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Sábado, 28 de Agosto de 2021 - 05:08

O suicídio de LJBL

por Carlos Navarro Filho

O suicídio de LJBL
Foto: Lili Machado

Naquela noite saímos pelos bares, o nosso esporte favorito e prioritário de todos os dias. No bar de Zelito, um sujinho na esquina da 24 de Maio com a ladeira do Alto do Capinam, onde ficava a fonte do seu Martuccelo, comia-se tira-gostos diversos com cerveja ou uma cachacinha de “folha podre”, a depender do gosto. Tinha ovo cozido colorido já com alguma idade (em geral dois a três dias), pintados em água fervente com anilina vermelha, dois tons de azul e rosa (ele dosava as tonalidades de ciano e magenta com mais, ou menos, água). Com o mesmo tempo de fabricação ou quase sempre com mais idade, tinha carne do sol, ou jabá fritados em banha de porco, acompanhados com farofa de manteiga, enriquecida com torresmo, cebola e alho. Zelito sabia da demanda e as fornadas eram sempre para a semana, expostas ali em cima do balcão protegidas por coberturas de plástico incolor. Os ovos não reclamavam cobrimento ficavam em pratos esmaltados maiores que os normais, mas sem ainda ser bandejas, e serviam de aeroporto de moscas as mais variadas, forçando Zelito a lavar de vez em quando para disfarçar as minúsculas pintinhas pretas, registros das andanças da moscaria.

 

A vida inteira bebemos e comemos aquelas cachaças e iguarias duvidosas e ninguém jamais morreu, nem uma vez sequer, indigestão sempre havia mais pela cachaça nefasta para quem tem organismo fraco, nós não, nem uma infecçãozinha intestinal, nenhuma caganeira. Estômagos e intestinos jovens curtidos no álcool eram imbatíveis.

 

Quase defronte, na outra esquina em diagonal, ficava o Bigorrilho, um sujinho mais limpo que o bar de Zelito porque havia azulejos nas paredes, ladrilhos o que dava um aspecto classudo comparando com o chão de cimento de Zelito, e pequenos bufês sobre o balcão nos quais a casa oferecia as mesmas farofas de carne frita, pedaços de galinha empanados, além de bifes com saladas servidos no horário do almoço, ou ainda feijão tropeiro e peixe de água doce também empanados. A gestão do Bigorrilho era dos filhos de seu Esmeraldo, um deles petroleiro, o que significava altíssimo salário para os padrões da cidade, que só oferecia empregos de balconista no vasto comércio popular local incluindo os puteiros, e mesmo os de funcionário público na prefeitura, alguns poucos trabalhadores no hospital. Não havia espaço para comparações, principalmente na grande massa de trabalhadores braçais e muito em especial das domésticas trazidas da roça, ganhando casa e comida, a maioria sem pecúnia. O ganho desses pobres mortais não passava nem perto dos marajás da Petrobras e de alguma das multinacionais americanas que prestavam serviços e consultorias na perfuração e extração de óleo. Seu Esmeraldo era um amigo de Mariazinha, amizade feita nas missas dominicais que os dois frequentavam na Igreja do Convento de São Francisco, e por isso era gente da melhor qualidade. Ali no Bigorrilho sentávamos na calçada por estarmos acostumados aos banquinhos de madeira e engradados também de madeira de Zelito e de outros botequins. A gente ficava mais à vontade do que nas cadeiras e mesas plásticas, uma novidade comercial própria de botequins melhorados e que traziam o inconveniente de servir de cinzeiro, outro apetrecho inexistente em botecos de ponta de rua e mesmo os do centro da cidade.

 

O Bigorrilho tinha seus encantos à noite. Às vezes apareciam umas grandes e luxuosas caminhonetes D20, ou GMC, ou ainda um navio chamado Caravan, que deveria caber umas dez pessoas bem acomodadas. Desses caros e luxuosos veículos desciam umas lindas meninas filhas de fazendeiros, famílias ricas mas não absorvidas pela sociedade local e que não faziam o menor esforço para se integrar, posso dizer mesmo esnobavam a sociedade e suas dondocas, já que preferiam as belas casas de campo nas quais viviam não muito longe da sede do município, algumas até com piscinas uma novidade absoluta em uma época em que água servia para beber, cozinhar, lavar e dar aos animais, nunca para o lazer, limitado aos banhos de rios e lagoas. Elas chegavam e, antes de mais nada, sacavam os cigarros importados, Chesterfield, Camel ou PallMall, nos humilhando com os nossos Astória e Continental, arromba peito baratos.

 

Fosse alguma menina amiga, ou amiga de amigos, ou ainda parente, lá estaríamos metidos a sebo tentando um xaveco, que naquele tempo era flerte, cantada, dar em cima, paquera. Mas com aquelas meninas ricas mesmo sem ser esnobes ninguém da turma, nem Mazinho, o mais atirado, ou Muller, o segundo melhor dançarino da cidade, ou mesmo Marivaldo, portador de charmoso sotaque carioca, por ter morado no Rio para onde voltou aos dezoito anos, ninguém se arvorava a um olhar mais penetrante, um piscadela, nem qualquer movimento coquete. Delas a gente dizia, pegar não peguei não, mas dei cada olhada! O que era mentira porque os olhares eram sempre de viés, ninguém tinha peito de encarar. E elas ali, indiferentes, sorridentes, o que em tese seria um convite pelo menos para um papo. Mas que papo teríamos com a nossa conversa mole sobre mulher, de preferência de putaria, sobre futebol, ou, ainda política? O que falar com moças ricas e nos exibir? Qual papo seria interessante? O certo é que mesmo se tivéssemos coragem não sabíamos do que elas falavam, que assuntos poderíamos engatilhar e manter vivos, dar uma pegadinha nelas nem nos nosso melhores sonhos, éramos do tipo sem finesse, ninguém cortava unhas devidamente, ninguém passava esmalte, todo mundo cortava os cabelos com Liliu Barbeiro, defronte do posto de gasolina do pai de Waltinho, seu Altamirando Campos, ou com seu Agnaldo, embaixo do Hotel Roma, na Praça JJ Seabra, famosa pelo coreto que depois tornou-se a primeira sorveteria da cidade, de propriedade do pai de Picolé, um menino mais novo que a gente. Os nossos cabelos, com raras exceções, eram do tipo “maracanã”, moda herdada dos tempos da juventude transviada de James Dean, nos quais se sobressaía o topete ficando o resto da cabelo tosado quase rente por medida de economia porque demorava no mínimo dois meses para voltar ao cabelereiro. Seu Agnaldo, aliás, era conhecido pelas tiradas “intelectuais” tais como no dia em que Zé Roque também conhecido por Zé Maconha, apelido de todos os Josés na Bahia, chegou lá e perguntou se tinha efebiai. Seu Agnaldo mantinha na entrada da barbearia um mostruário com revistas e livros de bolso, em geral com histórias de cowboys americanos, ou de Jerônimo, o herói do sertão, além de uma revistas dinamarquesas com fotos de mulher pelada que ficavam escondidas e só os adultos bem adultos tinha acesso e pagavam caro por elas. Estudando na capital, como todos os jovens bem da cidade que os pais mandavam fazer o ginásio em Salvador para ter mais chance no vestibular de Medicina, Direito ou Engenharia, Zé Roque lia os livretos intitulados FBI e ao perguntar recebeu um não, seco, e foi embora. Seu Agnaldo, intelectual turrão, comentaria a seguir: “efebiai é gíria carioca, não gosto quando esses meninos ricos vêm aqui se amostrar”.

 

O nosso corte de cabelo não era páreo para as meninas ricas que traziam cabelereiras de fora, mesmo uma delas que tinha o corte curtinho denominado caroço de manga para umas, ou Joãozinho para outras. Certamente era a única vez na vida em que a gente sonhava coletivamente ser rico para poder pegar aquelas meninas.

 

Mais tarde, bem mais tarde, já em Salvador, fiquei amigo de uma, nós já mãe e pai de famílias e só aí fico sabendo que elas também nos avaliavam com olhares oblíquos e o senso comum nas quatro é que alguns de nós daria um caldo se tomássemos um banho de loja e de etiqueta. Em especial Bião, bem alto e bonitão. Não tive coragem de perguntar se estava entre os olhados por medo de decepção.

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