Segunda, 07 de Janeiro de 2019 - 11:00

Lúcio Vieira Lima

por João Brandão

Lúcio Vieira Lima
Foto: Paulo Victor Nadal / Bahia Notícias

Derrotado na tentativa de reeleição, o deputado federal Lúcio Vieira Lima admitiu que ele e seu irmão, o ex-ministro Geddel Vieira Lima, deram a contribuição que tinham que dar à política baiana.

Em entrevista ao Bahia Notícias, o parlamentar disse que ficará na “prateleira”, como um livro. “Do jeito que está a política, eu não sei se muita gente não vai deixar de querer um mandato eletivo. A política ficou muito criminalizada. Ela parece muito mais, pois é mais acessível a todos". 

Lúcio avaliou também sua derrota. Sem querer apontar culpado, ele disse que estava “em um momento em que a população estava querendo mudança”, e a polarização entre os candidatos a presidente pelo PT e PSL, Fernando Haddad e Jair Bolsonaro, respectivamente, influenciou no seu revés.

“Ou seja, era contra tudo o que estava. Quem foi mais penalizado é quem tinha um mandato. No caso específico meu, foi pior ainda. Fiquei espremido entre candidatura majoritária do PT, que era Haddad, e do 17, de Bolsonaro. Chegava no palanque e não tinha candidatura para defender, e ficou dividido”, opinou.

O deputado federal mais votado em 2014 disse que para ele tanto faz, “foro ou não foro”. “Eu defendo a regra que o jogo queira. Agora, tem que ser uma regra geral. O foro já não existe. Não existe mais foro. Não tenho preocupação”, afirmou. Confira a entrevista completa:



 

Você passou 8 anos na Câmara dos Deputados. Qual foi o seu melhor e o seu pior momento na Casa?
Desde a minha vida sempre vou vivendo a cada dia. Eu acordo agradecendo a Deus o dia que vivi e a oportunidade de começar um novo dia. Vivo com intensidade esses dias. Na Câmara não seria diferente. Não tive melhores momentos e piores momentos. Eu tive história na Câmara, e essa história pesa como um todo. Por exemplo: Lula é respeitadíssimo em torno da sua obra política. Um trabalho social muito grande. Estava com 40% nas pesquisas. Ninguém vai julgar Lula por um momento isolado. Tem que julgar Lula como político, a obra dele. Levou um trabalhador à presidência da República. Da mesma forma, o presidente Bolsonaro. Todo mundo vai julgar pelo conjunto da obra. O meu tempo na Câmara eu peso como altamente positivo. Sempre fui deputado atuante. Sempre fui um dos que mais trouxe recursos para a Bahia. 

O senhor foi de deputado federal mais votado em 2014 para não reeleito em 2018. O que deu errado?
O eleitorado não ter votado em mim. Quem perde eleição não tem que ficar procurando desculpa. Resumindo: perdeu quem não teve voto. Perdeu porque não convenceu o eleitorado. Se quiser fazer análise política, vamos lá. Estávamos em um momento em que a população estava querendo mudança. Ou seja, era contra tudo o que está. Quem foi mais penalizado é quem tinha um mandato. No caso específico meu foi pior ainda. Fiquei espremido entre candidatura majoritária do PT, que era Haddad, e do 17, de Bolsonaro. Chegava no palanque e não tinha candidatura para defender. E ficou dividido. Tinha deputados de outros partidos que botavam o 13 no santinho. Não ia fazer isso. A gente critica tanto estelionato eleitoral. No final o PT elegeu mais de três deputados só no voto de legenda. O PSL elegeu a deputada e ainda puxou candidatos que tiveram menos votos que eu. Todos os parlamentares que votaram a favor das reformas acabaram se prejudicando também.

O senhor acha que as investigações contra o senhor prejudicaram na eleição?
Não senti. Confesso que andei a Bahia toda e fui recebido com muito carinho, com muita tranquilidade. Não tive nenhuma manifestação contrária. Eu não senti, mas pode ter ocorrido. Para mim foi tranquilo. 



 

A denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) contra você e seu irmão diz que a família Vieira Lima ficava com até 80% dos vencimentos destinados aos secretários parlamentares. Como você se defende dessas acusações?
Primeiro não foram secretários parlamentares. Foi um delator que diz e se acredita. Está se fazendo a apuração. Cito sempre. Bolsonaro e o filho dele estão sofrendo as mesmas acusações e vai provar que é inocente. Aqui na Assembleia toda hora tem isso. Teve Polícia Federal, que seja. Eu também comprovarei que não tem nada nesse sentido.

O senhor citou o filho de Bolsonaro. O senhor vai perder o foro agora...
Olha, o que vocês têm que definir é se foro é bom ou ruim. Eu fui em Brasília ser ouvido. Não falei porque não esperaram o resultado da perícia que nós pedimos, e o que o Ministério Público dizia é que eu queria postergar o inquérito para que descesse para a primeira instância, e assim ganharia tempo. Se fosse isso, eu nem seria candidato. Era melhor não ser candidato. Não tinha gasto dinheiro. Tinha me preservado, e estaria sem foro. [...] Para mim tanto faz o foro ou não foro.

Então o senhor defende o fim do foro privilegiado.
Eu defendo a regra que o jogo queira. Agora, tem que ser uma regra geral. O foro já não existe. Busca e apreensão da mãe do senador Aécio Neves. Não existe mais foro. Não tenho preocupação.

O senhor tem medo de ser preso?
Não. Graças a Deus eu não temo nada na vida. Nesse caso específico, não temo porque eu sei que sou inocente. A única dor que carrego nesse processo é a pior dor do mundo: a dor da consciência limpa. Não temo. Eu preso já sou, a Deus, a minha família, a meus amigos. Quer prisão melhor que essa?

 

Você alega inocência diante de todas as acusações apresentadas, mas mesmo que a Justiça acabe inocentando você e seu irmão, você acredita que um dos dois ainda pode conseguir um mandato eletivo?
Do jeito que está a política, eu não sei se muita gente não vai deixar de querer um mandato eletivo. A gente vê toda hora notícia que continuam a mesma coisa. A política ficou muito criminalizada. Ela parece muito mais que é acessível a todos. Eu acho que tanto eu como meu irmão, quanto meu pai, já demos nossa contribuição na política baiana.



 

Então o senhor anuncia oficialmente a aposentadoria da política.
Veja bem, oficialmente... Não vou fazer uma solenidade, o que seja. Não existe isso. Da mesma forma que eu não anunciei a saída, foi o povo que me colocou na prateleira. Político vai para a prateleira. Fica lá como livro. Não posso dizer se estarei vivo amanhã. Tem que aguardar. Não é desejo. Não vou lutar, não vou trabalhar para ter novamente um mandato eletivo. 

Havia um desejo do grupo do prefeito ACM Neto que o senhor deixasse o MDB e se filiasse a um partido nanico, como o PHS. A cúpula do prefeito avaliava que o senhor teria mais chance de ser reeleito. Acha que poderia ter vencido se fosse para o partido nanico?
Engenheiro de obra pronta é muito fácil. Mas não iria de jeito nenhum. Na hora que saísse do MDB, eu estaria desrespeitando a mim, a minha família, meus amigos. Sairia por quê? Ganhar e perder são do jogo. Fui candidato, mostrei que poderia ser candidato. Fiz campanha com dignidade, para a Bahia toda. Campanha que perdi, mas foi a mais gostosa, mais alegre, mais bonita. Eles nunca me falaram em sair do MDB. Nem teria coragem de falar. Todo mundo conhece meu estilo. 

É a primeira vez, em 43 anos, que não haverá um Vieira Lima na Câmara dos Deputados. Qual é o sentimento que fica?
De dever cumprido. Graças a Deus você chega naquela Casa, quando você fala em Vieira Lima... Meu pai foi presidente da Comissão de [Constituição e] Justiça. Geddel foi membro da Mesa. Presidi importantes comissões. Relatei importantes comissões. Tanto eu como Geddel estivemos na lista dos 100 cabeças do Congresso. É motivo de orgulho, satisfação e dever cumprido. 

Você se arrepende de alguma coisa ao longo dessa trajetória?
Não tem arrependimento nenhum. Quem me conhece sabe. Sou o cara mais tranquilo do mundo, mais pragmático do mundo. Bola para frente. Não tem outra opção. Não existe o “se” na minha vida. Se for ficar pensando no “se”, os culpados de tudo isso na minha vida são meu pai e minha mãe, que se casaram e eu nasci. Não tem “se”.

Qual a expectativa em relação ao governo Bolsonaro? 
Temos que esperar. Seria irresponsabilidade minha, um governo que tem seis dias, já julgar. Torço para que dê certo. A Bahia precisa de recursos federais. Os brasileiros e os baianos, inclusive meus filhos, precisam de geração de emprego, Bahia desenvolvida. Aqueles que torcem contra por questões imediatas, menores na política, não sabem o custo que é isso para o país.

O senhor votou em Bolsonaro no 2° turno?
Eu votei em Meirelles.

No 2° turno.
Ah, votei em quem, meu Deus do céu? Estou igualzinho a eleitores que não lembram.

Só tem duas opções: Haddad e Bolsonaro.
Eu nem sei.

As primeiras medidas de Bolsonaro, o que o senhor está achando?
Não teve nenhuma, na verdade. Passa a impressão que está tateando, que não se programou...

Bolsonaro anunciou que quer acabar com a Justiça do Trabalho, por exemplo.
Bem, mas o ministério do Trabalho acabou, voltou. Então tem que aguardar. Esse é um bom teste. Quando fala em acabar com a Justiça do Trabalho, aí vai ver a reação da Justiça, a pressão e etc. Tem que esperar o governo enraizar. Você está no recesso legislativo, que é um absurdo. Como é que você tem um presidente que toma posse, e fica 30 dias com o Congresso antigo, como parlamenteares, como eu, que perde a legitimidade uma vez que não foi reeleito? Tem que aguardar. Daremos um prazo de 100 dias. 

Como deve se comportar o MDB no governo Bolsonaro?
Eu vejo, por exemplo, na eleição da Câmara, eleição do Senado. Essa eleição foi o ápice de uma política que vinha mudando. Na Bahia, por exemplo, você tinha o senado Antônio Carlos Magalhães. Ele chegava em Brasília com 20 deputados. Hoje cada deputado quer ser um partido político. Quer conversar diretamente, pessoalmente. Muito às vezes negociam, mas não entregam os votos. A nova política não foi implementada. Só na eleição. Aí coube ao povo implementar.

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