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Sábado, 04 de Setembro de 2021 - 13:25

Nossa família: Ocupações

por Elieser Cesar

Nossa família: Ocupações
Foto: Acervo pessoal

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Quem conhece a nossa família sabe que só gastamos energia em ocupações produtivas, rentáveis, utilitárias, meritórias, ecléticas e, às vezes, transcendentes. Convictos do nosso potencial empreendedor, mas também um pouco ressabiados por não sermos compreendidos por todos – marca daqueles que estão à frente e não atrás ou mesmo do lado do seu tempo – procuramos dar um bom exemplo à classe trabalhadora e aos setores produtivos em geral nos dedicando a ações inovadoras e a engenhos paradigmáticos.

 

 Pelo menos uma vez na semana, eu procuro manter aceso o ânimo laborioso da nossa família com uma prática muito simples e amplamente reconfortante: munido de uma pequena sacola de papelão e como quem não quer nada, ando pelas calçadas do centro comercial da nossa cidade recolhendo com prazer e bonomia esses papéis e panfletos que as moças e os rapazes praticamente enfiam nas mãos dos pedestres e quando aceitos, não sem certa irritação, são jogos jogados nos chão (pelos mal-educados) e na cesta de lixo mais próxima (pelos que têm uma boa educação e verniz ambientalista).

 

O que para a maioria dos pedestres bombardeados por esses papéis é motivo de incômodo e aborrecimento, para mim é uma sublime experiência. Para a surpresa de quem os entrega, agradeço com uma vênia ensaiada ou uma pantomima circense a oferta desses anúncios, e prossigo o meu caminho até a última loja. No percurso de volta passo pela calçada oposta e recomeço a edificante operação.   Quando chego em casa confiro meu cabedal de ofertas e promoções. Não despejo, como seria de se esperar, os anúncios propagandísticos na mesa num empilhamento de papéis amarfanhados.  Pelo contrário, os despejo com o respeito reverencial de quem se prepara para ler uns salmos, e vou delicadamente desdobrando os papéis, alisando e enfileirando os anúncios e, em seguida me dedico a conferir um por um; inspeção que requer o senso de ordem e a emoção argentária do comerciante que, ao final do dia, confere todo o dinheiro que entrou no caixa.

 

Então, jubilante, percebo a epifania do óbvio: há naqueles papéis para os quais ninguém dá a mínima importância um código e inapreensível aos comuns mortais, inclusive aos doutos economistas, mas aos meus olhos uma mensagem cristalina como um raio de sol reverberando sobre águas estagnadas. Esses simpáticos panfletos dizem muito mais do que aparentemente apregoam a sua função comercial.

 

 Um impresso que oferece empréstimos pelo cartão de crédito, a juros leoninos, pode conter a redenção de um grave momento de descapitalização da economia doméstica que, em muitos casos, desestrutura a família, leva à separação de casais e, em casos extremos, porém não muito raros, ao suicídio de um dos cônjuges e, (em episódios mais improváveis) à imolação consentida de ambos.  Um panfleto acenando com a intervenção de um pai-de-santo para amarrar a sorte e desamarrar o azar é bem capaz de trazer, em sua semântica recôndita, a possibilidade de reconciliação de um grande amor. Uma dessas mulheres que nos enfiam goela abaixo um prospecto que informa a promoção de uma ótica pode ser a mensageira difusa a avisar que você está prestes a ficar cego e ainda não percebeu a fraqueza terminal das vistas. Não pensem que depois de ler, selecionar, catalogar e refletir sobre esses reveladores impressos que eu me apresso a jogá-los fora, com aquele desprezo vegetal de alguém que faz uma pequena bolinha de papel e a arremessa com um piparote em qualquer lugar da rua. Eu os guardo como um tesouro, um raro palimpsesto garimpado nesta arqueologia surpreendente das ruas.  

 

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Nossa mãe se devota a uma ocupação épica. Lembra uma Penélope pirracenta. Toda noite ela retira os botões da camisa do pijama do nosso pai e, na manhã seguinte os prega novamente para, outra vez à noite, voltar a despregá-los, a fim de na manhã seguinte retornar a pregá-los numa faina incessante de gastar linhas, entortar agulhas e até furar o dedo, dado à miopia avançada que a faz, sem os óculos, confundir os postes enfileirados das ruas com um grande colar de diamantes. Acho que ela foi gastando as vistas na leitura de obras como A sabedoria gota a gota, Como ser feliz apesar de tudo, Ainda há uma chance para você, A paz redentora dos mansos, e outros escritos altamente clássicos, indubitavelmente icônicos e celestialmente canônicos.                                                  

 

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A ocupação de nosso tio mais velho é menos nobre, mas não menos importante do que os afazeres dos demais membros da nossa família, pois o que conta é a somatória das nossas ações. Ele se entrega a anotar as placas dos carros. Para a ginástica diária, sobe na passarela da avenida mais movimentada da cidade e começa a anotar placas. Anota e quando preenche toda a folha de papel ofício A-4 colocas as anotações num saco de aniagem. Só volta para casa quando o saco já não comporta sequer um guardanapo.

 

Um repórter enxerido quis entrevistar nosso tio, mas ele o enxotou com a dignidade nobiliárquica e delicadeza insuperável da nossa estirpe: “sai pra lá, peste!”.

 

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  Nossos dois primos, filhos do nosso tio que anota as placas dos veículos, desenvolveram uma variante móvel e mais inteligente da ocupação do pai. Como num road movie a ser filmado, põem o pé na estrada num velho fusquinha para iniciar uma saudável e proveitosa competição: tirar a prova dos nove dos carros que estão à frente. Se algum veículo vem atrás, o motorista reduz a velocidade e, os primos com uma ansiedade de noiva no altar, aguardam o carro passar para fazer o cálculo. Se a placa foi 2238 é um bom sinal. A soma dos números absolutos é 15 e, tirando 9, restam 6. Vence aquele que cravar o maior, com exceção do 9. Abaixo de 5 qualquer número é mau augúrio e significa que algo de ruim vai acontecer na vida do sujeito. A suprema sorte é, no fim das contas, atingir o limite de 8. O cúmulo do azar é acabar na unidade 9: nove fora nada. Aí o sujeito está todo desgraçado.

 

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Com grande habilidade para as prendas domésticas (essa primeira graduação das mulheres livres e emancipadas da nossa família) nossa tia alimenta um generoso emprego do tempo: faz caprichados bolos de aniversário, daqueles de dois andares com cobertura de chocolate e tudo, e toda semana presenta a iguaria a um desconhecido, desejando-lhe “Feliz Aniversário!” Quase sempre ouve a resposta da pessoa colhida de surpresa, quando não estupefata: “A senhora se enganou. Meu aniversário não é hoje”. E minha tia sem perder a doce majestade de confeiteira do alheio responde, com um convencimento que não admitia contestação: “Oh, como você anda esquecido! Deve ser o peso dos anos”. Diz isso até para uma menina de uniforme escolar e volta às costas para o aniversariante ingrato que fica com o bolo na mão e a boca aberta como se prestes a provar a primeira fatia.

 

No dia em que acertou a data natalícia do presenteado – “oh, como senhora se lembrou, se todos se esqueceram de mim?”, minha Tia não pensou duas vezes. Arrebatou o grande bolo das mãos do aniversariante ingrato que já não se sentia abandonado por todos e se desculpou com um pretexto de velho atrapalhado: “Foi engano”. Não sei onde nossa tia acha tanto dinheiro para tamanho altruísmo, para tanta empatia e solidariedade.

 

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A ocupação predileta de nossa irmã mais velha é ir duas vezes por semana ao cinema, não para assistir ao filme, mas somente aos trailers. Podia está passando obras-primas das Sétima Arte como “O vampiro dos dentes de ouro”; (terror odontológico) “Brega em chamas”, (pornô catástrofe), “As últimas árvores da Amazônia” (distopia ecológica) e “Beijando na chuva” (musical romântico), que nossa irmã mais velha não ficava para ver o filme principal.

 

Quando o cinema está lotado, ela costumava ficar na última cadeira do meio da sala de projeção, somente para ir pedindo “licença, com licença, desculpe, dá licença, estou quase urinando aqui mesmo”, enquanto nesses espaços muito curtos que separam as poltronas do fundo dos assentos da frente esbarra nas pernas de um e outro, todos temerosos que o xixi respingue em seu colo.

 

 Organizada como eu em relação aos papéis de rua, nossa irmã mais velha guardava numa gaveta todos os ingressos dos filmes jamais vistos. Acho que daria uma boa crítica de trailers se não tivesse preguiça de ler e escrever, pois aprecia mais a economia gramatical e o consumo rápido do audiovisual. 

 

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Nossa irmã mais nova só vai à praia quando o tempo está nublado e quase não há possibilidade do sol surgir dentre as nuvens cinzentas. Mesmo assim carrega todos os apetrechos de verão: canga, óculos escuros , bronzeador, guarda-sol, cadeira e chapéu e também um namorado a tiracolo, quando não vai arrumar um nas areias frias. Se, por ocaso, o sol surpreende e destampa forte, para alegria dos banhistas que desafiam o inverno, minha irmã mais nova recolhe os seus pertences e, resmungando contra o que considera uma insuportável traição da natureza.

 

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 Nossa prima mexe e desmexe com a vaidade. Passa horas arrumando os cabelos, colocando maquiagem e espremendo as espinhas do rosto para, num arroubo instantâneo, desfazer tudo e sair desgrenhada à rua (não como uma megera, pois nossa prima é até jeitosinha, mas como a Cinderela antes do encantamento). Gasta potes e tubos de cosméticos, xampus, cremes hidrantes e outros produtos que para a maioria das mulheres são mais importantes do que a comida, só para ter o prazer de se enfeitar e desenfeitar e, no fim, sair de casa com uma cara de anjo mal dormido.

 

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Posso até continuar falando de outras construtivas ocupações da nossa família, mas já está na hora de sair às ruas para catar os meus papéis. A esta altura o leitor atento já deve ter percebido, o desatento vai demorar a perceber e o de cognição retardatária talvez não perceba nunca que, além de recolher os panfletos comerciais na calçada, minha segunda ocupação é registrar, na qualidade de cronista consanguíneo, as espetaculares ações da nossa família. Sei que muitos admiradores e até invejosos gostariam de fazer parte da nossa família, elevando assim o fraco tônus de suas existências bizarras e o caldo ralo de suas vidas bisonhas. Mas, na loteria do destino, esses não tiveram a sorte de nascer e se criar na nossa família.

 

O que nossa família – ramo superior da espécie -  pode fazer? Adotar esses inúteis, conformados e apáticos? Está fora de cogitação.

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