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Sábado, 15 de Maio de 2021 - 05:28

As mãos que me embalaram o ser

por Helenita Monte de Hollanda

As mãos que me embalaram o ser
Foto: Biaggio Talento

Hoje eu ganhei um presente de uma amiga – uma laranja cravo. Era pequenina, com a sua casca verde muito fina e o seu cheiro –  ah, o seu cheiro! – era aquele das mãos do meu avô que, na infância que retorna na lembrança, descascava-as, ágeis, para mim.

 

E esse cheiro, a nítida visão das suas mãos em atitude carinhosa, em amoroso serviço, encheu-me de recordações das muitas mãos que foram serviço, carinho e guia ao longo da minha vida. E foram tantas, que me divertiu a impressão de que eu passara a vida a observá-las e a senti-las.

 

As mãos do Doutor Leide Moraes me trouxeram ao mundo poucos anos depois que os meus pais se deram as mãos. E a imagem destas mãos firmemente unidas – e lindamente contrastantes ressaltando a alvura da pele materna na negritude do meu pai – deram-me a tranqüilidade de ser, a segurança para crescer, a confiança na incondicionalidade do amor – que gera e protege – entre um Colibri e a sua Margarida.

 

As mãos da minha mãe certamente foram o meu primeiro abraço, as companheiras protetoras que me alimentaram e protegeram dos tombos enquanto aprendia a caminhar, que ampararam quando as inevitáveis quedas machucaram-me. Depois, conduziram-me na caligrafia, pentearam-me os volumosos cabelos. Bateram-me palmas nas pequenas e grandes conquistas. Acompanharam, em gestual sempre calmo, as orientações amorosas, as broncas necessárias. Seguravam-me fortemente ao atravessarmos uma rua. Amigas e trêmulas, arrumaram-me o vestido de noiva, acompanharam-me nos cuidados dos meus próprios filhos.

 

As mãos do meu pai... estas, passavam para mim as páginas coloridas dos primeiros livros, da grande Bíblia ilustrada que eu gostava de ver sentada em seu colo. Deslizavam ágeis sobre as cordas do seu violão tocando, para que eu adormecesse – Sonata ao Luar, Romance de Amor... – sons inesquecíveis. Em perfeita harmonia com o seu raciocínio lógico e organizado, suas mãos ensinaram-me os cálculos que me custaram tanto reconhecer importantes. Conduziram-me na primeira valsa. Pela sua mão cheguei ao altar... Delas recebi os mais valiosos presentes – as bonecas que resolvera colecionar sendo já menina crescida, os livros que me trazia das muitas viagens e que, esperados, consolavam-me da sua ausência. Já maduro –  não chegou a envelhecer, o meu pai –, “tateavam antes de ter”, mas não vacilavam as suas mãos uma vez que as intenções dos gestos nunca deixaram de ser firmes.

 

As mãos da minha avó Suzete deram-me o primeiro banho. São as mais carinhosas e o carinho mais doce de que o meu corpo e o meu coração podem lembrar. As da minha avó paterna, vovó Lia, costuraram-me o enxoval de bebê, prepararam-me as merendas mais saborosas. Envelhecidas e emocionadas, receberam das minhas mãos a sua primeira bisneta que lhe trazia o nome em merecida homenagem.

Meu avô paterno, o velho Joaquim Victor, tinha mãos de homem trabalhador. Se ele descansava, as mãos ocupavam-se em rabiscos intermináveis: cálculos, desenhos... só pararam uma vez e, então, para sempre.

Ina tem mãos onipresentes. Amassavam a minha comida fazendo “raposinhas” que tornavam mais atraente o alimento que eu, enfastiada, sempre recusava. Davam-me banho, quando era criança, calçavam-me e descalçavam-me os sapatos, arrumavam minhas bagunças. Sempre ocupadas, ilusoriamente rápidas, envelhecidas, adquiriram uma tranquilidade merecida e tomaram gosto pelo enfeitar-se: pinta as unhas... dou-lhe anéis...

 

As mãos da minha madrinha Cristina fizeram-me os mais lindos penteados. Habilidosas, arrumavam-me vestidos em arranjos de última hora que só a sua paciência amorosa seria capaz de ajustar. Nascidas para a arte e o serviço, ignoram em sua destreza um detalhe congênito que lhe tirou a perfeição da forma e a cumulou de talentos tais que trazem o belo nas pontas dos dedos.

As mãos de Dinda sempre estiveram a serviço da nossa família. Mãos que batiam bolos, faziam garrafadas, rezavam quebrantos, benziam-nos. Embalou-nos a todos. Serviu-nos até o último instante.

 

Niniu, o nosso Dom Nivaldo, que tanto sujava as mãos cutucando a terra em invencionices botânicas quanto as purificava na consagração do pão e do vinho além de abençoar-me tantas vezes, há tanto tempo e para o meu encanto, ergueram uma minhoca que eu admirava em observação atenta entre os dedos, provocando o suspiro incontido que me deu alcunha: “Niniu, diga que eu sou uma minhoca!”. E ele disse e eu passei a ser, então a sua Minhoca Monte. Quando sonhamos um livro a quatro mãos e o preparamos no alvoroço de um envolvimento de toda família, ouvi a sua voz trêmula ao receber da minha mão o único exemplar do que chamamos O Regalo da Luz – “Minha filha, não pensei que você ainda me desse tamanha alegria nesta vida!”.

Num dia de grande dor, quando tantas ausências e separações já haviam me transformado na mulher que, no entanto, ainda se reconhecia na criança, eu chorava sentindo-me esquecida, no maior abandono que podia haver, Tio Tarcísio me estendeu a sua mão dizendo apenas: “assim será mais fácil.” E foi!

 

Quanto devo às tantas mãos que me embalaram o ser!

 

Olho para as minhas próprias mãos e nelas reconheço as mãos pequeninas de dedos finos e longos para quem meu pai imaginava o futuro de flautista. Mãos que trouxeram algumas crianças ao mundo quando o exercício da profissão médica exigiu estando eu afastada de centro especializado, que se fizeram amigas e companheiras de última hora de pacientes quando “o mal era de morte”, que plantam roseiras, que escrevem livros, que acarinham e conduzem filhos, que afagam o neto, mãos que envelhecem mas que, ainda ágeis, não desconhecem a responsabilidade de ser serviço.

 

Volto ao ponto de partida ainda conduzida pelas mãos do meu avô padre, que além de carinho, laranjas em gomos, moldavam o barro que assumia formas quase sempre de santos, que consagravam a hóstia, que abençoavam a todos, que seguraram tantas vezes minhas mãos em brincadeiras de “Serra, serra, serrador, serra a madeira do nosso Senhor”. Mãos que tremiam em suas ardentes pregações.

 

E agora, enquanto o cheiro da laranja ainda se deixa sentir no ar e a emoção trazida pelas lembranças me lembram o compromisso de ser serviço, sou toda gratidão a essas e a tantas outras mãos que me embalaram o ser e me ensinaram a ser.

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