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Sábado, 23 de Outubro de 2021 - 05:27

Lobato e Lima

por Ruy Espinheira Filho

Lobato e Lima
Foto: Mario Espíheira

                   Creio ter iniciado as leituras de Monteiro Lobato aos cinco anos de idade (quando Lobato estava morrendo, 1948). Alfabetizado em casa, por minha mãe, fui para a escola aos seis – e já leitor de outras coisas, mesmo porque as escolas tinham um livro de leituras com poemas, contos e crônicas. Gramática e matemática não me seduziam, mas os textos com histórias e versos me encantavam. Mais tarde, já no ginásio, lembro-me de – para enganar o bedel - encapar como “Gramática” ou “Matemática” livros que eram, na verdade, contos, romances, poesia...

 

                Os de Lobato eram os preferidos. Lembro-me que “Os doze trabalhos de Hércules” saiu em série, um volume para cada trabalho, e toda vez que meu pai ia a Vitória da Conquista, onde havia livraria (ao contrário de Poções, onde só encontrávamos revistas), trazia-me um dos volumes. E depois vieram outros e outros, inclusive da parte de meus avós paternos – que um dia me presentearam com uma estante. Uma estante! A primeira – que resistiu aos cupins por quase 40 anos, madeira dura de roer como o sonho da literatura...

 

                E Lobato também continuando. Li-o na infância, na adolescência, na juventude – e até hoje, já em idade avançada. Literatura infantil, contos para adultos (o inesquecível “Negrinha”, comovente denúncia da estupidez humana; há alguns meses reli todos numa edição dos contos completos), literatura diversa, das memórias à política e à correspondência (a fabulosa “A barca de Gleyre”, cartas para Godofredo Rangel) e tudo o mais.

                E por que falo em Lobato? Porque acabo de ler “A correspondência entre Monteiro Lobato e Lima Barreto”, de Edgard Cavalheiro, edição da Verso Brasil, RJ, 2017. Lobato editou um romance de Lima Barreto e, na “Revista do Brasil”, textos menores. Muito diferentes na vida (Lobato escritor e empreendedor de sucesso, Lima alcoólatra, num cotidiano marginal), eram semelhantes em espírito. Quanto ao conhecimento pessoal... Lobato procurou Lima algumas vezes, no Rio, inutilmente. Certa vez o viu, mas Lima estava completamente bêbado, entrando num botequim. Lobato o seguiu, pensando em se apresentar, conversar, mas o Lima (escreve Cavalheiro) já “cochilava sobre a mesinha de mármore, quase derreado na cadeira... O encontro fora mais uma vez adiado”. Em 1921 Lima passa em São Paulo e escreve ao editor Schettino que conhecera Lobato, mas nada se conhece desse encontro.

                Monteiro Lobato e Lima Barreto – dois grandes da nossa literatura. Sabem quanto Lobato ofereceu a Lima para a publicação de um romance? 50% do lucro líquido. Sim, 50 por cento! E quanto recebe um autor hoje, quando bem pago? 10% do preço de capa. Isto: 10 por cento. Nada mais. Sim, também na literatura piorou muito o nosso triste país.     

 

 

EUGÊNIO

 

 

            Mais um velho amigo que partiu dias atrás – Carlos Eugênio Junqueira Ayres. Amizade desde o início dos anos 70, quando estudamos Jornalismo na mesma turma da Faculdade de Comunicação da UFBA. Turma excelente, em que fizemos ótimas amizades, incrementadas pelas rodadas boêmias. Sim, porque a boemia foi marca daquela geração – e, por uma dessas artes do Destino, pertinho da Faculdade ficava a Taba dos Orixás, do Dilson, que cresceu com a nossa presença e, mais tarde, após o incêndio do velho Mercado Modelo, virou atração para gente de todo canto. Aí foi verdadeira invasão, quebrando a nossa tranquilidade. Para o Dilson, faturamento maior...

            Sim, a Taba dos Orixás ficava ali pertinho, era necessário apenas andar um pouco, descer uma ladeirinha (que às vezes era pura lama e levava a belos escorregões) – e estávamos em casa. Pelo menos uma vez por semana fazíamos essa visita, que não tinha nem hora nem dia para acabar. Tudo regado a muita cerveja, também alguma cachaça – e o belo violão do famoso baixinho Tonicão. Mais tarde, concluído o curso, eu já no Mestrado em Ciências Sociais, que funcionava no outro lado do Vale do Canela, na Faculdade de Direito, continuei eventualmente indo à Taba, mas então muitos dos amigos já se haviam dispersado, alguns fora de Salvador, outros da Bahia. Histórias de vidas...

            Éramos todos jovens, com muito futuro pela frente. Na verdade, nem todos, que alguns se iriam em pouco tempo, mas, felizmente, ainda não sabíamos... E havia outros lugares que frequentávamos, como o Guacyara, de Dona Esmeralda, numa ladeira da Praça da Sé, onde apareciam outros amigos como o pintor Ângelo Roberto, o poeta Jehová de Carvalho, o fotógrafo e cineasta Roberto Gaguinho. Sim, éramos boêmios numa cidade boêmia, bem mais bonita, sem a paixão pelo cimento que a vem enfeando desde o golpe militar de 64. E os cimentadores não descansam, continuam atacando de geração em geração – e têm ainda sinistros planos para o futuro...

            Cidade da Bahia, que ninguém chamava de Soterópolis, muita falta me fazem seus perfumes, as suas músicas, a gente de Jorge Amado e Dorival Caymmi nas ruas madrugada afora... Ali vivíamos a nossa juventude. E um dos meus parceiros era justamente aquele que agora se foi – Carlos Eugênio. Romancista, contista, fotógrafo (tendo ensinado fotografia e ética na mesma escola), homem sempre cheio de projetos. Nos últimos tempos, a partir de 2003, parceiro dos almoços semanais, das quintas-feiras, no restaurante do Edinho, Ceasinha do Rio Vermelho, tradição criada por James Amado e Guido Guerra. Sim, Eugênio, você está muito bem acompanhado nestas belas memórias. Lembranças minhas a eles, do outro lado da vida. Imensas saudades, companheiro.

 

 

 

 

 

       

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