profissionais estariam imunizados e as aulas voltariam na segunda-feira, dia 3 de maio. Não seria uma contradição da prefeitura afirmar que as pessoas estariam seguras, mas retomar atividades presenciais apenas um dia depois que alguns profissionais receberam a primeira dose?

Veja, a gente procurou ver se os funcionários de supermercados foram vacinados? Se os motoristas de ônibus foram vacinados? Os médicos e enfermeiros foram vacinados? E qualquer outra categoria, qual categoria condicionou a volta ao seu trabalho a estar vacinado? Então eu pergunto, por que um serviço que é essencial, a educação, deve fazer as crianças esperarem até que aconteça do jeito que os professores querem? O que o prefeito disse foi: até o dia 2, todos estarão imunizados, é verdade. Mas nenhuma categoria condicionou. Por que esse tratamento excepcional com a educação? É como se a educação não fosse prioridade.

 

Em termos pedagógicos, qual o principal desafio da educação em Salvador após a retomada das aulas?

Não tenha dúvida que nosso grande desafio agora vai ser recuperar o tempo perdido. Fazer as crianças voltarem ao ritmo de estudo depois de tanto tempo vai ser uma enorme dificuldade. O maior protagonista dessa retomada será a família, os pais. Eles que vão nos ajudar a fazer esses alunos voltarem ao ritmo. O aprendizado mesmo eles regrediram, então agora é recuperar o tempo perdido.

Histórico de Conteúdo