Segunda, 11 de Fevereiro de 2019 - 07:20

Lamentos, mortes que viram números e a ilusão do Estado desnecessário

por Fernando Duarte

Lamentos, mortes que viram números e a ilusão do Estado desnecessário
Foto: Reprodução/ Duke

O Brasil começou 2019 como espectador de ao menos três tragédias, Brumadinho, chuvas no Rio de Janeiro e o incêndio no CT do Flamengo. Na teoria, elas têm pouco em comum. Na prática, os três episódios mostram que o discurso do Estado desnecessário, bem comum no momento "ultraliberalista" do país, é um engodo para diminuir as responsabilidades do principal agente regulador e fiscalizador de uma nação. Sim, a mão invisível é o único meio de chegar onde o povo apenas acha que atinge.

 

Se com o aparato atualmente existente o Estado brasileiro segue omisso de seus papéis, imagina com a implantação de um Estado cada vez mais mínimo como se propõe pela "nova política"? Se os fiscais da Agência Nacional de Mineração tivessem condições de fiscalizar bem as barragens de rejeitos, Mariana e Brumadinho teriam acontecido? Se a Vale fosse efetivamente responsabilizada pelos crimes ambientais que comete, o rio Paraopeba teria o mesmo fim do rio Doce?

 

No Rio de Janeiro, as duas tragédias estão ligeiramente conectadas. As chuvas provocaram alagamentos e desabamentos que resultaram nas primeiras mortes, ainda na quarta e quinta-feira. Na sexta, jovens confinados em contêineres acabaram queimados enquanto dormiam no Ninho do Urubu - a chuva diminuiu o número de vítimas, mas obrigou aqueles que ali estavam a permanecer confinados. Se agentes do Estado - Executivo, Legislativo e Judiciário - fizessem o esperado, os dois episódios teriam acontecido?

 

São perguntas que jamais serão respondidas inteiramente. Principalmente porque os atores desse drama jamais serão conhecidos sem máscaras. Porém esses desastres são apenas alguns exemplos de como a "ausência" do Estado transforma vidas em números. Puxando na memória, sobram episódios em que se houvesse fiscalização, regulação e efetividade da mão invisível, alguns traumas não teriam acontecido. Na Bahia, temos as mortes de torcedores na antiga Fonte Nova, de Lajedinho ou de Barro Branco. A primeira, inclusive, elegeu até um dos responsáveis como deputado estadual.

 

É preciso rediscutir o papel do Estado no Brasil? Sem dúvidas. Porém o discurso raso de que ele não deve existir só vai facilitar para que novas tragédias aconteçam, enquanto aqueles que defendem a inexistência desse Estado não vivem na pele a dor de ver pessoas transformadas em números de mortos. Ao virar a página dessas tragédias - de maneira muito rápida - esquecemos de que vidas importam. E a nossa omissão é tão criminosa quanto aqueles responsáveis por Brumadinhos, Lajedinhos e Barros Brancos e tantas outras tragédias que matam...

 

Este texto integra o comentário desta segunda-feira (11) para a RBN Digital, veiculado às 7h e às 12h30, e para as rádios Excelsior, Irecê Líder FM, Clube FM e RB FM.

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