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'Por que não tem museu no Subúrbio?': Há mais de uma década, Acervo da Laje dá resposta
Foto: Heitor Selatiel

Duas casas no São João do Cabrito abrigam o único museu do território do Subúrbio Ferroviário, o Acervo da Laje. Apesar de ser o único equipamento museal, esse não é o único espaço de memória, e isso José (Zé) Eduardo Ferreira Santos tem muito a falar. A partir de uma provocação na banca de doutorado e com o apoio da sua companheira, a professora Vilma Santos, ele montou, em 2009, o que seria o início do que define ser um "museu-casa-escola".

 

Nele, placas, conchas, esculturas, carrancas, bibliotecas (Geral, Coleções, Livros Raros, Futebol, Bahiana, Poesia, Autografados, Arte) e outros objetos que materializem a memória sobre o lugar estão à disposição do público, seja ele local ou de extra-local.

 

A valorização do território e a proposição de um imaginário sobre o Subúrbio são algumas das pautas da iniciativa do casal. De um almoço com vista para a Baía de Todos-os-Santos ou o contato direto com as obras expostas, tudo pode para quem chega ao Acervo da Laje. Ou pelo menos podia antes da pandemia, que afastou as pessoas por conta das medidas de isolamento necessárias neste momento, mas levou o espaço para um outro ambiente de aproximação: o digital.

 


Foto: Moisés A. Neuma/Agência Mural

 

Durante a entrevista com o Bahia Notícias, Zé Eduardo fala sobre a rede de projetos semelhantes que se formam no território, comenta sobre o surgimento do Acervo, mas também questiona. "Por que não tem museu no Subúrbio? Por que as grandes exposições de arte estão sempre do Corredor da Vitória para a Barra ou no Palourinho? Por que as intervenções artísticas estão no Comércio?".

 

Como surge o Acervo da Laje e quando ele inicia?

O Acervo nasce ali entre 2009 e 2010, depois que terminei minha pesquisa sobre repercussão de homicídios entre jovens na periferia, que foi um doutorado em Saúde Pública, aqui na UFBA. Terminei meu doutorado e o professor Gey Espinheira pediu para eu estudar a beleza do Subúrbio, que até então a gente olhava muito sob o viés da violência e desses aspectos mais estigmatizantes. A partir da fala dele, logo depois eu fui fazer uma pesquisa sobre a arte invisível e os trabalhadores da beleza na periferia de Salvador, junto com Vilma [sua esposa] e Marco Illuminati, que é um fotógrafo italiano, e a gente começou a mapear e encontrar artistas no Subúrbio que até então não conhecíamos. Começamos a comprar as obras, porque morreram cinco artistas, e passamos a expor as obras na casa da gente, na laje da Casa Um - que é como a gente chama a primeira etapa do projeto - e lá, de repente, as pessoas começaram a visitar. Teve uma matéria em que a repórter perguntou o que estava se tornando aquilo ali e a gente disse que era o Acervo da Laje. Em 2011 a gente fez a primeira exposição no São João do Cabrito e as pessoas começaram a entender o que estava se configurando: um espaço de memória artística e de estética do Subúrbio, o primeiro, digamos assim. Em 2014 participamos da Bienal da Bahia, da 31ª Bienal de São Paulo e logo depois começamos a construir a Casa Dois, de frente para a Ponte da Sardinha, e ficou como um espaço em que a gente faz atividade, exposições, oficinas, bate-papos, recebíamos visitas de escolas, universidades e artistas do mundo todo, que vinham para cá discutir essas questões da cidade, da arte, da memória, das periferias e nós começamos a adquirir obras de outros artistas para compor esse acervo. Ele fez dez anos no ano passado e estamos caminhando para o 11º agora. Nesse ano estamos fazendo reformas internas, fazendo a parte de catalogação, tem uma equipe de arquivologia, arquitetura e de museologia com jovens aqui do bairro para reformar esse espaço.

 


Foto: Reprodução / Acervo da Laje


O que o visitante ou o morador do Subúrbio que visite o Acervo da Laje vai encontrar entre os materiais expostos nestes dois espaços em que ele está disposto?

Na Casa Um a gente tem a coleção original do Acervo, que constitui as obras de artistas do Subúrbio: quadros, mosaicos, esculturas, pinturas, grafites, etc. Depois a parte mais de memória: tijolos das olarias daqui, ferros, grades, conchas e outros materiais que a gente considera que faz parte da memória do território. Além disso a gente tem uma biblioteca imensa, que está sendo reformada, com várias especialidades de livros, justamente de pesquisas que venho fazendo desde a década de 1990.

Já a Casa Dois, que é maior, ela tem as obras que a gente foi recebendo a partir da participação durante a Bienal da Bahia e inserção do Acervo da Laje dentro da cidade. Temos muitas obras de Bida, Janusberg, Prentice, de artistas que visitam o Subúrbio, uma coleção de obras de Adilson Baiano Paciência e de Otávio Bahia e da família.

A gente já tem uma parte do material que foi catalogado na internet, com as primeiras galerias das obras, aí dá para ver um pouco dessa diversidade, porque até então a gente sempre trabalhou com projetos para fora, como o "Ocupa Lajes" em muitos bairros de Salvador e centros culturais e esse ano a gente pensou, por conta da pandemia, de trabalhar mais internamente para quando voltarmos as pessoas terem uma noção maior do que é o Acervo da Laje.


Você citou que o Acervo da Laje foi a primeira iniciativa a revelar essa beleza do Subúrbio Ferroviário. Atualmente, quais são as outras e no que vocês agem para que as pessoas da região também se vejam de outro modo?

Depois da criação do Acervo o principal impacto acho que foi a bela ideia do Anderson Simplício que é o Belezas do Subúrbio, que é um Instagram super poderoso. Uma coisa muito válida. Antes da gente teve o Centro Cultural de Plataforma, que é muito importante para o território. Os equipamentos da prefeitura em Valéria, o Subúrbio 360, o Quintal Sensorial... Todas essas pessoas, de certo modo, a gente tem uma relação de alimentação mútua. Os jovens que começaram a gente com produção cultural, por exemplo, são egressos da Facom/UFBA. Eles têm contribuído muito para essa visualização do território em várias partes da cidade. Agora, com esses projetos da Aldir Blanc, a gente conseguiu inserir jovens, mesmo à distância, para trabalhar com essa ideia de catalogação, de arquivo. A inspriração, essa alimentação mútua e as redes fizeram com que a TV começasse a ver o Subúrbio de uma forma mais cultural, porque a nossa briga era que antes se olhava para aqui como um lugar de miséria, como se aqui não tivesse produção cultural, memória ou história. 

 

O Acervo da Laje discute muito a relação da cidade, dessas narrativas sobre o território da gente. Então você percebe o impacto disso tanto da comunidade, nos bairros, como as pessoas começam a olhar diferente para sua memória - está aí agora com o encerramento do trem do Subúrbio, de como as pessoas se manifestaram - quanto dos artistas que percebem isso. Se você reparar na quantidade de atores culturais do Subúrbio que foram contemplados nos últimos editais é uma coisa bonita de se ver. Antes era só o Centro. Aqui é um museu-casa-escola em que as pessoas vem e a gente não tem medo que a obra quebre, porque a pessoa é mais importante que a obra. Tem gente que nasce, cresce e morre aqui no território e nunca foi ao museu ou em um equipamento cultural no Centro. Primeiro que estavam sem equipamento, depois se você pensar que o transporte, ida e volta, dá R$ 8,40. E ainda acabaram com o transporte que custava R$ 0,50. É um processo de retirada do direito à cidade que a gente tá se rebelando nesse sentido. Tem que se pensar que a cidade é para todo mundo. Por que não tem museu no Subúrbio? Por que as grandes exposições de arte estão sempre do Corredor da Vitória para a Barra ou no Palourinho? Por que as intervenções artísticas estão no Comércio?

 


Foto: Reprodução / Facebook

 

Tem alguma articulação entre o Acervo da Laje e essas outras iniciativas de visibilização do Subúrbio? Vocês propõem atividades integradas, por exemplo?

Temos contato [entre nós], encontros... São trabalhos complementares. Então, por exemplo, Simplício [do Belezas do Subúrbio] eu considero como uma das pessoas mais importantes para essa valorização. A gente tem contato, ele vem aqui e quando ele posta algo do Acervo ganhamos vários seguidores. Eu e Vilma somos professores, a gente não é da internet, somos um casal de 51 e 47 anos, nosso negócio é materialidade, que o visitante venha, conheça as peças e perca o medo do território. Ivana Magalhães, que tem o Quintal Sensorial em Itacaranha e faz um trabalho fabuloso, onde ela recupera todas essas plantas ancestrais que fazem parte da nossa história. Tem Fabrício Cumming, que tem o programa Periferia de Sucesso na TV Kirimurê. Ele gravou aqui durante oito meses na pandemia. Tudo fechado e ele vinha para aqui com uma equipe de duas pessoas e gravava tudo pelo celular. Quando a gente ganha um projeto chama todo esse pessoal para trabalhar com a gente. E a recíproca é verdadeira. Tem um diálogo porque é uma rede que tá se criando.

 

Vocês pretendem fazer com que esse apanhado de obras do Acervo da Laje rodem por outros museus mundo afora? Há algum projeto nesse sentido?

Estamos catalogando justamente para fazer essa roda-viva agora. Na pandemia a gente ganhou muita visibilidade porque todo mundo migrou para as redes. Isso faz você conhecer museus, outras instituições, outras pessoas. A ideia é fazer com que isso gire. 

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