Sexta, 28 de Setembro de 2018 - 11:00

Kátia Abreu

por Bruno Luiz

Kátia Abreu
Foto: Paulo Victor Nadal/ Bahia Notícias

Candidata a vice de Ciro Gomes para a Presidência da República, a senadora Kátia Abreu (PDT) trouxe uma novidade para os baianos na sua vinda a Salvador, que ocorreu nesta quinta-feira (27). Em entrevista ao Bahia Notícias, ela afirmou que Ciro se compromete a, caso eleito presidente, investir na ampliação do metrô Salvador-Lauro de Freitas. Segundo ela, o objetivo é levar o modal, que atualmente vai até o Aeroporto Internacional de Salvador, para mais áreas da cidade da Região Metropolitana. 

 

“Ciro sabe da importância da extensão do metrô em Salvador. Há o anseio de ampliar isso até Lauro de Freitas. Já tem o projeto, já está desenhado e precisa de recursos”, afirmou. 

 

Figura polêmica por suas posturas no Congresso a favor dos produtores rurais e acusada de contribuir para o aumento do desmatamento no Brasil e para precarização das condições do trabalhador do campo, ela defendeu que a divulgação da lista do trabalho escravo é uma condenação prévia. 

 

“É o transitado em julgado administrativo fazendo com que um auditor do trabalho vire juiz. Ele não é juiz, ele é auditor do trabalho. Ou nós optamos pelo estado de direito, ou vamos virar uma baderna”, defendeu. Leia a entrevista completa abaixo:  
 

A senhora falou, um pouco antes de começar a entrevista, de uma parceria que Ciro quer ter com o candidato à reeleição Rui Costa, caso os dois sejam eleitos. Pode falar um pouco sobre o teor dessa parceria?
O Ciro é um homem democrático. Ele respeita as urnas. Precisamos avançar nesse sentido. Não importa quem se eleja. “Ah, vou ajudar o governador A, o governador B porque é do meu partido. E o governador C ou D eu não vou ajudar porque não é do meu partido”. Isso é coisa de país atrasado. As pesquisas mostram que Rui deve ganhar em primeiro turno. Não importa. Quem o povo baiano escolher, Ciro vai respeitar. Digo a mesma coisa para Salvador, que tem um prefeito do DEM. Nessa hora, o que importa são as pessoas. Ciro sabe da importância da extensão do metrô em Salvador. Há o anseio de ampliar isso até Lauro de Freitas. Já tem o projeto, já está desenhado e precisa de recursos. A Bahia sozinha não consegue. Os problemas de mobilidade urbana talvez sejam as maiores causas de estresse, depressão, dor de cabeça, no coração...

 

Falando um pouco sobre participação da mulher na política, houve um aumento no número de candidatas a vice nesta eleição, mas, ao mesmo tempo, temos apenas duas candidatas à Presidência, Vera Lúcia e Marina Silva. Como a senhora avalia essa falta de protagonismo das mulheres no cenário eleitoral, sendo que poucas delas assumem a cabeça de chapa?
Temos que considerar que a presidente Dilma foi eleita duas vezes, em uma democracia jovem como a nossa. Isso não é pouca coisa. Nós precisamos avançar mais ainda nas Assembleias Legislativas, nas Câmaras de Vereadores e no Congresso Nacional. Precisa aumentar urgente. Ciro Gomes quer fazer o que ele fez no Ceará: metade mulher e metade homem nos ministérios. Então o critério vai ser sexo, e não competência? Vai ser os dois. Nós teremos paridade no governo Ciro Gomes. Se a gente não sinalizar nessa direção, vão ficando os homens que tradicionalmente são os políticos, os detentores dos cargos, sempre em maioria, e nós vamos diminuir o espaço da mulher. Precisamos aumentar o espaço no Legislativo, onde fazem as leis. A gente não vai pra lá só pra defender mulher. A mulher defende a produção agropecuária, os comerciantes, os professores, não vamos para lá só para defender mulher.

 

Os direitos das mulheres estão constantemente na pauta dessas eleições. A senhora se considera uma feminista?
Eu me considero feminina. Nunca tive raiva de ser mulher. Se nascesse 200 vezes, eu queria nascer mulher. Eu não sou feminista ativa porque não tive oportunidade. Comecei muito cedo na área rural. É uma área muito masculina, mas fui sempre respeitada. Não tive muita oportunidade de ser ativista na área feminista. Mas, ao mesmo tempo, estamos vendo uma situação muito precária da mulher no Brasil. Estamos avançando em muitas coisas, mas retroagindo em outras. Os números de violência contra mulher, de abuso físico e sexual são um absurdo, levando a gente a criar a lei do feminicídio. Aí eu me pergunto: será que um país que sonha em ser desenvolvido, em ser respeitado lá fora pode carregar esses números? As mulheres ganharem 25% a menos que os homens no mesmo posto de trabalho? As mulheres serem espancadas e estupradas nesse mundo que estamos vivendo? Acho que isso não combina com os brasileiros civilizados que querem avançar nacional e internacionalmente. Quero fazer da vice-presidência uma embaixada da causa das mulheres. 

 

Uma das principais bandeiras do Ciro na campanha é o programa “Nome Limpo”, que promete tirar mais de 60 milhões de brasileiros do SPC. Alguns analistas apontam que é difícil a iniciativa ter sucesso porque ela pressupõe a reunião de um grupo de 5 a 10 devedores, que assumiriam a dívida de quem eventualmente não pagasse as parcelas. Ou seja, se propõe que outras pessoas paguem a dívida de uma. Isso não pode inviabilizar o programa, já que as pessoas podem ter resistência a assumir a dívida de outra?
A probabilidade de dar errado é pequena porque essas pessoas têm só o seu nome e seu CPF para movimentar sua vida pessoal e sua família. São trabalhadores, na sua grande maioria, que não têm como viver apenas com seu salário. Eles se programam pra viver na prestação e no crediário. Se ele não tem condições de comprar um computador pro filho e ele quer comprar, ele vai, divide e paga direitinho.

 

 

Mas isso aí não seria apenas contar com a fé de que eles vão pagar? Quais garantias podem ser dadas de que haverá o pagamento?
A dívida média desses 63 milhões de pessoas está em torno de R$ 4 mil. Se você for no Serasa negociar, ele dá 70% a 80% de desconto. Isso dá, em média, sobra de R$ 1.400. Mas o Serasa quer o dinheiro à vista. Mas essa família que ganha R$ 2 mil não tem esse dinheiro para pagar à vista. Vamos financiar essa diferença em 36 meses. Isso dá uma parcela de R$ 40 por mês. Qual garantia vamos dar aos bancos públicos? Queremos o aval solidário, instrumento usado em vários países. Vamos juntar grupos de cinco a dez pessoas. Se uma pessoa do grupo não pagar, o que seriam R$ 40 divididos por nove pessoas? Temos a convicção de que a grande maioria vai pagar porque precisa do nome limpo para viver e dar uma vida melhor para sua família. 

 

Mas em um cenário de crise econômica, em que há muito desemprego, como ter a garantia de que as pessoas farão esse pagamento? Não seria melhor fazer outra política até que a crise ceda e a população tenha mais condições de pagar essa dívida?
Se nós fizéssemos só esse programa, você estaria correto. Se você pegar o programa do Ciro, isso é só uma estratégia. Na economia nacional, os governos anteriores sempre contaram com o quesito consumo das famílias para ativar a economia do país. O Ciro descobriu que centenas de indústrias e microempresas fecharam no país. Falta crédito? Não, é custo alto de crédito. Temos que retomar o crédito barato. Outro ponto na estratégia: a mão de obra desempregada é de baixa qualidade. Não tiveram a presença do estado na formação profissional. Qual a atividade que mais absorve mão de obra desqualificada? A construção civil. Então queremos pegar o FGTS e investir pesadamente em construção de moradias e saneamento básico. Queremos retomar 7 mil obras paradas. Nós retomaremos as obras, construiremos casas e saneamento básico e esperamos que, com isso, geraremos 2 milhões de empregos. Precisamos ter também um trabalho maior com as indústrias. Temos um projeto muito forte de reindustrialização do país, porque, nos últimos 15, 20 anos, a indústria nacional foi destruída por falta de políticas públicas. Temos que abrir o país, mas não é de uma vez. Precisamos dar a elas estrutura, para que os donos se prepararem para abertura comercial do Brasil. O SPC não é projeto isolado. É uma iniciativa dentro de um conjunto de ideias.

 

O Ciro já se colocou várias vezes contra a reforma trabalhista. Disse que, caso eleito, revogaria “esta porcaria”, em um evento com empresários em maio deste ano. Em agosto, a senhora disse que é um mito que ele seja contra a reforma trabalhista. Ele contrariou sua declaração depois. Entre o vice e o cabeça de chapa se pressupõe um alinhamento nas posições. Esse episódio mostra uma aliança com interesses conflitantes entre vocês?
Não, as duas coisas são verdadeiras. Tanto o que ele disse quanto o que eu digo. Eu votei contra a reforma trabalhista, sem nem imaginar que seria vice de Ciro Gomes. Votei contra, como todos os senadores, inclusive da base, queriam votar. Votaram pressionados por um documento de uma folha, onde o Temer fez um compromisso de vetar boa parte dos artigos e mandar uma medida provisória, suprimindo outros. Era uma reforma delicada, que precisa ser feita, e Ciro tem essa consciência, por isso que ele disse que é contra esta, e eu disse que é um mito o Ciro não ser a favor da reforma, eu disse [que é a favor] de uma nova reforma. Vamos fazer a lei trabalhista e refazer os pontos. 

 

O deputado federal Irajá Abreu, que é seu filho, votou a favor da reforma. Ele tem participação no comando da fazenda Aliança, que é da senhora. Quais os interesses reais entre vocês, já que tiveram votações diferentes?
Normalmente os políticos, quando dão a oportunidade a seus filhos de serem mandatários, não significa que é uma extensão da mesma ideia e do mesmo comportamento. Meu filho é independente, é empresário, da iniciativa privada, tem seus desejos e convicções. Ele não tem que herdar minhas ideias, tem que herdar da mãe a formação. Tanto que votou para investigar o Temer duas vezes e votou contra o impeachment da presidente Dilma. Se ele não tivesse feito isso, nós brigaríamos feio. Em termos de ideias a respeito de reformas ou projetos para o Brasil, ele tem liberdade total para isso. 

 

Se a senhora votou contra a reforma, por que dizer, então, que é um mito que Ciro seja contra a reforma? Foi apenas para atrair apoio dos empresários?
Não, porque ele fala que vai trazer a reforma para o centro do campo. Ele não disse que essa reforma é péssima e vai fazer outra. Ele disse que vai rediscutir a reforma trabalhista. Não está querendo bajular ninguém. Se nós não modernizarmos a lei trabalhista, os empresários não conseguem trabalhar e nem os trabalhadores conseguem emprego. Estamos com 13 milhões de desempregados. Quando foi a votação da reforma, qual era o discurso principal? Quem não votar a favor da reforma trabalhista está votando a favor do desemprego. Conclusão: depois de votada a reforma, nós já tivemos 950 mil desempregados. Nós tivemos pleno emprego no governo Lula com a mesma reforma trabalhista. Não quero dizer que não deve ter modernização da reforma. Mas não podemos dizer que apenas a legislação trabalhista desemprega. Precisamos modernizar para dar competitividade às empresas. 

 

Na sabatina que a senhora participou na Globo News, a senhora se posicionou contra a divulgação da lista do trabalho escravo. Anteriormente, já havia entrado com um pedido contra a publicização dessa lista. A senhora disse que a divulgação da lista significa uma condenação prévia da empresa acusada. Ao sonegar essa informação à população, não pode parecer que a senhora defende essas empresas?
Imagine que ocorra um problema entre você e seu patrão, por algum descuido. Pode haver uma série de acusações, de problemas, de motivos. Alguém entra na Justiça contra você, e o seu patrão lhe demite. Você acha que, antes de transitar em julgado, de você ter todas as condições de provar sua inocência, você acha justo seu nome ir para uma lista suja da imprensa? Essa desmoralização pública vai te ajudar a arrumar emprego ou continuar desempregado? No caso da lista do trabalho escravo, não é uma listinha qualquer. Eu respondi isso para Miriam Leitão. Se eu produzo cana, eu não vendo para Petrobras. Isso antes de responder na primeira instância. Naquele momento que você recorre para o mesmo fiscal, e ele não lhe dá ganho de causa, você vai para lista imediatamente, antes de um juiz de primeira instância, um segundo ou terceiro lhe condenar. É o transitado em julgado administrativo fazendo com que um auditor do trabalho vire juiz. Ele não é juiz, ele é auditor do Trabalho. Ou nós optamos pelo estado de direito, ou vamos virar uma baderna. Minha questão é de legalidade. Se um fiscal chegar e encontrar pessoas amarradas ou acorrentadas, ou você fica devendo na cantina e fica proibido de sair com violência, isso não tem discussão. Isso tem que ir para a cadeia. Isso não é produtor rural, isso é doido. Não está no meu espectro de defesa. Falo de pessoas de bem que, por um motivo ou outro, não tem a quantidade de banheiros suficiente, não conseguiu ter o alojamento adequado. Está errado, tem que corrigir, mas isso não é trabalho escravo para se condenar em instância administrativa. Preciso do transitado em julgado. Não posso fazer isso com alguém que, lá na frente, vai provar sua inocência.

 

"Eu tenho orgulho desse apelido", afirma Kátia Abreu sobre título de "Motoserra de Ouro"

A candidata a vice de Ciro, Kátia Abreu, deu uma entrevista ao vivo para o BN Na Tela, na qual falou sobre variados temas. Questionada sobre o título de Motoserra de Ouro, que recebeu do Greenpeace em 2010, acusada de contribuir para o desmatamento, ela afirmou ter "orgulho" dele e parabenizou os produtores rurais que tiveram coragem de desmatar o país para desenvolvimento da economia. Na conversa para a página do Bahia Notícias no Facebook, a senadora ainda falou sobre o armamento de produtores rurais, o que pensa do General Mourão, vice de Jair Bolsonaro (PSL), além de sua tensa relação com movimentos sociais do campo. Veja abaixo a entrevista completa: 

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