Segunda, 17 de Fevereiro de 2020 - 07:20

Virada de jogo? Bolsonaro ataca e Rui defende PMs no duelo de versões em morte de miliciano

por Fernando Duarte

Virada de jogo? Bolsonaro ataca e Rui defende PMs no duelo de versões em morte de miliciano
Foto: Divulgação/ Montagem/ Bahia Notícias

Mais que uma troca de farpas, há um embate ideológico entre o presidente Jair Bolsonaro e o governador Rui Costa. E, por mais estranho que possa parecer, eles estão em lados diferentes do jogo político tradicional. Bolsonaro ataca, sem qualquer embasamento a não ser teorias de conspiração, a ação da polícia baiana na operação que matou o miliciano Adriano Magalhães da Nóbrega. Rui defende a ação dos PMs locais e joga para a família Bolsonaro o interesse em ver Adriano morto.

 

É difícil conseguir traduzir essa situação tão sui generis em palavras. O presidente da República voltou a tratar o miliciano como um herói, deslocado ao passado, e vítima de "execução sumária". Algo que é radicalmente oposto ao que ele prega, de que "bandido bom é bandido morto". Para justificar a amizade com Adriano, Flávio Bolsonaro evocou que a homenagem foi há 15 anos. Época em que o miliciano cumpria pena temporária pelo assassinato de um flanelinha - acusação pela qual foi inocentado depois. Tudo com o endosso do pai.

 

Por mais que o clã presidencial insista em negar, há questões não esclarecidas sobre as relações deles com as milícias cariocas. Muitas respostas que poderiam ser obtidas a partir de Adriano Magalhães da Nóbrega e que foram com ele ao túmulo. Se o miliciano era inocente, por que não se apresentar à Polícia Federal e obter proteção à testemunha? Dificilmente Sérgio Moro o negaria, já que, pela versão da primeira família, Adriano iria mostrar que a imprensa insiste em associá-los pelo prazer de ver a derrocada dos Bolsonaro.

 

O governador da Bahia não vive os melhores dias, justamente por causa dessa operação desastrada. Tivesse o miliciano sobrevivido, a situação seria outra. Porém as polícias no Brasil existem e se formam com pré-disposição a atirar para depois perguntar. O caso de Adriano maximiza o efeito de um gatilho mal apertado, pois era uma cabeça com peso de ouro. Por isso o esforço para tentar tratar a operação como a melhor possível, ainda que o resultado contrarie os interesses de todos os envolvidos. 

 

O mistério da morte de Adriano Magalhães da Nóbrega jamais será dado como solucionado. Em casos assim, pouco importa a verdade, já que são as versões que atendem melhor a interesses políticos e ideológicos. Citar Celso Daniel, Marielle Franco e até mesmo a facada em Jair Bolsonaro é parte de uma estratégia maior de deter certo controle narrativo sobre a desastrosa operação que mudou a rotina de Esplanada. Para quem acha bacana em assistir um presidente ser uma criança a dar bananas, isso funciona bem. E para quem está do lado oposto, o relevante é que um túmulo jamais vai abrir a boca para falar o que sabe. Agora os políticos é que vão falar demais.

 

Este texto integra o comentário desta segunda-feira (17) para a RBN Digital, veiculado às 7h e às 12h30, e para as rádios Irecê Líder FM, Clube FM, RB FM, Valença FM e Alternativa FM Nazaré.

Sexta, 14 de Fevereiro de 2020 - 07:20

Em meio a guerra de discurso, os blocos afro vão aprender com 'susto' em edital?

por Fernando Duarte

Em meio a guerra de discurso, os blocos afro vão aprender com 'susto' em edital?
Foto: Sérgio Pedreira/ Ag. Haack/ Bahia Notícias

A participação de blocos afro no Carnaval de Salvador em 2020 beirou uma tragicomédia política. De um lado, entidades que se organizam mal para entregar documentos para conseguir viabilizar os recursos para os desfiles. Do outro, um jogo de vaidades entre políticos que, por incrível que pareça, estão com boas intenções. Por muito pouco, os tradicionais Ilê Aiyê e Olodum não ficaram de fora da lista de patrocínios de entes públicos. E o trajeto até chegar a esse ponto não foi tão simples...

 

A situação do bloco da Senzala do Barro Preto foi a que acabou chamando mais a atenção. O presidente dele, Vovô do Ilê, bradou publicamente críticas à política de editais. A iniciativa, conhecida como Carnaval Ouro Negro, é o formato utilizado pelo governo da Bahia para democratizar o acesso aos recursos. É uma burocracia necessária, visto que é dinheiro público que não pode escoar sem a fiscalização adequada. No caso do Ilê, uma certidão vencida – por inoperância administrativa do bloco – gerou a recusa do bloco no edital. Vovô, ao invés de atacar a causa do problema, sugeriu que a política era o problema. É comodismo, misturado a uma guerra de desinformação, algo bem típico no nosso cotidiano.

 

Depois do Ilê, o Olodum também reclamou nas redes sociais. O internacionalmente conhecido bloco usou até o nome da música que Michael Jackson gravou nas ruas do Pelourinho para criticar o edital que não o beneficiou. “Eles não ligam pra gente”, publicou um dos símbolos brasileiros no exterior. Para quem também teve inconformidade na entrega de documentos para ter acesso ao benefício – como aponta a aprovação após um recurso –, é muito fácil apontar o dedo para o governo.

 

A política de editais tem problemas. Pode até ser ligeiramente revista, como sugeriu o presidente do afoxé Filhos de Gandhy, Gilsoney de Oliveira. Blocos tradicionais poderiam ser convidados a participar do Carnaval, tal qual artistas de renome que não precisam passar por algumas fases da burocracia estatal. Mas as sucessivas falhas com documentos apresentadas pelos blocos afro não seriam solucionadas com esses “convites”.

 

Entre mortos e feridos, no entanto, salvaram-se todos. A prefeitura de Salvador resolveu participar ainda mais ativamente do processo de financiamento dos blocos afro e afoxés da capital baiana. O governo da Bahia reviu a sua decisão e liberou recursos para o Olodum, por exemplo. Tudo dentro da legalidade, frisemos. Porém esse sacode deveria servir para que dirigentes dessas entidades acordassem um pouco. Pelo menos para que no Carnaval do próximo ano esse problema não se repita pelos mesmos erros.

 

Este texto integra o comentário desta sexta-feira (14) para a RBN Digital, veiculado às 7h e às 12h30, e para as rádios Irecê Líder FM, Clube FM, RB FM, Valença FM Alternativa FM Nazaré.

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