Quinta, 31 de Outubro de 2019 - 14:30

Luis Ganem: Histórias da Música Baiana – Deixa de Lero Lero

por Luis Ganem

Luis Ganem: Histórias da Música Baiana – Deixa de Lero Lero
Foto: Divulgação
Comecei, um tempo atrás, uma serie de contos sobre o axé nos quais relato um pouco de momentos e fatos acontecidos nos anos de ouro do ritmo e que se tornaram grandes histórias. Algumas dessas histórias – as principais – já foram contadas em diversos formatos como por exemplo livros e filmes. Mas, por serem muitas, algumas delas não acabaram passando no tempo e é nisso que foquei, em tentar contar esses pequenos momentos que se tornaram grandes.
 
Um desses a se contar diz respeito à banda Cheiro de Amor, ainda na década de noventa. É preciso explicar, antes de contar essa história, que a citada década foi para a música baiana seu grande momento. Nesta década, tudo aconteceu, e quase todo mundo surgiu. Das grandes e estruturadas bandas, até pequenos produtos de apenas uma música, tudo surgiu na década de noventa.
 
E a banda Cheiro juntamente com outras ilustre bandas, fazia parte desse momento que vivia a música da Bahia. No caso do Cheiro, quem estava à frente dos vocais era a cantora Marcia Freire – a época apelidada de furacão Loiro – já começando a despontar no Brasil.
 
Bom, abrindo um parêntese para falar do momento rádio, naquele momento da música, o universo de propagação – o rádio – tinha como quase único expoente a rádio Itapoan FM que detinha como já dito e propagado aos quatro ventos, setenta e cinco por cento do mercado radiofônico local. O mais engraçado desse momento musical baiano é que o rádio também tinha suas estrelas, pois dada a dificuldade de conseguir um espaço para tocar uma música – hoje o espaço continua pequeno do mesmo jeito, mas com o advento das redes sociais, o rádio deixou de ser o único propagador de novos artistas – os locutores dos horários comerciais – que vai das sete da manhã às sete da noite – também tinham um mercado de bajulação a seu dispor, o que tornava o rádio daquele momento algo muito peculiar, se formos comparar aos dias de hoje.
 
Mas enfim, voltando a nossa história, vinha lá nosso protagonista desse texto, em alta naquele momento. De shows à música em rádio, só dava Cheiro e Marcia Freire. Pense em uma cantora que era imitada. Até o jeito desengonçado dela dançar e a forma dela cantar eram imitados por crianças e adultos. A Polygram (atual Universal Music) gravadora multinacional que à época disputava com Sony e BMG a ponteira do mercado acabou bancando o produto e o agenciava enquanto venda de fonogramas (LP à época).
 
A música que tocava, estava programada para tocar ou que já estava tocando nas rádios era “Doce obsessão” (Cabral/Carlinhos Dias). As gravadoras à época sempre tentavam lançar algo de forma única, para evitar ciúmes ou birra das rádios e de seus coordenadores, daí a música escolhida à época era anunciada em formato de “blitz” tocando em um mesmo dia, em todas as rádios.
 
Quem coordenava a Itapoan FM naquele período era o então radialista – hoje advogado – Luís Henrique, que tinha assumido a coordenação da rádio, após a saída do também radialista Josenel Barreto que estava de mudança para a Piatã FM.
 
Pois bem, numa quinta-feira pela manhã os ouvintes da rádio Itapoan são surpreendidos com o lançamento exclusivo da nova música do Cheiro de Amor. “Lero Lero” (Pierre Onassis)! Pense em um problema, multiplique por dez. A confusão estava formada. De colega de trabalho, passando por amigos em comum, pelos empresários e diretoria da gravadora, todos foram em cima da rádio e de Luiz Henrique, pedindo para tirar a música, que iria dar problema com as outras emissoras, que ele ia ser processado, que o mundo ia acabar etc... Por fim, Lula – como os amigos mais chegados o chamam – não retirou a música, que tocou de forma exclusiva por mais de quinze dias na rádio número um da Bahia naquele momento, a música estourou no Brasil todo, se tornando um dos maiores sucessos da banda Cheiro de Amor.

A grande pergunta que fica até hoje nas conversas dos bastidores do rádio é: quem deu a fita com a música a Luiz Henrique?
 
Mas, acreditem, Luiz Henrique me contou!!!!!!! E eu...
 
Vou ter que manter silêncio pois agora já há alguns anos o radialista se tornou advogado – excelente jurista por sinal – e me fez assinar um documento impedindo que revele o nome.
 
Mas, isso é de menos, pois tenho outra história desta vez envolvendo uma música de Ivete Sangalo no fim dos anos noventa, que a fonte não me pediu segredo e vou revelar no próximo texto com as histórias da música baiana.
Ivete minha irmã, aguarde a surpresa.
 
“E deixa o lero-lero
vem pra cá meu bem
aqui nessa folia
só entra quem tem
paixão calor sedução
a cantar sentir emoção
oh balança coqueiro cai coco ôô
sacode a roseia e vem pra cá”
 

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