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Sábado, 18 de Setembro de 2021 - 05:05

Jehová, o bardo dos sonhos e da noite (I)

por Florisvaldo Mattos

Jehová, o bardo dos sonhos e da noite (I)
Arte: Ângelo Roberto

Graças à gentileza de uma amiga, a professora Ana Angélica Marinho, de quem recebi prazerosamente um exemplar como brinde, após muitos anos, reli A Cidade Que Não Dorme – Crônicas Noturnas de São Salvador da Bahia (2ª edição, 1994), de Jehová de Carvalho (1930-2006), saudoso jornalista, cronista, poeta, advogado trabalhista e, sobretudo, alto ícone da boemia baiana, da estirpe de um José Rodrigues de Miranda Filho (o célebre Mirandão, personagem de Jorge Amado, em Dona Flor e seus dois maridos), de Nilson de Oliva César (o Pixoxó, irmão da portentosa atriz Nilda Spencer), Enir Pereira dos Santos (Gato Preto, colunista do Jornal da Bahia), Nino Guimarães, alto conhecedor da música popular brasileira, com experiência de convívios, entre outros.

 

Com ele, Jehová, convivi em tempos de saudável camaradagem e lazer, em endereços urbanos de livre fruição, como os restaurantes Porto do Moreira, Cacique, A Baiana e Trivial de Dona Maria; de outros míticos pontos de encontros, como o Anjo Azul, Tabaris Night Club, Metrô, Rumba Dancing, Pigalle, Churrascaria Ide; de cândidos botecos, como o Rio Verde, Torre Eifel, Pastelaria Triunfo, Varandá, de Sandoval Caldas, Bar Brasil e o Raso da Catarina, de Franco Barreto, e mais os que, à época, os mais velhos chamavam de randevu (do francês rendez-vous), entre outros, quase todos hoje apenas entrevistos sob a névoa de noites multicoloridas que se foram.

 

Leio e, extasiado, a cada crônica, recordo a cidade transparente, tranquila e suave, que também se foi e que, certo dia, o sempre saudoso contista Vasconcelos Maia recordava, em depoimento ao ensaísta e crítico literário Valdomiro Santana (1981), como “ideal para se viver – tranquila, pacata, sem assaltos”, e que outro saudosista, Jorge Amado, certa vez, também a classificou como uma cidade “deliciosa e tranquila muito agradável de se viver”.

 

Jornalista ativo e atento, foi como poeta e cronista que Jehová de Carvalho assentou praça na Bahia como escriba de pena sedutora. No exercício do jornalismo, começou como redator de A Crítica, que lhe abriu perspectivas para a criação literária e para oportunidades na área profissional, conforme assinala Raimundo Dalvo Costa da Silva, através da convivência com escritores e jornalistas, entre os quais Jorge Calmon (1915-2006), que o levou para A Tarde, onde de revisor evoluiu para a reportagem, a partir da cobertura policial, obtendo destaque, conforme relataria décadas depois.

 

“Fiz uma reportagem, em 1954, sobre a expansão da maconha na Bahia, que foi um sucesso, onde eu mostrei que a polícia perseguia apenas os negros e os pobres, quando na verdade havia todo tipo de gente envolvida com droga.” (COSTA, 2011).

 

Nessa atividade, revelou-se em Jehová o lado político, que vinha de suas origens modestas. Atuando durante algum tempo no Jornal da Bahia, tornou-se um admirador e até apoiador das novas técnicas de jornalismo impresso, que esse veículo, ao surgir, em 1958, introduziu, nos campos da narrativa, da apresentação gráfica e da cobertura dos fatos, assim como, lá, firmaria amizades com jornalistas de linha esquerdista, como Ariovaldo Matos, José Gorender, João da Costa Falcão, seu proprietário, que vinham do jornal O Momento, pertencente ao Partidão e empastelado, pouco tempo antes. Coincidiu também a inserção de Jehová no campo da política, ao abraçar claramente o tronco dos pensamentos de esquerda, na época representada pelo Partido Comunista, semeados e adubados pela corrente de ideias insufladas pelo pós-guerra (anos 1950).

 

“Jehová vive a democratização e as transformações da imprensa, que vai ser atingida em 1964 com o golpe militar. A sua relação direta com uma nova linha de pensamento que se esboçava em Salvador, como época modernista na Bahia, veio solidificar sua prática política voltada para a cultura popular, quando vários jornalistas, intelectuais, nacionais e estrangeiros, passaram a questionar toda a tradição artística, literária e jornalística na Capital baiana.” (…) “Percebe-se não apenas que o escritor tinha um comprometimento político e social com pessoas de estrato social considerado inferior, como também a sua preocupação com os negros que eram segregados. Por outro lado, fez questão de afirmar que seus ideais de defender a causa dos excluídos não tinha preço.” (COSTA, 2011).

 

Teve tanta expressão este seu lado, por assim dizer, ideológico, que, logo depois do lançamento de Um passo na noite, com a sua divulgação, em plena ditadura deflagrada em 1964, o autor viu-se intimado por militares golpistas para explicar-se sobre poemas do livro, cujos enunciados consideravam pensamento de esquerda, especialmente por suas ligações com o Partidão e amigos seus seguidores. Muitos anos depois, em 1994, numa entrevista ao jornal A Tarde, Jehová contou as agruras por que passara durante mais de uma inquisição militar.

 

“Vinham aqueles indivíduos com a sua arrogância militar e a mutilar o nosso texto. Fui vítima disso várias vezes. Uma vez, publicaram na A Tarde um poema que eu fiz chamado ‘Canto ao açougueiro morto’. Era um poema libertário e eu tive que prestar depoimento por causa dele. Disseram que eu era socialista e eu falei que não era filiado a partido algum… ganhei umas bofetadas e me libertaram, mas avisaram para nunca mais publicar poema algum no jornal”. (COSTA, 2011)

 

Mesmo com prefácio assinado por Jorge Amado, o seu primeiro livro enfrentou dificuldades de publicação, como faz entender o autor, após o seu lançamento, numa entrevista concedida ao Diário de Notícias (1969), Jehová confessava quase vaidosamente:

 

“É apenas simbólico o título de Um Passo na Noite. A ideia de lançar um livro vem de 14 anos atrás, na velha Pastelaria Triunfo, e surgiu de Artur de Sales, o último dos grandes parnasianos baianos. Presentes Nathur de Assis, Castellar Sampaio e o velho Alfeu França. Daí lá para cá, houve várias tentativas, inclusive listas de amigos, mas deu tudo em nada. A época estava em franca evidencia o Movimento Cadernos da Bahia, com Adalmir da Cunha Miranda, Heron de Alencar, Otacílio Lopes e Wilson Lins. O velho Sócrates Marback chegou mesmo a escolher a Tipografia Regina para imprimi-lo. Tentou-se também, a IOB, mas ficou só na ideia. Com o lançamento satisfaço a um grupo de pessoas que me ajudaram a viver com seu afeto e que esperavam uma justificativa do meu comportamento existencial que é de certo modo, o mesmo delas.” (COSTA, 2011)

 

Os poemas de Um Passo na Noite acabaram publicados pela Mensageiro da Casa Grande, em 1966, e lançados na Livraria Civilização Brasileira, na Rua Chile, e na então sede do Governo do Estado, logo adiante, com farta presença de amigos, correligionários e amantes da poesia, assim como da boemia. No prefácio diz Jorge Amado:

 

“Certos poemas seus recordam-me Nicolas Guillén, não em ordem de influência, mas num parentesco de ritmo, como o ‘Canto ao Açougueiro Morto’ ou a ‘Procissão da Paixão’. Outros poemas parecem-me reclamar música”. (COSTA, 2011)

 

Lá, o mesmo Jorge Amado via-o “romântico e sensual”, com uma escrita “de fácil entendimento” –, um “canto nascido da vida popular, dirigido ao povo” –, enquanto o crítico João Carlos Teixeira Gomes, em comentário, tinha-o como “uma das mais belas vozes do lirismo baiano, captado em sua vivência cotidiana como homem do povo”.

 

É de Raimundo Mota juízo que muito demonstra quanto na Bahia se põem na conta do esquecimento as criações de poetas e talvez ficcionistas e prosadores outros, que não seguem a linha do refinamento verbal, ao se referir ao eixo de conteúdo de um poema da obra inaugural de Jehová:

 

“A linguagem irreverente e polemizadora falada pelo povo, retratada na poesia, denuncia a realidade baiana, que é apresentada do jeito que é, sem rebuscamento e refinamento; o poeta usa uma linguagem sem erudição, um lirismo social do modo de ser e viver dos personagens deste poema em especial do seu criador que viveu diretamente com essa gente. É o poeta livre falando da sua cidade. ‘Romaria Noturna’ foi escrito no Bar Cearense, em dezembro de 1955, quando Salvador já respirava os ares do Modernismo.” (…) A liberdade de expressão toma conta das mãos de Jehová. O cotidiano baiano passa a ser retratado da maneira que é: o grosseiro, absurdo, vulgar, conflituoso, tensões entre classes sociais, a falsa moral soteropolitana, ou seja, nelas tudo e todos podem se tornar objeto literário ou poético”. (COSTA, 2011).

 

Comentário igual caberia para os poemas “Procissão da Paixão” e “Canto do açougueiro morto”.

 

Por múltiplo e vasto, não dá para reproduzir o Jehová cronista; então resolvi optar pelo poeta, transcrevendo (adiante) poemas de sua autoria, alguns deles, assim como informações biográficas e literárias, colhidos num ensaio de Raimundo Dalvo Costa, para quem “a sua poesia é lírica, romântica, simbolista, moderna (não importa o gênero literário), carregada de musicalidade, paradoxos, idealismo amoroso, niilismo e de cultura popular, apresentando uma linguagem nada convencional, retratando o cotidiano, a história e a cultura do povo baiano”.   (Segue)

 

REFERÊNCIAS

CARVALHO, Jehová. Um passo na noite. Salvador: Mensageiro da Casa Grande, 1969.

CARVALHO, Jehová. A cidade que não dorme: crônicas noturnas de São Salvador da Bahia. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1994.

COSTA, Raimundo Dalvo – “A poesia de Jehová de Carvalho”. 2011. (Disponível em http://www.iaulas.com.br/site/arquivo/9259/apostilas-gerais/obras-literarias/a-poesia-de-jehova-de-carvalho.htm; captado em 11/02/2021).

 

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