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Sábado, 16 de Outubro de 2021 - 05:08

Desirée, a sexóloga que não sabia amar

por Fernando Vita

Desirée, a sexóloga que não sabia amar
Foto: Metro 1

Aqui e ali algumas pontas de papel com lembretes escritos; uma pilha de revistas aleatoriamente expostas em um cesto de vime — O Cruzeiro, Manchete, Fatos e Fotos, Capricho, Sedução, Sétimo Céu, O Tico-Tico, Revista do Rádio e O Sesinho; uma cuspideira de louça a um canto bem visível, eis o quase tudo que estava a esperar os clientes da doutora Desirée D’Anunciação dos Prazeres, porque em cômodo anexo, que antes antigos moradores desfrutaram na condição de aprazível quarto de alcova, foi instalado o seu gabinete de atendimento, onde se descobre, em rápido espiar, uma outra secretária de mogno, com igual acabamento de fórmica branca no tampo, vidro leitoso sobre ele sem nada de visível por baixo; uma maca, duas cadeiras de sentar, mais uma outra de espaldar alto por detrás do bureau, e por trás dela, em ponto bem visível da parede, o diploma conferido à médica pela veneranda Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia; não vamos deixar, contudo, na ânsia desenfreada de descrever pormenores talvez dispensáveis da arrumação do local de trabalho de Desirée, de assentar outros poucos, estes indispensáveis: Olinda Helena chamava-se a atendente; na poltrona de espaldar alto sentar-se-ia sempre e tão-somente a jovem médica; havia, vale ser dito, campainha de metal com som de sininho a ser acionada para fazer entrarem os clientes assim que eles se dessem à honra de aparecer, e eis o primeiro deles que acaba de ser anunciado, um formidável de nome Clinésio Queiroz, gordo e tímido maçom, passado dos sessenta de vida, cabelos cocô de rola artificialmente tingidos de preto, dono de uma loja de tecidos e coisas de armarinho na praça da feira, antecipou tais informes Olinda Helena ao anunciar a sua inaugural entrada, temos aí o primeiro cliente de Desirée em Todavia, e que não seja o último, queesta prosa não pode e nem deve parar por aqui, num Clinésio maçom e tímido qualquer, que deu bom-dia e sentou-se diante da médica, não sem antes apertar-lhe a mão direita com algum recato, desejar-lhe boa sorte e informar chamar-se Clinésio: “não creio ter a senhora ouvido meu nome antes”; “ouvi”, assegurou-lhe a profissional da saúde; “Olinda Helena já mo antecipara pouquinhos segundos atrás; o meu é Desirée, D’Anunciação dos Prazeres se lhe carece saber, senhor Clinésio, todo, por inteiro; faça-me um favor: sente-se bem à vontade e me diga o que o traz aqui”. E Clinésio, já assentado, o disse, pespontando, aqui e ali no transcorrer da fala, pausada e monocórdica, ser um camarada de saúde perfeita — uns poucos achaques de azia e flatulência tão-somente quando abusava de fatadas, feijoadas, sarapatéis ou rabadas —, afora isso, nada de relevo a registrar; a razão da consulta não residia nele, mas na sua legítima esposa, de nome Adélia; “pois não”, aceitou a médica, “e o que ela sente?”, quis saber; “não, ela não sente nada, doutora”, apressou-se em responder Clinésio; “a questão é justamente outra”; e ela: “qual é?”, indagou; Clinésio deu uma girada angular de muitos graus em seu pescoço grosso para assegurar-se de que ninguém, além deles dois, participava da tertúlia: “deixe que eu lhe conte, se a senhora dispõe de tempo e paciência para me ouvir”. E contou. E Desirée anotou o que ouviu, em letra de forma de irrepreensível caligrafia cursiva, raramente encontrável em doutores médicos, em sua maioria ágeis garatujadores de indecifráveis receitas e diagnósticos, para o maior desespero de farmacêuticos, laboratoristas de analisar merda e que tais, em fichas de cartolina pautadas por linhas horizontais bem visíveis escreveu a doutora Desirée, eis a seguir o inteiro teor do seu primeiro e proficiente prontuário médico produzido em Todavia, dê-me o apressado leitor tempo minguado apenas para que a doutora o passe a limpo, sem borrões ou deslizes gramaticais, e eu dele tome legítima posse, não posso brincar com coisa séria, e prontuário é sempre e, por demais, coisa muito séria, seja ele médico, político, policial ou profissional é desnecessário dizer, quanto mais escrever.

 

 

 

O indivíduo Clinésio, de sobrenome apenas Queiroz, por ser filho natural de mãe já falecida e não saber nomear a graça do pai, tem sessenta e oito anos a completar mês que vem, mede calculados um metro e sessenta e sete de altura em corpo que estimo pesar cerca de cento e dez quilos (adquiri para o gabinete uma balança antropométrica Filizola na firma Barros & Cia. na Bahia, mas estou a carecer de portador que a me traga de lá), não apresenta problemas visíveis a olho nu e nem acusa sintomas de nenhum mal que lho acometa, a não ser uma obesidade apreciável mesmo se fosse ele duas vezes mais alto do que é (candidato em potencial a males cardiopáticos ou a outras várias patogenias comuns aos gordos, registro e até aposto, no futuro!), diz vir falar da esposa de nome Adélia, com quem vive maritalmente há mais de quarenta anos, e com jeito tímido me conta que sempre foi zeloso com ela nas práticas da cama, vez que tinha por dever prezar e respeitar as convicções e tradições religiosas da consorte, membro da Irmandade do Sagrado Coração de Jesus, hoje já mãe de filhos e avó de netos, mas que ele, Clinésio, desde os tempos de namorado e de noivo da dita Adélia sempre lhe apreciou em respeitoso mas desejoso silêncio o que ele assim designou de traseiro, daí que já casados e mais aparelhados nas artes das brincadeiras de homem e mulher, sondou-lhe em certa tarde de domingo a possibilidade de tê-la por detrás, tendo a madame tomado um susto muito grande e dito “oxente”, levando-o a justificar-se, então, como escapatória, que era apenas um chiste, uma pilhéria, mas que tendo sempre ouvido dizer, por bocas alheias, notadamente de uns e outros – irmãos da maçonaria ou não! – muito mais achegados que ele próprio à putaria e a cu de gente, que forma de pica seria cu, porque se forma de pica fosse boceta, pica teria a forma de peixe e não a formatação que tem desde que o mundo é mundo, decidiu por passar tal assunto a limpo, na prática, indo de pica ao cu da esposa; então eu, como médica, me choquei com o linguajar coloquial do meu primeiro cliente, mas como sexóloga dei-lhe corda, deixei-lhe à vontade no seu relato, que para não se tornar imenso, aqui, no prontuário, eu o abrevio, registro que de tanto pedir para ir por trás em Adélia, Clinésio obteve êxito, ele apreciou a experiência, ela nem tanto, falou de dor intensa nos anais do furico – e de novo uso, sem pôr aspas nem outros adornos, o palavrear do meu cliente –, eu então intervi, para demonstrar meu saber de ciência, no procto, o senhor quis dizer, o cliente estranhou, como era natural fazê-lo, que cu tivesse também esse apelido de procto, ele que os já tem tantos, e daí eu fiz-lhe um breve enunciado sobre a prática do sexo anal, desde os tempos em que a Santa Madre Igreja tratava ânus por vaso nefando até os dias atuais, os seus prós e contras, cuidados e cautelas, ele atento por demais à minha explanação, a ponto de tomar notas no verso de um papelzinho pardo que me pareceu ser uma pule do jogo do bicho, ao fim e ao cabo eu lhe indaguei, então, o porquê do seu desassossego, e ele mo disse o que se segue: “doutora, é que agora dona Adélia só quer que eu lhe frequente o segundo distrito!” Segundo distrito, agora assustei-me eu, ao imaginar que a sodomia do casal tinha chegado às raias policiais! Mas o meu primeiro cliente em Todavia foi safo em me tranquilizar: “segundo distrito, doutora, é como a minha patroa, desde que me cedeu a cauda pela primeira vez, apelidou o seu próprio cu!”, ocorrência que teria causado forte comoção no senhor Clinésio, já que ele, nas práticas tão naturais de marido e esposa – assegurou com ares deveras preocupados –, sempre buscou com denodo as ter outras bem diferenciadas das que costumava praticar quando ia às putas; “puta é puta, esposa é esposa, doutora”, acentuou; “a senhora mesma que estudou muito mais que eu bem sabe disso, olhe que eu até busquei sempre não caprichar muito em meus chamegos antes das trepadas com Adélia para que ela não passasse a gostar a mais da conta dessas coisas que se chamam de sacanagem, que o ato de gostar, doutora, quando é demais, vicia”. Agradeci-lhe a confiança e a clareza do relato e solicitei-lhe que agendasse, à saída, uma consulta para dona Adélia. Ele aprovou, com um menear de cabeça, a minha sugestão. Antes de deixar a minha sala, um cerimonioso Clinésio externou não disfarçada preocupação, não dissimulado temor, de que Adélia, desde os tempos de solteira, já fosse useira e vezeira nas práticas do sexo anal.

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