Quarta, 31 de Dezembro de 2014 - 18:10

‘Superalimentos’ são mais marketing do que ciência

‘Superalimentos’ são mais marketing do que ciência
Foto: Reprodução
Embora existam diversos estudos que atribuem superpoderes a alimentos como frutas vermelhas, cacau, castanha-do-Pará, quinoa e as mais pedidos da vez goji berry e chia, os benefícios atribuídos a eles estão longe de ser unanimidade. Esses alimentos se tornaram uma verdadeira febre entre os adeptos de uma alimentação saudável. Mas, segundo alguns especialistas, a moda é embalada pelo marketing dos produtos, que, por sua vez, se alimenta de resultados de pesquisas. "É mais criação do marketing do que da ciência", diz a nutricionista Manuela Dolinsky, professora da Universidade Federal Fluminense em entrevista ao portal Folha de S. Paulo. Segundo a nutricionista ainda não existem estudos suficientes, em humanos, que possam comprovar a maioria desses benefícios (ou malefícios) atribuídos a determinados alimentos. Muitos dos estudos são feitos em laboratório, com culturas de células, outros são feitos em animais. Por isso ainda faltam evidências científicas. 
 
O problema é que basta sair um estudo preliminar para que a indústria aproveite a “onda” e explore possíveis benefícios para alavancar a venda de produtos a base desses alimentos ou em muitos casos os próprios alimentos in natura. E nessa “onda” acabam surgindo os mais diversos tipos de produtos como cápsulas milagrosas de emagrecimento, cosméticos, e tudo mais no que se possa fabricar a partir dos super alimentos. "Basta ter um artigo comprovando um efeito in vitro que o resultado já é extrapolado para qualquer situação, sem comprovação", diz a nutricionista Ana Luísa Faller, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro. 
 
A engenheira de alimentos da Unicamp, Daniela Souza Ferreira cita como exemplo o açaí, fruta que é fonte de antocianinas, pigmento avermelhado com ação antioxidante. Após alguns estudos com ratos já relacionaram o consumo da fruta com a prevenção de câncer, de danos cerebrais e com o controle do colesterol. "Mas os estudos envolvem simulações. Ainda não se sabe qual é o efeito real no nosso organismo, onde e como os compostos agem", diz Daniela. 
 
Mas nem tudo é exagero nas propriedades atribuídas aos "superalimentos". De fato, alguns são boas fontes de compostos bioativos, substâncias com diversas funções, mas popularizadas pelo poder antioxidante como o açaí e outras frutas vermelhas. Mas daí até classificá-los como milagrosos é um processo que requer cautela. 
 
Alimentos que contem antioxidantes são sempre os queridinhos do mercado. Mas, segundo especialistas, o problema é que ainda não é possível mensurar quanto antioxidante a pessoa precisa ingerir para se livrar dos riscos de câncer, por exemplo. Uma xícara de goji berry seria pouco para conseguir o efeito proclamado pelos estudos, calcula o nutrólogo Durval Ribas Filho, presidente da Associação Brasileira de Nutrologia. Também não se sabe até que ponto a forma de consumo interfere no efeito. No caso do açaí, a perda de nutrientes da fruta in natura para a versão em polpa congelada é muito grande, diz Dolinksy.

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