Marcante no 'Zorra', Luís Salém reconhece o poder do humor na reflexão do cenário político
Foto: Paulo Victor Nadal / Bahia Notícias

Natural do Rio de Janeiro e a cada dia mais baiano, o ator Luís Salém escolheu a capital baiana para morar por conta dos laços que foram construídos com a cidade desde a infância. A mudança de endereço, no entanto, também foi motivada pelos vários problemas que sua terra natal tem enfrentado e que lhe fizeram se sentir “cansado de viver acuado e meio que assustado”, principalmente devido à violência, à intolerância e aos políticos que passaram a administrar o lugar.

 

Experiente por ter interpretado vários papéis na TV Globo, como no “Zorra”, Salém chama atenção para o humor politizado abordado na atração e o potencial que a linguagem tem de proporcionar “não só diversão, não só o relaxamento”, ao mesmo tempo que permite uma reflexão do público. 

 

O artista também aproveita para destacar o quanto tem ficado satisfeito artisticamente em realizar os seus recentes trabalhos como a peça “Novo Baiano”, que ficou em cartaz em Salvador, além se sua participação na série do GNT “Os Homens São de Marte e É Para Lá Que Eu Vou”, ao lado da colega e amiga Mônica Martelli. Para ele, não há urgência para retornar às novelas, mas Salém reconhece que além do prazer de fazer parte do formato, o fator financeiro é sempre bem-vindo enquanto contratado por uma obra do horário nobre da Rede Globo. 

 

 

Você é natural do Rio de Janeiro e Salvador passou a ser a sua morada. Há quanto tempo você está na capital baiana?
Em julho completei um ano e oito meses.

 

O que te motivou a passar a viver por aqui?
Eu tinha uma relação forte com Salvador desde muito tempo atrás. Sempre foi uma cidade muito próxima a mim, tinha amigos aqui e gostava do clima. Uma cidade que eu conheci com 10 anos de idade, trazido por minha mãe e me apaixonei desde então. Tinha esse projeto guardado na mente e no coração de um dia, talvez, morar em Salvador. Foi possível em 2017, eu consegui resolver minhas coisas e vim para cá para viver. Mas o que me trouxe foi um apreço grande, um carinho grande e uma sintonia de muito tempo com a cidade. Juntou com o fato da minha cidade natal estar enfrentando vários problemas e ser desestimulante ficar por lá. Quem pode e quem tem oportunidade de dar uma variada no cardápio, é sempre bom. Vou-me embora, vou atrás da felicidade, que é o compromisso maior que a gente tem que ter na vida. O Rio de Janeiro se tornou uma cidade inviável para esse exercício, estava cansado de viver acuado e meio que assustado. Apesar de Salvador não ser o paraíso e não existe esse paraíso em lugar nenhum, mas é uma cidade que tem menos problemas do que os que eu enfrentava no Rio de Janeiro.

 

Como você avalia a atual situação que se encontra a sua cidade natal? O que te orgulha e o que te decepciona?
O que me orgulha é a garra do carioca, do povo do Rio, mesmo errando nas eleições, mesmo com uma parte da população elegendo aquilo que não deveria ser eleito… Mas de uma forma geral, o carioca tem garra, assim como o povo baiano. E sobreviver nessa cidade, isso me enche de orgulho. O que me decepciona demais é o que a cidade se tornou. A violência tomando conta da cidade, a intolerância em terreiros de candomblé e casas de santo, que são invadidas e quebradas. Isso é uma coisa que deixa a gente muito assustado. Quando chega nesse lugar você fala assim: “credo, aonde a gente vai parar?”. Essa falta de respeito, essa falta de tolerância pelas diferenças, não só sexuais, mas todas elas, é assustador. E pensar que a gente tem atualmente um prefeito e um governador que são simpatizantes. Nada contra os evangélicos, tenho todo o respeito às pessoas que acreditam e que seguem, mas existem limites para tudo. 

 

No ano passado você declarou para alguns sites que tinha o desejo de participar do elenco de “Segundo Sol”, mas não chegou a receber convites. Qual foi o seu sentimento por não ser chamado para compor o elenco?
Na verdade, a pessoa que me fez essa pergunta respondeu muito mais fortemente do que eu. Eu moro em Salvador e saber que tinha uma novela gravada aqui, claro que eu ficaria super feliz de ter sido convidado, mas não era uma coisa que me deixasse nervoso. Pareceu uma coisa esperada, não era isso, era um desejo de participar de uma novela que se passava em minha cidade. Acho que não só eu, como vários atores baianos adorariam ter participado dessa novela. Alguns baianos estavam lá, alguns moradores e simpatizantes, para minha alegria. Não fui chamado, mas não era algo assim urgente. A pessoa que me fez a pergunta ouviu de uma forma mais nervosa do que eu disse. 

 

Você é morador da Barra e o bairro tem sido usado para manifestações pró e contra o governo. Pensando nos artistas que também fazem questão de participar dessas manifestações, como você se encaixa nessa polarização atual?
Eu tento ser respeitoso, eu tento entender. Cada um votou em quem quis e a gente tem que aceitar a derrota e aceitar a vitória também, apesar dessa vitória não ter tanto motivo para ser comemorada. Por vários motivos e por várias discordâncias eu fui derrotado nas eleições e acho que toda a população brasileira, inclusive quem votou, acaba sendo derrotada também com o que a gente está vendo agora acontecer. Eu me coloco dessa forma, não sou militante, não milito para nenhum partido, mas não sou simpatizante a este governo. A gente tem que suportar, porque eles foram eleitos, a gente vai aceitar a legitimidade deste governo que infelizmente não foi aceita na candidata que foi eleita anteriormente, que foi tirada do mandato ilegitimamente. Mas a gente que é democrata vai protestar quando for preciso, quando for necessário, que é o que a gente tem feito e tentado fazer. Todas as manifestações que eu fui foram muito bonitas e muito ordeiras, eu não presenciei nenhum atitude de vandalismo e violência. A Bahia é a Bahia, aqui a gente aprende que é outra maneira de se comportar. 

 

Seguidores têm apontado que o Zorra, atualmente, tem feito os seus quadros com posicionamentos políticos que o jornalismo da emissora tem optado por não destacar. Como você avalia o uso do humor politizado no programa que você já fez parte?
É o caminho que se segue já há algum tempo. Isso sempre aconteceu desde o “Casseta e Planeta”. O “Casseta” tinha essa abordagem política. Se a gente lembrar do governo do Itamar Franco, os meninos zoaram o Itamar. E o humor já há algum tempo tem sido não só diversão, não só o relaxamento, mas tem servido para a reflexão. Através do humor a gente tem conseguido levantar muitas questões, não só os meninos do “Zorra” agora, mas como o “Portas dos Fundos”, que levantam muitos sentidos, e alguns canais e sites da Bahia, de pessoas que também levam para o humor. É um caminho natural. A questão do jornalismo, acho que é o editorial da casa que é o que comanda a pauta que eles abordam, mas eu tenho presenciado, sem querer defender, que têm notícias que não tem como não ser dadas. As notícias por si só já falam e não precisa de posicionamento. Acabamos de ver que 19 remédios que eram distribuídos gratuitamente para a população não serão mais distribuídos. Não tem que tomar partido nenhum, é um assassinato que está sendo cometido com a saúde pública brasileira e não precisa dizer nada. Acharia estranho se não dessem essa notícia. A TV Globo é uma indústria, tem lá suas inclinações. O bom é que tem esse espaço para o “Zorra” e outros programas de humor que podem falar mais claramente. A mim parece que o humor é sempre perdoado, só que os poderosos não entendem que o humor é transformador. A pessoa está lá rindo, mas depois coloca a mão na cabeça e fala: ‘caramba, porque eu tô rindo disso, o que é que estou achando graça?’. 

Nesse sentido, o humor na televisão tem que ter algum limite? 
Eu acho que não. O limite a própria pessoa que cria se dá. Os limites são de acordo com o que você vai falar. Que limite pode se cobrar do humor quando o Ministério da Saúde e o governo não tem limite quando proíbe 19 remédios para a população? Isso deveria ser limitado. Agora você vai ficar preocupado porque o homem fez uma piada ou criticando de alguma forma através da linguagem do humor? Acho que tem que ter responsabilidade. Quando você faz alguma coisa ou fala dela com humor existe uma responsabilidade que você traz com a sua posição. Não importa a linguagem. Com os meninos do “Zorra”, eu acabei de ver eles falando de Bolsonaro, que disse não ser contra o trabalho infantil. Fizeram uma charge musical, uma coisa muito engraçada com eles cantando. É bárbaro aquilo. O nosso presidente pode ficar incomodado com essa brincadeira, mas a gente ficou incomodado com o que ele falou. Cada um responde com o que tem. Os meninos responderam com humor e fizeram de uma forma brilhante. E volto a dizer, a pessoa vai rir daquilo? Vai, mas vai também pensar: “caramba, do que é que estou rindo, aonde a gente chegou? Como é que alguém em sã consciência diz que o trabalho infantil não tem nada contra?”. O humor há muito tempo vem exercendo esse papel de denúncia. 

 

Além de Brigitte no teatro, você foi destaque na novela “Aquele Beijo” com a personagem Ana Girafa, uma transexual. Hoje vemos as portas se abrirem para atrizes e atores trans participarem de novelas. Qual a sua opinião sobre a condução dos personagens dessas pessoas?
Avançou muito as coisas, não tem como negar. Eu vi Nany People arrasando a TV. Conheci ela no começo de tudo há 30 anos em São Paulo. Nany ainda não tinha feito a transição, era um ator que se vestia de mulher, um travesti, mais para drag. Nany foi trilhando esse caminho, se transformou em mulher, que era o caminho dela, e virou uma atriz esplendorosa. Em algum momento tinham que abrir o espaço para essas pessoas. 

 

Foi um caminho que a Globo passou a percorrer em sentido oposto ao conservadorismo crescente no país…

Eu fico achando engraçado que mesmo com essa onda conservadora que existe, tudo no Brasil é muito fajuto e esse conservadorismo é muito fajuto. Chega a ser incoerente pessoas que têm discurso moralista, careta, que são hipócritas. Você sabe que essa pessoa foi flagrada fazendo uma coisa que dizia que não faria… As pessoas são engraçadas nesse sentido. Mas acho bacana que tenha esse espaço para os trans, que aumentem cada vez mais a oportunidade dessas pessoas trabalharem com dignidade, se colocando no mercado de trabalho de uma forma digna.  

 

Na carreira da televisão, qual papel te marcou mais?
Tenho um carinho especial com a primeira novela que fiz inteira, que foi “Salsa e Merengue”, que eu fiz Lázaro. Atualmente eu participo da série “Os Homens São de Marte e É Para Lá Que Eu Vou”, que a gente acabou de sair do ar na quarta temporada e já começar a gravar a quinta. E Aníbal, que é o personagem que interpreto, eu tenho um carinho imenso também. A gente vai criando uma relação afetuosa com os personagens. Aníbal, no caso, que vou para a quinta temporada no GNT, com certeza tem uma importância muito grande na minha trajetória. Adoro fazer e viver as histórias de Aníbal e adoro participar da série com Mônica Martelli.  

 

Ainda existe esse desejo seu de participar futuramente de outras novelas?
Fazer uma novela é sempre muito prazeroso financeiramente. Claro que adoraria que a TV Globo me ligasse amanhã me convidando para gravar uma novela. Essa urgência está muito mais ligada à questão financeira do que à questão artística. A questão artística eu resolvo muito bem sozinho aqui em Salvador, onde fiz meu espetáculo “Novo Baiano”, e trabalhando com minha amiga Mônica Martelli. Não dizendo que não seria prazeroso artisticamente trabalhar em uma novela na TV Globo. Honestamente, falando dessa urgência, se é que existe alguma, ela acaba sendo um alento, um conforto. Durante um ano, durante nove meses, você vai estar contratado, ganhando sua grana com plano de saúde pago pela TV Globo e aí você dá uma certa aliviada, mas artisticamente eu tenho exercitado as minhas coisas com muito prazer, obrigado, por onde eu ando. [...] Eu fico triste das pessoas não terem tanto acesso a TV a cabo. Tem tantas produções maravilhosas e muita gente vem falar comigo: “e aí? Você está sumido...”, e falo “gente, eu estou com um programa no ar agora…”, e então as pessoas ficam à mercê da TV aberta, em que nem sempre a qualidade é tão boa. Nem todos os programas são como o “Zorra”, nem todas as novelas são como “Segundo Sol”.

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