Segunda, 02 de Julho de 2018 - 11:00

Lídice da Mata

por Fernando Duarte / Lucas Arraz

Lídice da Mata
Fotos: Bahia Noticias

Fora da chapa majoritária de Rui Costa, Lídice da Mata conversou com exclusividade com o Bahia Notícias sobre o processo que se arrastou por meses e culminou na exclusão do seu nome para concorrer a reeleição ao Senado ao lado do governador.  “O que muita gente pensa se tratar de uma birra em continuar na condição de senadora, não é uma birra minha. Há uma mobilização de segmentos em torno da luta da esquerda no estado que resistem a minha exclusão”, declarou. Sobre o processo, Lídice criticou a decisão de Rui de tirar uma mulher da chapa no contexto político atual. A presidente do PSB disse ainda que não entendeu bem o como o processo que desencadeou a troca do seu nome pelo de Angelo Coronel aconteceu, mas que a escolha de Rui vai de encontro com o contexto político atual. “Depois do impeachment de Dilma [Rousseff], tivemos um ano de manifestações de milhares de mulheres na ruas contra o governo Trump. Na Espanha, contra o governo que acabou caindo, o governo socialista assumiu com 70% do seu ministério composto por mulheres. Nesse contexto é que se tirou uma mulher da chapa na Bahia”, declarou. A senadora ainda questiona se a escolha de um nome “mais fraco” nas pesquisas que o dela nas pesquisas foi correta: “Claro que as pesquisas mostram o cenário em um determinado momento, mas tudo parte do princípio que não teria porque ser escolhida a condição menos favorável, que é de um candidato que tem 3% e que, além de tudo, é um homem tirando uma vaga de uma mulher”. O futuro político de Lídice é incerto, porém ela adiantou ao BN detalhes sobre as discussões que já começaram dentro da legenda: “O PSB já começou a discussão, no entanto não chegamos a uma decisão. Não está sendo fácil e as pessoas precisam entender”. 


Foto: Bahia Notícias

 

Como foi processo que desencadeou na exclusão da senhora da chapa do governador Rui Costa?
Não tenho conhecimento de todo o processo. O que sei é do início de um debate feito na imprensa de que a chapa teria uma composição do PT com o PP e o PSD. Desde do início me coloquei contrária a essa compreensão. Entendendo que a majoritária deveria buscar uma composição maior e não apenas com três partidos. Temos um grupo maior de siglas apoiando o governo. 

Faltou experiência política ou tato na articulação de Rui?
Não acho que a questão seja de experiência. O governador tem demonstrado tanto capacidade administrativa, como capacidade política durante sua gestão. A questão foi de compreensão do momento. Houve uma ruptura no Brasil após o impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Quando você decide, sem ter justificativa, sem ter um crime, que vai tirar a presidente da República do governo de qualquer forma, há uma ruptura. Essa ruptura levou ao período do estímulo aos confrontos, do discurso de ódio e de perseguição que estamos vivendo. O quadro político atual faz com que a composição da política não possa ser nos moldes que foi feita antes. As pessoas que foram para as ruas lutar pela manutenção do mandato de Dilma, não estavam lá apenas pela presidente, mas por conta daquele programa. São essas pessoas hoje que têm uma existência maior, uma exigência de participação nos movimentos progressistas. Eu acho que o governo [da Bahia] não compreendeu isso e manteve a decisão de uma aliança que não levava em conta a conotação nacional. Ao reduzir a chapa ao PT, PP e PSD e falar em equilíbrio, passo a compreender que não há um equilíbrio. Não é apenas o PT que pode representar as forças progressistas e as forças de esquerda. 
 
O que acontece a partir de agora com a senadora Lídice da Mata, já que ela foi excluída do processo da majoritária?
O PSB já começou a discussão, no entanto não chegamos a uma decisão. Não está sendo fácil e as pessoas precisam entender. O que precisa ficar claro é que o partido não tem nenhuma posição contra o governo. Nós participamos e dissemos muito claramente, há muito tempo atrás, que apoiaremos Rui [em outubro]. O governo é o que, no campo da esquerda, reúne mais condições de ganhar a eleição. Temos compromisso com a construção de um caminho para o desenvolvimento da Bahia que não seja dependente do carlismo. Então não tem sentido não apoiarmos Rui. Nós apoiaremos. O que muita gente pensa se tratar de uma birra em continuar na condição de senadora não é uma birra minha. Há uma mobilização de segmentos em torno da luta da esquerda no estado, dos segmentos mais progressistas, que resistem a minha exclusão. Eu recebo abaixo-assinados quase que diariamente de segmentos universitários, sindicatos e da base do próprio PT que reivindicam a manutenção da minha candidatura. No enterro de Waldir Pires, foram diversas as manifestações de pessoas a favor do governo de Rui que me falaram para apoiar o governador, mas não aceitar a situação e me lançar candidata. Então isso tudo tem que ser refletido dentro do partido. Nós agora temos a responsabilidade de uma decisão. Em muitos momentos, nós que escolhemos o nosso caminho. Em outros, o caminho é o imposto pela realidade. O PSB se unificou muito em torno da minha candidatura ao Senado. Marcamos para o dia 3 de julho uma reunião para discutir se a sigla já tem amadurecimento suficiente para tomar uma decisão sobre o meu futuro e também sobre outras questões, como a coligação proporcional e a organização da campanha dos deputados. Temos um número maior de pré-candidatos do que o necessário para uma coligação no chapão, mas o PSB não se preparou para sair sozinho [em uma candidatura avulsa].  Abrimos mão desse caminho e de diversas candidaturas fortes do partido, que foram para outras legendas, em função da decisão dos nossos deputados de concorrerem pelo chapão. Perdemos grandes amigos como Zé Barreira, com muita chance de se eleger, porque ele queria que o partido saísse sozinho. Diversos candidatos saíram do PSB, inclusive para o PCdoB, em função da sigla ter chapa própria. Tudo isso precisa ser analisado e estamos atrasados nas conversas. Essa discussão toda em torno da minha candidatura para o Senado fez com que o partido atrasasse seu cronograma interno de decisões. Decisões importantes para o processo eleitoral. 
 


 

Quais são as cartas que estão na mesa: Lídice suplente de Jaques Wagner, candidata avulsa, deputada estadual ou federal? 
Suplente eu não serei. Vamos debater outras alternativas. Eu não tenho nenhuma vaidade que me impeça de ser suplente, mas o partido tem uma opinião que, como presidente do partido, eu  tenho que ter um nível de autonomia maior do que na suplência de senador. Embora me envaideça poder ser suplente de um ex-governador e um homem com a liderança de Wagner. 
 
A senhora continua apoiando Rui e Wagner, mas existe um tipo de tensão com Otto Alencar, um dos padrinhos de Angelo Coronel no processo de formação da chapa?
 
Eu e Otto pensamos diferente. Temos uma compreensão diferente sobre a política. De repente, ao invés de discutir política, estamos discutindo padaria. Se é ‘pão com pão’, ‘queijo com queijo’. Um monte de coisas que são figurativas para traduzir uma complexidade que não se coloca. É discutível se a chapa deve ser metade de esquerda, metade de direita. Eu não sei. Ainda que fosse essa composição, por que temos apenas um partido? Fica uma sigla de esquerda e duas de centro-direita, como Coronel classificou recentemente. A chapa tem que representar um conjunto de pensamentos que não necessariamente são estes que estão aí. O processo de ruptura que houve no Brasil, nos levou a um tensionamento e a uma radicalidade de posições que precisa ser expressa. Com tudo que aconteceu com Dilma, em uma campanha que além de pautar a retirada de uma mulher, terminou com o discurso de ódio de adversários carregado de misoginia, carregado de machismo. Nesse contexto, o mundo inteiro vive e discute desde o ano passado as manifestações das atrizes de Hollywood, que divulgaram e debateram o assédio sexual do meio. No esporte, enfrentamos situações semelhantes nas Olimpíadas. Agora, na Copa do Mundo, o evento está sendo marcado por assédio à jornalistas. Tivemos um ano de manifestações de milhares de mulheres na ruas contra o governo Trump. As principais manifestações são feitas por mulheres. Na Espanha, contra o governo que acabou caindo, o governo socialista assumiu com 70% do seu ministério composto por mulheres. Todas essas situações são uma sinalização de que era preciso mudar de forma mais profunda aquela condição de governo. Nesse contexto é que se tirou uma mulher da chapa na Bahia. Uma mulher que tem serviço prestado ao estado como senadora, com lealdade. Além disso temos as pesquisas que chegam aos nossos ouvidos. Não só a feita pelo Bahia Notícias, como outras que mostram que estou no segundo lugar [das intenções de voto para senador]. Até podem dizer que em pesquisa uma candidatura pode começar pequena e dar a volta por cima. Claro que as pesquisas mostram o cenário em um determinado momento, mas tudo parte do princípio que não teria porque ser escolhida a condição menos favorável, que é de um candidato independente que tem 3% e que, além de tudo, é um homem tirando uma vaga de uma mulher. Se são três homens na chapa, por que não incluir uma mulher? No fundo, a questão está sendo minimizada pelo conjunto dos segmentos democráticos. Essa questão é uma colocação do nosso segmento e não dos segmentos conservadores. E é por isso que ela tem que ser defendida por nós e pelo outro.
 
Será que existe algum resquício de mágoa de Rui Costa pelo ano de 2014, quando a senhora foi adversária dele ?
Não acredito. Não acredito mesmo. O governador me trata de maneira carinhosa. Muitas vezes ele me reafirmou que não há nada disso e eu acredito na sua sinceridade.

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