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Quinta, 30 de Setembro de 2021 - 15:50

Com a barbárie não se negocia

por Maria Marighella

Com a barbárie não se negocia
Foto: Aju Paraguassu/ Divulgação

Há quem lucra com a morte; quem encarna e assume a distopia e, hoje, coloca o lucro – o seu – acima da vida de todas e todos nós. “Se a um fascista é concedido cargo alto e voz viril, vai lucrar do desespero, tal loucura já se viu. Bolso dele sempre cheio, nosso copo anda vazio. Mesquinhez e intolerância”. A banda Francisco El Hombre denuncia na canção ‘Bolso nada’ a aliança entre quem lucra e quem opera no fascismo. Como foi escancarado nesta semana, essa união nos custa vidas.

 

Vimos uma empresa vender planos de saúde mais baratos para pessoas idosas. E, em meio a uma pandemia, passar a fazer desses pacientes cobaias de medicamentos com uso para Covid-19 não confirmado pela comunidade científica. E aí que a pandemia vira catástrofe. Algumas pessoas morreram, mas essas mortes têm a causa oculta. Pois, na farsa que os nossos “responsáveis” federais levaram a cabo para justificarem que a doença era uma “gripezinha” sem letalidade, aqueles medicamentos tinham que funcionar: contra toda evidência e contra todos nós.

 

Eis o roteiro de morte e lucro do Brasil de 2021. A empresa é a Prevent Senior. No curso da pandemia da Covid-19, determinou que seus médicos receitassem o “kit-covid”, um conjunto de medicamentos que tinha a hidroxicloroquina como carro-chefe da campanha delirante e mortífera do bolsonarismo. Essas determinações político-empresariais viraram práticas eugenistas e decidiram quem deveria morrer.

 

Na última terça-feira (28), a advogada Bruna Morato expôs os detalhes dessa trama brutal à CPI da Covid. Com efeito, a empresa atendia ao chamado do Ministério da Economia e do Governo Bolsonaro. “O Brasil não pode parar”, diziam aqueles que defendiam que as atividades econômicas deveriam permanecer inalteradas enquanto o país ficava sem respiração.

 

O neoliberalismo, de mãos dadas com a extrema-direita, executou um plano mortífero, mas com lucro para alguns. Eis a face perversa do capitalismo neoliberal exposta à luz do dia. Ao mesmo tempo em que muitos brasileiros reagimos estupefatos a esse grave episódio, ouvimos um silêncio ensurdecedor de setores democratas que nos produz inquietação.

 

Estamos no tempo das catástrofes, mas também nos aproximando de um período eleitoral que será crucial para o futuro do Brasil. Todo o mundo faz suas contas – é compreensível –, ainda que nem todas sejam legítimas. Contudo, à luz dos efeitos brutais que a aliança do lucro ilimitado – e obsessivo – e a política da morte trouxeram para as nossas vidas, queremos, pelo menos, suscitar perplexidade de alguns democratas da nossa cidade que não integram o nosso campo.

 

A catástrofe pandêmica e a crise ambiental estão trazendo um novo mundo para a existência. Um novo antagonismo opõe aqueles comprometidos com o cuidado da vida – com todas as divergências e disputas possíveis – e aqueles cuja única bandeira é o lucro incessante – para além da vida. A política tradicional parece incapaz de reconhecer essa situação. Recentemente, o prefeito Bruno Reis convidou o presidente Jair Bolsonaro para a inauguração do sistema BRT de Salvador. Na contramão do futuro que já está chegando.

 

Com a barbárie não se negocia.

 

*Maria Marighella é vice-líder do PT na Câmara Municipal de Salvador

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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