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Sábado, 25 de Setembro de 2021 - 13:26

Jehová, o bardo dos sonhos e das noites (II)

por Florisvaldo Mattos

Jehová, o bardo dos sonhos e das noites (II)
Bico de pena: Ângelo Roberto

SONETO DO AMOR-DE-SEMPRE


Amo-te mais que a noite em que concebes —
enquanto sonho — o fruto que sonhei;
Mais que meus pés os passos que eu já dei
e ama o teu ventre o fruto que recebes.

Mais que o semeador a sua messe;
mais do que a valva a seiva pura e certa;
mais que o amor vegetal a terra aberta
Do grão que em cada semeadura cresce.

Amo-te sobre o tempo e sobre a vida
sobre o que for minh´hora indefinida
De amar-te mais do que a razão me importe.

Não basta a aurora e sua mensagem rubra
prá que este amor marcado se descubra
e seja mais amor dentro da morte.

 

 

 

ROMARIA NOTURNA

 

A noite ventre de aurora
eterno imenso fecundo
toca os seus cabelos negros
no corpo exausto do mundo.

 

Me larga sono me deixa
que este murmúrio e este açoite
levam a noite de minh´alma
a alma negra da noite.

 

Escuto meu passo de ontem
que me apavora e me assombra
errando como um duende
perdido dentro da sombra.

 

Há um gemido incontido
que sobre o asfalto flutua
antigas dores do tempo
n’alma de pedra da rua

 

No preço de uma cachaça
do copo de João Saul
há balanços de saveiros
e sopros de vento sul

 

E noites de pescaria
e curriacos-tucuns
rompendo o peito das águas
mordido de guaiamus.

 

Tudo marcam modorrentos
estes meus dedos noturnos.

 

Momentos de cabarés
com lantejoulas chinesas
e girândolas tremendo
com reticências acesas

 

E tristezas volitando
candelabros intangidos
vacilantes e pendentes
de tetos inconcebidos.

 

Trompetes embriagados
se arrastando nas escalas
chorando ritmos loucos
que repercutem nas salas.

 

Tudo marcam modorrentos
estes meus dedos noturnos.

 

Mas no quarto de Clarice
há saudades masculinas
que se escondem nos tecidos
de avermelhadas cortinas


E o nome de um marinheiro
cheio de ausência e viagem
sobre as tetas de Clarice
cobertas de tatuagem.

 

Boquinha traz duas pernas
da maldita; não demora
que a erva é na preguiça
mas só gimbra até dez horas

 

Meia noite, mês passado
houve uns esp’ritos por lá
de zarro se espiantaram
mas foi esbirro fechar.


O que tem não me endoidece
porque esta perna é minha.
´Tou nas bocas não se esquece
mas vai depressa Boquinha.

 

No bolso de calça curta
de Boquinha não há pão.
mas, um baralho escondido
num maço de papelão.

 

E cedo no bando afoito
de outros moleques fregueses
do crime apostas nas chapas
dos automóveis burgueses


Perambula depois deita
sobre um passeio qualquer
até que a Bahia acorde
do seu rico canapé.


Na igreja de São Francisco
cospe à face da anciã
que ainda dorme coberta
da fria paz da manhã.


E enquanto a alma da igreja
se inflama de incenso e prece
romeira de outros caminhos
minha esperança estremece.

 

Ó noite! Ventre de aurora.
Eterno. Imenso. Fecundo.
Toca os teus cabelos negros
no corpo exausto do mundo.

 

 

NA PROCISSÃO DA PAIXÃO

 

Bartolomeu não comeu

o seu pedaço de pão

Porque tão envergonhados

os homens encapuçados?

Do Carmo ao paço

Do Paço ao Carmo

O Pelourinho é o tempo

e a ação da Procissão.

Senhor morto

morto e triste

Mas, na igreja,

o padre insiste:

Senhor vivo

Senhor vivo

 

Incenso nas Irmandades

— dos cristãos

quais os irmãos?

 

A fé de Joaquim

o café de Serafim

o sapato de celeste

o tamanco de Maria

a toalha de Zefinha

o manto de Conceição

nos passos da Procissão

da Paixão.

 

Pivete dono de esquina

invadiu a Procissão

da Paixão

E balançou o andor

do Senhor

Mas, o Senhor não caiu;

pois o braço de seis homens

piedoso, piedoso,

à pressa, o segurou.

 

E o Bispo se assustou

na Procissão do Senhor.

 

 

 

ROSA E A ROSA DE MARÇO

 

Dei uma rosa à Rosa, ontem, quando chegara

ao leito a que seu corpo vem como cicio

e com a mão que a criou, Rosa a depositara

na noite do meu quarto intacto e vazio.

 

Por entre a carne e o linho, Rosa me abismara

Março já não nos traz frestas o frio

Rosa-amor que nasceu da vertigem do estio

Tendo a mão que a criou numa rosa ficara.

 

Rosas amanheceram prenhes de arrebol

mas, a brisa a ferir finos filtros de sol

vem-lhes estranhas cor sobre o ventre sentir

 

Hoje, rosa não há. Mas, tu, Rosa intangida,

Sementes me depões nesta noite indormida,

Pra na luz de amanhã outra rosa existir.”

 

SONETO DE UM NOVO ENTENDIMENTO

 

Como não entender? Como voltar-se

ao tempo axial? Como valer-se

em corpos e equilíbrios e somar-se

ao espaço a realidade de doer-se?

 

Há de existir o tempo que imagino

tão breve quão difícil de conter-se

em nova arquitetura e por haver-se

gestado em sua semente e em seu destino.

 

Os corações conduzem nas ogivas

antigas pulsações adjetivas

do tempo vivo para o tempo morto.

 

Quem sabe do meu canto não cantado?

e tenho um todo amor desabitado

que de haver sido peito agora é porto.

 

 

CANTO AO AÇOUGUEIRO MORTO

 

Em sua atitude de hirsuto

de uma intima dimensão

é João é vivo e é forte

sua revolta é mais revolta

porque é revolta na morte.

 

Os meus sonhos retesados

já nada podem fazer

seus lábios enregelados

já nada podem dizer

que traduzem a esperança

que toda revolta traz

na esperança interrompida

que, ai, a morte é mais vida

 

O pranto que molha a sala

onde todos morrem em parte

na refeição espontânea

na indisciplina dos gestos

nos batuques nas novenas

no dominó sabatino

na obrigação de Iansã

 

- esse pranto é linfa livre

nas mãos da prole sofrida

para regar a semente

da rosa que hoje é rosa

e será fruto amanhã.

 

É fácil ver João presente

em cada hora infantil

de suas crianças órfãs

no esforço interior

da companheira deixada

no mundo particular

da mesa quase vazia

da casa sem João nem rumos

 

Ah presença visual

da mesa presa à parede

ilimitada e frustrada

em seu espaço e em seu tempo!

 

Ah longos olhos de Flora

no seu nasce o dia inteiro

no seu morre o dia inteiro

em seu crepúsculo de sangue

em sua aurora de carne!

 

É fácil ver João parado

nos olhos da companheira

nas serrilhas de outras mãos

iguais às mãos que trazia

sobre o corpo e sobre a alma.

 

 

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