Contra tudo e contra todos: Hilton representa esquerda ultrapassada - mas talvez necessária
Foto: Bahia Notícias

Se o PSOL fora da Bahia soube se tornar símbolo de uma esquerda que fala da classe popular como se fosse popular, tal qual o PT antes de chegar ao poder em 2002, o diretório local da sigla é ainda mais rudimentar na comparação com o petismo. É mais semelhante ao partido-mãe da década de 1980, quando o chão de fábrica era mais relevante do que um projeto de poder. O deputado estadual Hilton Coelho é um representante dessa concepção. E tenta chegar à prefeitura de Salvador com um discurso que malmente convence a militância.

 

Duas vezes vereador da capital baiana antes de ser “promovido” para a Assembleia Legislativa, Hilton é contra tudo e contra todos. Basta ter um projeto que não seja dele e ele será contra, mesmo que a matéria represente algum tipo de avanço para a população. É a oposição por oposição que caracterizou durante muitos anos a esquerda brasileira, até que houve a cooptação pelo poder quando Lula foi eleito presidente - e que parece ser a tônica agora que há um adversário no poder, empobrecendo qualquer debate já pobre sobre democracia.

 

Diferente dos nomes nacionais do PSOL como Marcelo Freixo, Hilton nunca teve uma atuação destacada em um tema específico. Oscilou entre a defesa ferrenha do interesse dos servidores e protestos contra o prefeito, quando vereador, ou contra o governador, quando deputado. Sempre com uma fala repetitiva de que há interesses escusos em toda e qualquer mobilização do Executivo. Talvez ele acredite piamente nisso. Porém isso não quer dizer que haja diálogo com outras camadas da sociedade, algo essencial para que haja uma chance de vitória nas urnas.

 

O PSOL nasceu de uma “costela” do PT, quando um grupo de parlamentares passou a criticar a postura de Lula no poder. E foi justamente a parcela que mantinha um contato próximo com certa elite intelectual, que até hoje dá suporte a iniciativas do partido, especialmente no eixo Rio-São Paulo. Na capital paulista, por exemplo, Guilherme Boulos pode herdar os votos petistas depois de ser comparado ao Lula pré-Planalto. E conseguiria fazer isso sem o menor constrangimento. Desde sempre, no plano nacional, houve alinhamento ideológico entre as siglas, algo que não acontece na Bahia.

 

A candidatura de Hilton é inócua para as urnas. Mas a presença dele no debate é importante por trazer a versão oposta à direita de Cezar Leite. O candidato do PSOL é a única representação da esquerda clássica a disputar a prefeitura de Salvador. É estratégico para manter a visibilidade para renovar o mandato na Assembleia e até mesmo garantir a cadeira ocupada hoje por Marcos Mendes na Câmara. Mas não vai passar disso.

 

Este texto integra o comentário desta quarta-feira (23) para a RBN Digital, veiculado às 7h e às 12h30, e para a rádio A Tarde FM. O comentário pode ser acompanhado também nas principais plataformas de streaming: Spotify, Deezer, Apple Podcasts, Google Podcasts e TuneIn.

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