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Quarta, 07 de Abril de 2021 - 07:20

Empresários maus samaritanos tentam fingir bondade com compra de vacinas

por Fernando Duarte

Empresários maus samaritanos tentam fingir bondade com compra de vacinas
Cogitada, Anvisa não autorizou Covaxin | Foto: Divulgação/ Bharat Biotech

Após se tornar o epicentro na pandemia, o Brasil quer ser pioneiro na liberação de compras de doses de vacina contra a Covid-19 pela iniciativa privada. Bem maquiada, parece ser uma proposta amparada na boa vontade dos empresários em vacinar os próprios empregados para acelerar a retomada econômica. Pena que se trata de um simulacro da parábola do bom samaritano. O interesse de parte da elite empresarial brasileira não é dar celeridade à vacinação, mas sim aprofundar a desigualdade social e econômica com uma boa desculpa.

 

O governo federal se esforçou para atrapalhar a aquisição de doses de vacina contra a Covid-19, muitas vezes de maneira deliberada. Após perder os sucessivos embates com o governador João Doria, o presidente Jair Bolsonaro reviu o posicionamento e passou a defender o Plano Nacional de Imunização - defender é uma palavra forte, mas vamos manter o otimismo. Agora, quando a vacinação segue a passos de tartaruga por causa da baixa velocidade na distribuição de doses, toda ajuda parece ser bem-vinda. Não é assim tão simples.

 

Não há vacinas para pronta-entrega que atendam as condições estabelecidas pela Anvisa. As farmacêuticas fizeram um acordo para entregar doses exclusivamente para governos e não para setores privados. Por incrível que possa parecer, a segurança sanitária pareceu mais preocupante do que o leilão que poderia capitalizar ainda mais a já rica indústria de fármacos e imunizantes. Por isso, mesmo nos países tratados como desenvolvidos - ou cujos índices de desenvolvimento humano são melhores que os nossos - há restrições para o processo de vacinação massiva, feito apenas por governos. Isso em nações que, inclusive, não dispõem da expertise do SUS para uma campanha de imunização de grandes proporções.

 

Ainda assim, um seleto grupo de empresários preferiu encampar uma batalha para adquirir imunizantes sem repasse ao SUS, uma iniciativa que difere da proposta por Luiza Trajano, que tem se mostrado mais patriota do que a patota a que esse artigo se refere. Nomes como Luciano Hang e Carlos Wizard têm como foco garantir a vacina para os próprios empregados - e familiares e amigos, devido ao jeitinho brasileiro. Depois disso, além deles estarem à frente de outros concorrentes, sem acesso ao Palácio do Planalto ou às doses, que se exploda o resto da população. Se o PIB, que tem relevância nas dinâmicas do país não tem preocupação com a vacinação massiva, alguém é inocente para acreditar que o governo terá?

 

Tal iniciativa irá aumentar a desigualdade social no país. Vê quem quer. Os grandes empresários serão beneficiados e o restante da população ficará a ver navios. Afinal, o importante é garantir que os funcionários não ficarão doentes, mas os clientes podem morrer à vontade. Basta lembrar o que fez a nata do transporte mineiro, quando teve oportunidade de garantir doses no braço. O suco de Brasil batido numa garagem de ônibus por uma enfermeira falsa com frascos de soro fisiológico mostra que, se é possível dar errado, aqui com certeza dará.

 

Este texto integra o comentário desta quarta-feira (7) para a RBN Digital, veiculado às 7h e às 12h30, e para a rádio A Tarde FM. O comentário pode ser acompanhado também nas principais plataformas de streaming: Spotify, Deezer, Apple Podcasts, Google Podcasts e TuneIn.

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