Segunda, 07 de Outubro de 2019 - 11:10

Lídice da Mata

por Matheus Caldas

Lídice da Mata
Foto: Paulo Victor Nadal / Bahia Notícias

Sistematicamente especulado como possível candidato à prefeitura de Salvador, o presidente do Bahia, Guilherme Bellintani, está com “as portas abertas” pelo PSB, de acordo com a deputada federal Lídice da Mata (PSB). Segundo a parlamentar, o partido mantem conversas com o dirigente tricolor. E, nesta mediação, está ex-secretário estadual de Ciência e Tecnologia (Secti), Rodrigo Hita (PSB). “O Rodrigo é membro da torcida do Bahia, do grupo de ativistas do Bahia que apoiou Bellintani para chegar até a presidência. Estão todos conversando. É claro que Rodrigo tem uma oportunidade maior de estar com Bellintani, até porque está aqui na cidade e já tem essa relação normalmente. Mas não há dificuldade de conversarmos, não”, explica, em entrevista ao Bahia Notícias.

Na visão de Lídice, esta não seria uma candidatura “iminentemente eleitoral” por não enxergar contradição na postura do presidente do Esquadrão com os ideários da sigla. “É claro que, para Bellintani entrar no PSB, vai ter que ter novas conversas, que não se limitarão à direção do PSB da Bahia, mas terá que haver uma conversa com o PSB nacional, porque a eleição de um município que é capital de qualquer estado, passa por uma interferência nacional em qualquer partido”, pontua.

Dentre outros assuntos na entrevista, a deputada também falou sobre a CPMI das Fake News, na qual ela é relatora. Ela reforçou a surpresa com a obstrução do PSL às pautas da comissão, indicou que um dos requerimentos prevê a convocação do youtuber Felipe Neto e sinalizou obstáculos impostos pelos filhos do presidente Jair Bolsonaro (PSL) ao colegiado. “Acredito, portanto, que há uma linha de encontro com o pensamento do presidente”, opina.

Lídice também fala sobre a relação com o presidente da CPMI, o senador Angelo Coronel (PSD), trata sobre a crise que a Petrobras enfrenta na Bahia e indica a possibilidade do vereador Silvio Humberto (PSB) ser candidato à prefeitura de Salvador. 

Foto: Paulo Victor Nadal / Bahia Notícias
 

Como relatora da CPMI das Fake News, qual o grande desafio do colegiado agora que o plano de trabalho já foi apresentado?
O desafio é justamente pegar uma linha investigativa que nós possamos identificar onde, em caso concreto, se originou aquelas fake news, como foi distribuída, e quem pagou. Esse é o objetivo, digamos assim, que a gente tem, pegando um caso concreto. Vamos dizer um caso... De onde surgiu o boato que a vacina mata? Que você não deve se vacinar. Então, se nós tivermos condições de identificar de onde primeiro se originou, através de que ferramenta da rede social ela se disseminou, quais os prejuízos que causou à população brasileira, e de que maneira, portanto, quem pagou isso. Porque muitas dessas fake news são estimuladas, impulsionadas nas redes sociais. Me referi, portanto, a um caso que é específico e atinge a toda a sociedade brasileira. Aí vamos para os objetivos da CPMI. Ela identificou quatro objetivos: identificar as fake news e suas consequências contra a democracia brasileira; identificar de que forma as fake news interferiram no processo eleitoral de 2018; o cyberbullying e suas consequências nas vidas das pessoas em geral - queremos fazer um requerimento, por exemplo, convocando o Felipe Neto, que sofreu uma ação de cyberbullying forte recentemente -; e os crimes contra a infância e população vulnerável, que são decorrentes dessas ferramentas que estimulam as crianças e adolescentes a autoflagelo, e até mesmo suicídio. Então, essas quatro linhas estão propostas na CPMI. Há, no entanto, algo que é bem colocado genericamente, que está super na ordem do dia, que é justamente as ameaças à democracia. No fundo, todas elas representam isso. As ameaças ao exercício da liberdade, de opção do cidadão, seja para vacinar ou para votar.

Qual o balanço que pode ser feito nesses primeiros momentos de trabalho da CPMI?
Nesses primeiros momentos a gente ainda não pode dar um balanço assim, porque nós tivemos grandes dificuldades de vencer a obstrução do PSL, para nossa surpresa, e temos aprovados 84 requerimentos. O primeiro balanço é esse: temos 84 requerimentos aprovados, entre especialistas na área de comunicação, juristas voltados para o estudo das fake news, e entidades e empresas. No caso das empresas, serão convocadas a participar. Há uma distinção entre as audiências públicas, que as pessoas são convidadas a falar, a dar informação ou analisar, e àqueles casos de convocação. Quem vai como convocado vai prestar um depoimento, faz parte de uma investigação. Os procedimentos da sua convocação são totalmente diferentes, podendo até existir um depoimento que seja tomado em segredo, com as portas fechadas, sem acesso à imprensa, principalmente.

 

A senhora falou sobre essa obstrução do PSL. Após a primeira reunião da CPMI, a senhora também afirmou à revista Época que percebeu esse esforço do clã Bolsonaro para que o tema não seja investigado, e relatou também uma pressão do governo. Isso ainda se mantém?
Nós tivemos duas sessões de votação. Nas duas sessões o PSL obstruiu de forma muito intensa. Vamos ter em breve uma terceira sessão de votação. Vamos ver se muda esse comportamento. A nossa proposta de acordo certamente será fazermos um levantamento daqueles requerimentos que podem ser comuns, de consenso votados, e aqueles que os dois grupos concordem que não aceitarão. E aí vamos ao voto.

E quando vocês vão se reunir novamente?
Provavelmente no dia 16 haverá uma nova sessão. Nesta semana, no dia 9, o presidente viajará. Então não haverá audiência.

O presidente, o senador Angelo Coronel, inclusive, sinalizou que sofreu ameaças na internet após a instalação da CPMI. Aconteceu também com outros integrantes do grupo? A senhora teme alguma retaliação?
Não sei. Eu, particularmente, não tive nenhuma ameaça, e espero continuar não tendo. Acho que nós temos que ter um ambiente de paz, democrático, na investigação, até porque essa é uma lição que o Congresso precisa dar à sociedade brasileira, e que nós somos capazes de fazer um trabalho, que é de autointeresse da sociedade brasileira, que é essa investigação sobre as fake news. Para minha surpresa, o PSL está obstruindo. Eu não posso entender o porquê de o governo se sentir atingido com uma investigação dessa. Não é uma investigação sobre o ministro do Turismo, sobre ações de outro ministério. Pelo contrário. Teve ministro que, inclusive, que se colocou à disposição para participar da CPMI, como é o caso da ministra Damares [Alves]. Então, eu não entendo. E o argumento de que não se pode investigar as eleições, isso é absurdo porque está no âmbito do requerimento. Não tem porque. O requerimento não foi de iniciativa de nenhum deputado, nem da esquerda e nem da oposição. A oposição se agregou a esse esforço, recolheu assinatura, sem dúvidas, e viabilizou a CPMI.

E essa obstrução também vem por parte pessoal do presidente Bolsonaro ou só do PSL?
Não. É do partido do presidente, com a participação dos filhos do presidente. Acredito, portanto, que há uma linha de encontro com o pensamento do presidente.

Como é a sua relação com Coronel, sobretudo após a digamos preferência de Rui por ele na candidatura ao Senado?
É uma relação normal. Não tem porque nós termos nenhuma relação que não seja de aproximação e de, principalmente, trabalho comum. É uma relação de duas pessoas que têm uma tarefa importante a realizar juntos. E temos que nos voltar para isso. As questões regionais ficam na região. Lá, nós somos um senador e uma deputada que ganharam do Congresso Nacional uma tarefa muito importante para realizar.

 

Como a senhora vê esse gesto dele de convidá-la para relatoria dessa CPMI. Acha que foi uma forma de afago após essa questão envolvendo a candidatura ao Senado?
Não foi um convite de Coronel assim. É claro que é o presidente que indica do ponto de vista formal. O acordo foi entre o presidente da Câmara, que aceitou a CPMI. Essa CPI estava, como ela foi iniciada por alguém do DEM, que algum senador desse partido iria presidir e um relator do PT. Quem me ofereceu a relatoria foi o PT. O PT chegou à conclusão numa conversação que seria melhor que eles não estivessem à frente desta CPMI para não poder caracterizar uma disputa entre PT e PSL, e deixar o ambiente mais leve para uma investigação mais isenta. E lá, parece que o senador do DEM não pôde, e chegou-se a uma negociação no Senado de que seria Coronel. Claro que do ponto de vista político ou institucional, Coronel apresentou meu nome, mas isso foi fruto de um acordo anterior entre os partido, o que não quer dizer que tenha algum problema. Imagino que o senador não tenha algo contra mim para me impedir de assumir. Não é nem afago e nem nada. É que isso já estava acertado, mas não há um problema entre mim e ele que dificulte essa indicação. 

Foto: Paulo Victor Nadal / Bahia Notícias


E para as eleições de 2020, quais são os planos do PSB para disputar as prefeituras? E qual a expectativa de prefeitos estimados pelo partido?
Ainda está muito cedo para a gente estimar um número de prefeitos que vai ter. Nós temos até abril do próximo ano para vir a apresentar o número de prefeitos. Nós estamos agora num período em que todos os partidos estão, que é de trazer lideranças novas, e buscar que elas possam se apresentar, tanto para vereador, quanto para prefeitura. O partido elegeu na eleição passada 32. A primeira tarefa, digamos assim, seria reeleger esses 32, ou pelo menos manter esse número e crescer. Então, a boa meta é crescer o dobro. Vamos tentar, mas temos que, ao fim desse processo, que é o levantamento e a atração de lideranças, dar um balanço para ver se alcançamos isso.

A senhora diz que é muito cedo para falar sobre isso, mas o nome do vereador Silvio Humberto, por exemplo, já foi citado. Existe uma discussão sobre esses nomes? 
Você me perguntou sobre o conjunto dos prefeitos. Em relação a Salvador, é diferente. Em qual sentido? Em Salvador nós temos uma bancada de vereadores. Tínhamos dois, ficamos com um. Temos um vereador muito importante, que é o Sílvio Humberto. Temos a minha candidatura também que, nas pesquisas, até então, eu apareço como segunda, nesta pesquisa recente. Sou a segunda que se apresenta melhor. É Isidório e eu. E, é claro, que não existe uma distância significativa em relação às demais. Mas, objetivamente, pelos números, é quem tem o acúmulo maior. E, tem também, a possibilidade de outras lideranças virem para o partido e se incorporarem a esse esforço de crescimento nosso.

E sobre essas possibilidades de outras lideranças, sempre há os rumores do nome de Bellintani, e de que ele poderia se filiar ao PSB para a disputa da prefeitura. 
Se ele desejar, o PSB está de portas para ele. Para ele, e para qualquer outro que tenha liderança política, unidade com os compromissos, com o ideário do partido, de defesa do combate à desigualdade social profunda que o Brasil vive, de entender a cidade de Salvador e a prefeitura como instrumento também na direção de transformar Salvador numa cidade melhor para todos, onde os serviços de saúde, de educação seja eficientes e capazes de atingir a toda a população e, principalmente e especialmente, àquela que não pode pagar.

Mas já houve alguma conversa entre vocês e o dirigente do Bahia? Rodrigo Hita é o elo entre o PSB e Bellintani?
O Rodrigo é membro da torcida do Bahia, do grupo de ativistas do Bahia que apoiou Bellintani para chegar ate a presidência. Estão todos conversando. É claro que Rodrigo tem uma oportunidade maior de estar com Bellintani, até porque está aqui na cidade e já tem essa relação normalmente. Mas não há dificuldade de conversarmos, não. A imprensa às vezes cria situações como impedimentos que não existem, situações que existem. No dia da minha audiência em homenagem que recebi na AL-BA, eu nem sabia que Bellintani tinha sido convidado. Recebi uma homenagem muito delicada dele. Fiquei satisfeita. A imprensa divulgou que foi a maior frustração foi a ausência dele. Da minha parte, de jeito nenhum. Pelo contrário. Enquanto Bellintani estiver cuidando muito bem dos interesses do Bahia, eu vou estar sempre feliz.

Os membros do partido aceitariam uma filiação iminentemente eleitoral como seria neste caso dele?
Não seria iminentemente eleitoral. Na minha opinião, a vinda de Bellintani significa ele se incorporar, como eu já disse, aos interesses de crescimento do partido. Ele, pelo que conheço, é um rapaz que tem feito uma campanha de incorporação do Bahia de elementos democráticos importantíssimos: combate à violência na torcida, combate à discriminação racial na torcida, combate ao preconceito LGBT na torcida e no estádio, que viraram referências nacionais em outros grandes clubes nacionais. Portanto, acena para um lado, para os valores, que são valores dos progressistas, e faz isso demonstrando uma capacidade de gestão da economia, dos clubes, e dos seus negócios, muito grande. Portanto, não há com isso nenhuma contradição no posicionamento de Bellintani com a do PSB. É claro que, para Bellintani entrar no PSB, vai ter que ter novas conversas, que não se limitarão à direção do PSB da Bahia, mas terá que haver uma conversa com o PSB nacional, porque a eleição de um município que é capital de qualquer estado, passa por uma interferência nacional em qualquer partido. 

 

Nesta semana, a Petrobras deu início à desocupação na Torre Pituba. No mês passado, a senhora esteve presente no "Ato em Defesa da Petrobras", na AL-BA. A senhora participa de alguma articulação ou interlocução para que a estatal não deixe o estado?
Eu sou membro da Frente Nacional em Defesa da Petrobras, que é presidida pelo deputado Nelson Pelegrino (PT), que coordenou o ato que foi feito aqui. Fiz pronunciamento também na Câmara. Saiu recentemente um artigo meu no jornal A Tarde. Pretendo continuar essa discussão na sociedade baiana, porque a saída da Petrobras da Bahia é extremamente nociva aos interesses da economia baiana e da economia de Salvador. Até quando falei, cobrei que o prefeito se manifestasse, e ele o fez. Esteve num encontro recente para negociar isto. Não vi ter nenhum compromisso de que isso não ocorrerá. Se acontecer, ótimo. Não interessa que forças possam conter essa atitude de desmonte tão agressiva da Petrobras com uma empresa que é tão valiosa aos baianos e aos brasileiros.

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