Segunda, 18 de Novembro de 2019 - 11:10

Cláudio Cajado

por Rodrigo Daniel Silva / Matheus Caldas

Cláudio Cajado
Foto: Paulo Victor Nadal / Bahia Notícias

Vice-líder do governo Bolsonaro no Congresso, o deputado federal Cláudio Cajado (PP) admite um distanciamento do prefeito de Salvador, ACM Neto (DEM), após trocar o DEM pelo PP, em 2018, para integrar a base do governador Rui Costa (PT) no estado. “Com o prefeito, de fato, nós só nos falamos depois que eu tomei a decisão uma vez em Brasília, umas duas aí no avião, uma solenidade... Só cumprimentos cordiais”, relata, em entrevista ao Bahia Notícias.

Cajado relembra que a decisão dele perpassou pela escolha do gestor soteropolitano de não entrar na briga pelo governo do estado. “O meu tempo não foi o tempo do prefeito ACM Neto”, pontua.

Dentre outros assuntos, o parlamentar indicou o intuito de presidir o PP no estado. “Quem sabe um dia. Acho que eu estou na fila”, abriu a possibilidade.

Ele também falou sobre a candidatura de Niltinho à prefeitura de Salvador, analisou a conjuntura política do governo federal sobre apoiar Rui a nível estadual e Bolsonaro no contexto nacional. 

Foto: Paulo Victor Nadal / Bahia Notícias

 

Como o senhor avalia os 11 primeiros meses do governo até aqui, que têm sido marcado por algumas polêmicas?
Você tem que levar em consideração duas coisas. Primeiro, a macroeconomia. Desse ponto de vista, o governo está indo bem, porque os juros estão em patamares baixíssimos, a inflação também. O risco Brasil bateu os 117 pontos, o menor em uma década, além de que a projeção de crescimento para o ano que vem está em torno de 2%, o que faz com que nós tenhamos a convicção de que tem uma luz no fundo do poço de esperança e de crescimento sustentável. Porque também não adianta que você queira que o Brasil volte a crescer sem que haja uma continuidade desse crescimento. O importante é fazer o voo de comboio e não o voo de galinha.

O senhor é vice-líder do governo no Congresso e integra a base do governador Rui Costa aqui na Bahia. Você acha que o eleitor consegue entender isso? Porque o governador Rui Costa é um crítico ferrenho ao governo do presidente Jair Bolsonaro.
É necessário levantar duas questões sobre isso que você falou: primeiro, a questão política, e segundo a questão administrativa. Do ponto de vista político, a gente respeita posição, como a gente chama aqui na Bahia, os azuis e os vermelhos. A aliança do PT na Bahia é a aliança entre partidos de centro-direita e de esquerda. O PT é um partido de esquerda, o PCdoB, o PSD, mas você tem também o PR, o PP, antes tinha o MDB, mas hoje você tem esses dois partidos que fazem parte da coligação, como o PSD também, que, a nível nacional, também dá apoio ao governo federal. Portanto, na base do governador Rui Costa, você tem três partidos de centro-direita, que são governo aqui e, lá em Brasília, também. E isso acaba sendo positivo, porque, com o parlamento fortalecido, e o sistema presidencialista no Brasil, o presidente pode muito, mas não pode tudo. O parlamento é quem dá a última palavra em várias matérias – matérias congressuais, processos de LDO, orçamento, suplementações, créditos extras, medidas provisórias, como também leis diversas que nós votamos lá. Ao presidente, cabe a sanção, porém, no caso do parlamento, esses vetos podem ser derrubados, e o foram já em vários episódios. Portanto, o Congresso – Câmara e Senado – tem uma prerrogativa muito importante, e os deputados e partidos que apoiam o governo Rui Costa e o presidente Bolsonaro têm tido uma interface para que haja governabilidade e, principalmente, os interesses da Bahia possam estar acima das questões partidárias. E isso tem ocorrido. Em várias matérias temos tido uma participação importante da bancada da Bahia para liberar recursos e conseguir programas que acabam beneficiando e muito o povo baiano e, consequentemente, o governo do estado.

Como o senhor se posiciona nessa escala ideológica?
Eu me considero de centro.
 
E se sente confortável dentro da base de um governo de esquerda?
Veja, o governador Rui Costa, eu diria que ele é muito mais gestor que ideólogo. E o que me levou a apoiá-lo foi justamente a performance da gestão dele a frente do estado, com números claros de benefícios evidentes na área da saúde, da educação, menos, porém, os avanços que começam a ser feitos em infraestrutura no estado. A Bahia hoje está com as contas completamente em dia, o que demonstra que o governador tem preocupação com a gestão. E a política, se for botar numa balança, está numa escala menor do que colocar o estado na condição, principalmente de investimento que temos hoje. É um dos poucos estados hoje no país que consegue ter um nível de investimentos tão elevados, principalmente no Nordeste, que ninguém se compara com o estado da Bahia.
 
O senhor acha que ele faz um governo de esquerda?
Eu acho que ele tem posicionamentos que nos atraem mais para o centro que para a esquerda. Você vê que ele fez a reforma da Previdência e mandou para a AL-BA; mantém o controle sobre os gastos públicos, não deixa haver descontrole nas contas públicas. E o orçamento é uma peça importante na execução dos seus programas, porque só faz aquilo que comporta, a despesa dentro da previsão orçamentária, e atua em todas as áreas de interesse público, da competência do estado em poder atuar. E, nesse caso particular, eu vejo o governador Rui Costa muito centrado e com muitas similares com o que penso. Claro que o viés político-ideológico tem, ele pertence ao PT, mas isso nunca prejudicou uma gestão que se aproxima do que nós do centro advogamos e defendemos.

O senhor lembrou que o governador fez uma reforma no final do ano passado. Ela acabou reduzindo alguns cargos que o PP tinha. O partido está satisfeito hoje no governo Rui Costa, no sentido de ter um espaço adequado?
 Da minha parte, eu digo que sim. Eu não falo pelo partido, falo por mim. Eu vejo que nós temos que compreender o limite de possibilidades que os gestores têm. No caso da Bahia, como em outros estados, e no próprio governo federal, nós temos muitos partidos. São trinta e tantos partidos, não dá para você compor com todos com espaço no governo. Então, há de se levar em consideração a força de cada um, os quadros que cada um apresenta, porque não adianta fazer parte sem qualificação, sem pessoas que estejam altura no que pode ser desenvolvido nesta ou naquela área. E eu penso que o PP tem contribuído bem nesse sentido.

Foto: Paulo Victor Nadal / Bahia Notícias


Sobre a presidência da Câmara dos Deputados, há um desejo externado por Elmar Nascimento de ser o próximo presidente da Casa, mas Negromonte disse que há um acordo entre DEM e PP para que Arthur Lira fosse o próximo presidente. Existe este acordo? O senhor vai apoiar Arthur Lira ou Elmar Nascimento?

O coração pede para Elmar, mas a razão pede para Arthur, porque eu não posso ficar contra a candidatura de um membro do meu partido. Porém, ambos têm qualificações, capacidade administrativa, política, de gestão. Ambos são meus amigos e eu tenho certeza que nós, como sempre, encontraremos o equilíbrio para que esta decisão seja tomada no momento certo, na base da escolha que nós teremos que fazer por consenso ou não. 

Mas existe este acordo?

Não sei. Se existe, eu não tenho conhecimento. Porém, eu ouvi dizer que tinha, sim essa possibilidade de o presidente ser do PP. Vamos lutar para que isto aconteça. 

O senhor rompeu com o grupo do prefeito ACM Neto no ano passado para migrar para a base do governador Rui Costa. Sobrou alguma mágoa do prefeito?

Pergunte a ele (risos). Da minha parte, eu deixei bem claro que, se ele não fosse candidato a governador, eu não me sentiria vinculado a este processo. O que ocorre foi que o meu tempo não foi o tempo do prefeito ACM Neto. Infelizmente, eu tinha dito para ele já desde o ano retrasado que eu precisaria saber qual caminho ele seguiria, se ele seria ou não candidato. Eu penso que ele não tinha essa definição até os 45 do segundo tempo. E eu fiquei realmente numa situação delicada porque eu decidi sair diante da demora que ele teve de tomar essa decisão. Se eventualmente essa decisão tivesse sido tomada anteriormente, eu poderia reavaliar, mas ficou para a última hora.

De sua parte não há nenhuma mágoa?

Da minha parte, não. Pelo contrário. Eu reconheço no prefeito ACM Neto um grande gestor, uma pessoa estudiosa, capaz, competente, e realiza um brilhante governo em Salvador. Ajudei no que eu pude para que isto ocorresse, e espero que os 30 e tantos anos que eu tive do lado do carlismo na Bahia sejam sempre lembrados pelos fatos positivos, pela minha lealdade, minha postura, e não por uma decisão que eu me vi obrigado a tomar diante das circunstâncias. 

Você tem relação zero, hoje, com o prefeito?

Com o prefeito, de fato, nós só nos falamos depois que eu tomei a decisão uma vez em Brasília, umas duas aí no avião, uma solenidade... Só cumprimentos cordiais. 

O PP decidiu lançar Niltinho candidato a prefeito de Salvador. Você acha que essa candidatura emplaca?

Com a questão da não coligação, os partidos vão ter que, realmente, encontrar uma forma de poderem fortalecê-los através de candidaturas a prefeitos majoritária e a proporcional de vereadores, e é legítimo que todo partido deseje lançar um candidato para ver se as condições de viabilidade se apresentam. E PP fez isso: lançou um quadro dos mais qualificados, que é o deputado Niltinho. Primeiro mandato, mas com um trajetória de experiência, de visão, não apenas de Salvador, mas da Bahia, muito atual e contemporâneo. E nós esperamos que o trabalho dele convirja com outros partidos.

O senhor apoia a candidatura dele, né?

Apoio, claro. 

Alguns deputados defendem que Cacá Leão assuma a presidência do PP na Bahia porque João Leão não teria um trabalho de cobrar tanto ao governador. Você defende que Cacá Leão assuma a presidência do partido no estado?

Eu vejo que Leão não tem um interesse pessoal de poder ser presidente ou continuar presidente. Ele já deixou claro que, para ele, o que os membros do partido decidirem, ele não tem problema algum. Muito pelo contrário. Mas seria natural que, se houver sucessão nesse momento, que pudesse ser o deputado Cacá Leão. Não sei se ele quer e tem tempo. Porque, para você poder cuidar de um partido da dimensão do PP na Bahia, tem que haver muita dedicação e, se o deputado Cacá quiser assumir essa posição, eu acho que todos nós do partido não só concordaremos, como iremos ficar satisfeitos, até porque seria uma transição do vice-governador João Leão, que é pai de Cacá Leão. Seria uma transição extremamente natural. E só penso que esse trabalho, que Leão faz na maneira do possível... Mas, realmente, como vice-governador, secretário, e como líder político, é um trabalho que tem um volume de atenção, desgaste e conversas muito grande. Se a gente tivesse uma pessoa como Cacá, mais jovem e disposta realmente a poder dar continuidade ao trabalho de Leão, sem o peso que o presidente tem, seria melhor para Leão e para o partido, desde quanto eles concordassem e fosse uma coisa natural.

O senhor teria esse desejo de assumir a presidência do partido na Bahia?

Quem sabe um dia. Acho que eu estou na fila.

João Leão para 2020. Você acha que ele pode ser candidato a governador? Vai  assumir o governo em 2022? O que você vislumbra?

O grupo liderado pelo governador Rui Costa na Bahia tem três partidos que formam um pilar muito importante: o PT, o PP e o PSD. Eu acredito que esses três partidos têm que ter a noção exata dos espaços que cada um tem nesse conjunto de forças, e preservar essa harmonia e essa união. Se o nome escolhido for Leão, para nós seria excelente. Até porque, o trabalho que Leão faz como vice-governador e secretário, como deputado e, hoje, como governador em exercício, a dedicação que ele tem, é, sem dúvida alguma, uma segurança de que teremos um governador tão bom quanto tem sido Rui Costa e foi Wagner. Agora, essa discussão tem que passar pela anuência tanto do governador, quanto pelo senador Otto Alencar que preside o PSD na Bahia. E eu espero que os três, juntamente com Wagner, possam harmonicamente discutir o melhor caminho e, obviamente, que o principal é mantermos unidos esses partidos com vistas a darmos continuidade ao belíssimo trabalho que está sendo feito na Bahia. 

O senhor que ficou 30 anos no grupo do carlismo, qual é a perspectiva que o senhor para a eleição de 2022? Acha que Neto vai ser candidato?

Eu penso que sim. Penso que Neto tem condições de ser candidato a governador. Na minha opinião, ele já deveria tê-lo feito no ano passado. Mas respeito a decisão dele. Essa decisão cabe a ele e às condições que ele for analisar daqui a três anos. Na verdade, a política muda muito. Hoje eu não digo que todos os pretensos candidatos tenham isso como uma decisão já tomada. É muito cedo. Realmente ainda é muito precipitado qualquer candidato que deseje governar a Bahia se posicionar agora. Esse é um momento que eu considero ainda distante.

Eu lembro que o senhor queria ser líder do DEM em 2016, e Neto chegou a dizer que não tinha chegado seu momento ainda. Ali já ficou algum mal-estar?

Não, até porque ele não disse isso. Se disse, foi na minha ausência ou a alguma pessoa em particular. Eu não tenho conhecimento que ele tenha dito isso. Eu sempre almejei, sim, ser líder do DEM, como todo deputado. Eu estou no sétimo mandato consecutivo, e é natural que, ao longo do tempo, você angariando experiência, obtendo relações dentro e fora do partido, você tenha essa possibilidade. É uma honraria para todos que exercem a atividade política um dia chegar a um espaço reservado para poucos - líder, membro de Mesa, presidente de partido, etc. Isso todos nós, independente da posição que você tenha de antiguidade almeje. O momento certo chega ou não chega, como não chegou para mim ser o líder do DEM.

O senhor acha que um dia volta para o grupo?

Rapaz, tem alguma vidente aqui para me dizer? Hoje, eu lhe digo que estou muito satisfeito aonde estou.

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