Segunda, 24 de Setembro de 2018 - 11:00

Célia Sacramento

por Bruno Luiz / Lucas Arraz

Célia Sacramento
Foto: Paulo Victor Nadal / Bahia Notícias

Você pode conhecer Célia Sacramento como a vice-prefeita do PV que, após o primeiro mandato de ACM Neto (DEM) na gestão de Salvador, foi descartada da chapa de reeleição. Você também pode lembrar da Célia Sacramento que, pelo PPL, perdeu as eleições municipais de 2016 com menos de 0,3% dos votos da capital baiana. Para a Célia Sacramento de 2018, candidata ao governo da Bahia pela Rede, nenhuma desses momentos, entretanto, são lembrados como derrotas ou frustrações. 

 

“Ledo engano quem pensa isso. Sou uma mulher negra vindo da pobreza que estudou na Universidade Federal da Bahia (Ufba) e na Universidade de São Paulo (USP). Sou contadora e advogada. De tudo que eu participo, nada é frustrado. Para nós negros, nesse Brasil racista que sempre nos exclui de tudo, participar de um processo como esse [disputar eleições] é sempre um sucesso total. Eu sou candidata para mostrar ao Estado que nós negros podemos sim”, descreveu Célia.

 

Célia exalta a todo o momento a importância de ser a primeira mulher negra a disputar o Palácio de Ondina. “Estamos em um Brasil que escravizou o povo negro africano durante muito tempo. Essa é a primeira vez que os negros, que são a maior parte da população baiana, participam do processo eleitoral. Participar já é um sucesso total”, comemora. 

 

Das derrotas passadas, lembradas como conquistas pela candidata, restam apenas duas convicções: de que não foi uma vice decorativa e que foi avisada que poderia ser traída por ACM Neto. ‘Me falaram que ACM Neto poderia me trair, mas eu não acreditei. Aprendi com a minha família que devemos confiar no ser humano e deixar que cada um se mostre quem é por dentro. O prefeito me mostrou quem ele é. O mais importante é que eu fiz o meu trabalho e isso jamais ACM Neto vai poder negar. Passou. Deixa essa página virada”, completou Célia Sacramento. 
 

Qual o maior problema do estado e qual seria a solução para ele? 

Os maiores problemas do estado hoje são o desemprego, a saúde e a educação. Para corrigir o desemprego é necessário viabilizar um trabalho voltado ao cuidado com a industrialização, fortalecer o agronegócio a partir da agricultura familiar e oferecer saúde básica para que as pessoas não cheguem na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) morrendo. 

 

Qual diferencial que a sua candidatura apresenta? 

As mulheres negras vem de uma base de exclusão social na pirâmide social.  Eu vim da pobreza direta e consegui romper todo esse ciclo e estar aqui, preparada e com qualidade para governar a Bahia. Eu já fui vice-prefeita de Salvador e foi um sucesso total. A cidade estava toda destruída. Eu sou uma candidata feminina quando as mulheres têm mais competência em todas as atividades que desenvolvem. Nós mulheres fazemos as coisas com muita maestria. Vejam as mães que estão comandando os seus lares sozinhas. Elas dão um show. Não tem sido fácil, mas elas têm sido guerreiras. Vejam as mulheres nas empresas, mesmo ganhando 30% a menos que os homens, elas mostram sua sabedoria e competência. Na política, as mulheres são 11%, em média. Somos poucas, mas desenvolvemos nosso trabalho com competência e com sabedoria. As mulheres mostram que em qualquer lugar que elas estejam, elas são sucesso total. Minha principal diferença é ser uma mulher negra candidata ao governo. 

 

Para quem você vai votar para presidente e porquê?

Eu voto em Marina Silva, pois ela fundou a Rede, um partido que entrega uma discussão que mostra para a sociedade que é possível olhar o social, o econômico e o ambiental com sustentabilidade. Podemos dar uma resposta sustentável ao desemprego, aos problemas com a saúde, educação e com a segurança pública.

 

Após 2012, a senhora teve candidaturas frustradas em 2014 e 2016. Agora, a senhora tenta ser governadora da Bahia mesmo nunca tendo eleita com voto próprio. Por que essa eleição é diferente?

Eu não tive eleições frustradas. Ledo engano quem pensa isso. Sou uma mulher negra vindo da pobreza que estudou na Universidade Federal da Bahia (Ufba) e na Universidade de São Paulo (USP). Sou contadora e advogada. De tudo que eu participo, nada é frustrado. É sempre sucesso total apenas por poder fazer parte do processo. O mais importante é participar. Me lembro de Abraham Lincoln. Quantas vezes ele tentou até conseguir ser presidente? Até hoje ninguém conseguiu superá-lo. Esse é o exemplo. Nós negros, nesse Brasil racista que sempre nos exclui de tudo, participar de um processo como esse é sempre um sucesso total. Eu sou candidata para mostrar ao estado que nós podemos sim. 


O que tem de diferente nessa eleição, uma vez que a senhora disse que as outras candidaturas não foram frustradas? 

A diferença é que eu estou participando. 

 

A senhora por acaso não participou nos outros anos?

Me permita explicar. Nós estamos em um Brasil que escravizou o povo negro africano durante muito tempo. Essa é a primeira vez que os negros, que são a maior parte da população baiana, participam do processo eleitoral. Participar já é um sucesso total. Não é sobre ganhar. Eu estou apresentando o projeto de Marina Silva para presidente do Brasil. Não queremos mais corrupção ou aquela velha política do “toma lá, dá cá” com cargos que só favorece um grupo e coloca jovens negros sendo exterminados todos os dias. 

 

Então a candidatura da senhora não é para vencer, mas sim apenas para apresentar um projeto?

Muito pelo contrário é uma candidatura que já está vencedora.

 

Por quê?

Porque só de estar participando já é um sucesso total. 

 

A queda de Marina Silva nas últimas pesquisas pode prejudicar as suas chances de vencer aqui?

Em hipótese nenhuma. Não vejo queda em Marina Silva. O que vejo é um sucesso total.

 

Mas, desde agosto até a última pesquisa Datafolha, ela caiu de 16% para 8%. Como não houve queda? 

Marina Silva tem 26 segundos de televisão enquanto os outros candidatos têm muito mais. Só o fato de Marina conseguir se manter já é um sucesso total. Marina aparece perdendo voto nas pesquisas, mas pode surpreender no dia da eleição. Em 2014, ela só perdeu para Dilma na Bahia. Vamos esperar as urnas. 

 

A senhora é a única mulher na disputa eleitoral ao governo em 2018. No entanto, a pauta feminista parece que não tem permeado esse debate. Estamos falando apenas de machismo ou falta credibilidade na sua trajetória política para levantar essas discussões?

Uma mulher que foi presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher por dois mandatos e reeleita? Uma mulher que abriu as portas do gabinete como vice-prefeita para atender toda comunidade? Uma mulher que participou ativamente dos movimentos de mulheres? Estive recentemente no Encontro de Mulheres Negras e todo o movimento de mulheres que participo discute o feminismo. Eu não tenho dúvida que somos uma candidatura que tem o apoio da questão feminista. 

 

A Marina Silva já defendeu o plebiscito para a questão do aborto e da legalização das drogas. Qual é a posição da senhora sobre essas questões aqui na Bahia, uma vez que a Rede está sendo apoiada pelo Patriota, partido que tem feito campanha nas igrejas evangélicas. Isso não cria um constrangimento?

Nenhum. Primeiro que o Patriota está com a Rede nas proporcionais. Existe uma divisão e em relação ao aborto, eu defendo o plebiscito.

 

Por que não a legalização do aborto e a descriminalização das drogas sem o plebiscito? 

É importante ouvir o que a população quer. Nenhuma mulher aborta porque quer. No meu fórum pessoal tenho meus questionamentos, mas é necessário ouvir o que a população quer. O gestor não pode governar querendo decidir tudo do jeito que ele quer.

 

Qual é a posição pessoal da senhora em relação a descriminalização do aborto e a descriminalização das drogas?

Eu particularmente não tenho dúvida nenhuma, com meus 50 anos de idade, que a resposta está em campanhas educativas. Na minha geração fumar era sucesso total. Sabe o que acabou com o cigarro? Campanhas educativas. O atual governo do estado gasta mais de R$ 560 milhões só com campanhas institucionais para dizer que a gestão está maravilhosa. quando todo mundo vê que o governo está um fracasso total. Sabe por quê? Todos os meses morrem mais de 50 jovens negros em média na Bahia. Isso é um número alarmante. Precisamos de um trabalho de campanha para mostrar que as drogas prejudicam. Se o governo gasta R$ 120 milhões, vou aumentar esse valor para falar que as drogas e a bebida podem prejudicar. Funcionou com o cigarro.

 

Candidata, a sua posição. A senhora é a favor ou contra a descriminalização das drogas?

Sou a favor da descriminalização das drogas a partir de um trabalho pesado de educação para reduzir o consumo como aconteceu com o cigarro .

 

Em um passado recente a senhora sugeriu que poderiam existir superfaturamentos em obras da prefeitura de Salvador. Depois, a senhora voltou atrás e disse que a informação não foi precisa. Por que esse recuo? Eram indícios de superfaturamento ou meras suposições?

Em nenhum momento falei de superfaturamento nessa ocasião. Quem falou isso foi um repórter do jornal A Tarde para vender. Como o Bahia Notícias faz de vez em quando. Um dia desses eu estava em um estúdio de rádio quando eu abri uma matéria [do Bahia Notícias] “advogada negra sai arrastada de fórum”. Na hora falei “nossa”. Quando fui ler o texto, não era nada daquilo. O texto contava perfeitamente a situação, mas a chamada… Alguns meios de comunicação midiáticos sem compromisso com a verdade falam o que querem para vender o produto. Ainda bem que isso só acontece nas chamadas porque existe profissionalismo e ética. Eu não recuei da minha opinião sobre as obras da prefeitura. Sou contadora pelo mestrado e fiz doutorado em engenharia. Tenho competência para fazer obras à custos menores e foi isso que falei [sobre as obras da prefeitura]. 

 

Durante o seu mandato como vice, o prefeito ACM Neto pouco se ausentou do Palácio Thomé de Souza. Aliados sugeriram que a situação poderia ser reflexo de deixar a prefeitura sob o seu comando. O medo fazia sentido ou a senhora era uma vice meramente decorativa?

Para me chamar de “meramente decorativa”, só um profissional que não pesquisa, que não procura trabalhar. Jornalistas sérios da cidade de Salvador trabalhavam com o Facebook aberto e viram que eu, enquanto vice-prefeita, estava no gabinete todos os dias. Eu inaugurava obras com o prefeito todos os dias e também no horário noturno. Era uma pessoa que sempre estava no gabinete trabalhando, discutindo os projetos com o prefeito. Fazendo as modificações necessárias. Quando cheguei, encontrei somente uma UPA funcionando em Salvador. Deixei mais de 20. Encontrei a cidade com creches completamente destruídas. Demoli 20 e construí mais de 50. Pelo amor de Deus. Viajei mais que o prefeito. Fui para muitos encontros internacionais, fiz parte da Aliança Global de Líderes Afrodescendentes da América do Sul. Fiz parte da Aliança Panamericana de prefeitas. Eu viajei muito enquanto o prefeito viajou poucas vezes. Eu desenvolvi um trabalho muito sério e foi sucesso total. Não me sinto dessa forma como você me interpreta. 

 

Não interpreto. É somente uma pergunta.

Mas infelizmente eu não me sinto assim. 

 

Na escolha da senhora como vice, muitos apontaram, na época, que ACM Neto quis apenas acenar para movimentos sociais com uma vice negra. Ele queria acenar para representatividade. Anos depois, o prefeito não escolheu a senhora para ser vice na candidatura à reeleição. ACM Neto te usou?

Antes de aceitar ser vice-prefeita de Salvador, muitos conhecidos me colocaram a par dessa possibilidade. Inclusive me falaram que eu poderia estar sendo enganada. Me falavam: “Neto já foi candidato à prefeitura uma vez. Perdeu. Ficou em terceiro lugar. Você na vice vai viabilizar essa chegada dele aos bairros populares. Você vai ganhar a eleição e ele vai lhe trair”. Na época, eu não acreditei. Aprendi com a minha família que devemos confiar no ser humano e deixar que cada um se mostre quem é por dentro. O prefeito me mostrou quem ele é e não temos mais nada do que conversar sobre esse tema. O mais importante é que eu fiz o meu trabalho e isso jamais ACM Neto vai poder negar. Saí satisfeita com o meu trabalho e com o que foi feito. Passou. Deixa essa página virada. 

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