Segunda, 09 de Abril de 2018 - 11:00

Sosthenes Macedo

por Estela Marques / Ana Cely Lopes

Sosthenes Macedo
Foto: Divulgação / Codesal

Ao fim do verão, uma constante preocupação paira na mente dos moradores de Salvador: as chuvas. Não só por conta dos alagamentos e desabamentos, mas também pela possibilidade constante de deslizamento de encostas. Nos último mês, o fantasma das chuvas voltou a assombrar a população após um prédio desmoronar no bairro de Pituaçu, incidente que culminou na morte de quatro pessoas (leia mais). Neste dia, choveu mais 70% do esperado para o mês de março. Para o gestor da Defesa Civil (Codesal), Sosthenes Macedo, é necessário criar uma cultura de defesa civil para saber identificar situações de risco, como reportar e como agir perante aos sinistros que ocorrem. “Nossas equipes de diversas áreas de atuação trabalham para gerar capacitação e conhecimento sobre o que pode acontecer em uma área de risco, para que a população saiba se comportar em uma eventual necessidade de saída com emergência”, explicou. Apesar do trabalho da Codesal ser mais comentado em épocas de chuva, o órgão trabalha o ano inteiro com o braço da prevenção. Seja criando Núcleos para conscientização de pessoas que moram em áreas de risco, ou em trabalhos transversais com as secretarias de Educação, de Desenvolvimento e Urbanismo (Sedur) e de Manutenção da Cidade (Seman), o fortalecimento das ações da Codesal tem impactado diretamente na qualidade do dia a dia da população. Prestes a começar o período da chuva, o Bahia Notícias entrevistou o gestor para saber mais sobre quais são os serviços da Codesal, como a população pode recorrer e como podemos evitar sinistros como desabamentos, alagamentos e deslizamentos. “O nosso objetivo é no fim das contas é não ter mais risco, é um objetivo difícil de alcançar, a luta é dura, mas vale a pena”, concluiu Macedo. 

A gente vê muito a Codesal aparecendo em momentos de chuva, de deslizamento. Mas não é só isso que a Codesal faz. Queria que você falasse um pouco dos serviços que a Codesal oferece a população e de que forma as pessoas podem solicitar isso.

Evidentemente para população o órgão de Defesa Civil é mais lembrado no período de chuva, quando a região onde você mora está alagada, invariavelmente você tem que recorrer a alguém. E esse alguém é um órgão que presta socorro a região que teve esse tipo de sinistro, fiscalizando e encaminhando a outros órgãos que possam realizar as intervenções, sejam elas a limpeza de canal, de caixa de sarjeta, enfim. De tal modo como quando há deslizamento de terra, tombamento de árvores, etc. Mas nós passamos o ano inteiro fazendo o trabalho de prevenção. Montamos o Centro de Monitoramento e Alerta de Defesa Civil (Cemadec), que fica dentro da sede da Codesal, com pluviômetros espalhados por toda a cidade de Salvador e áreas cobertas com Sistemas de Alerta e Alarme com sirenes, sistemas de SMS que nós fazemos desde 2016, e, além disso, foram criados alguns planos. O Plano de Prevenção em Defesa Civil veio para abarcar uma série de ações em que trabalhamos durante todo o ano, temos os Núcleos Comunitários de Prevenção e Defesa Civil (Nupdec), constituídos em áreas historicamente tidas como vulneráveis da cidade. 

Como essas ações são realizadas?
Nós trabalhamos o ano inteiro constituindo grupos nessas regiões vulneráveis que eu citei. Nossas equipes de diversas áreas de atuação trabalham para gerar capacitação e conhecimento sobre o que pode acontecer em uma área de risco, para que a população saiba se comportar em uma eventual necessidade de saída com emergência. Os Núcleos Comunitários formam voluntários desde 2016, mas de setembro para cá avançamos com a quantidade de Nupedecs, abraçamos mais áreas da cidade, em determinados períodos dobramos a quantidade de atividades e participantes. O objetivo é criar uma cultura de defesa civil nessas comunidades para que a população saiba como se comportar e ajudar vizinhos, amigos e familiares que vivem em situação semelhante. Nas áreas que contam com Sistemas de Alerta e Alarme, implantamos simulações. Existem sirenes nestas regiões e quando o protocolo altera o nível de Acompanhamento para Atenção e nossos pluviômetros mostram nível elevado, a gente aciona o Sistema de Alerta e Alarme com para que a população evacue. Desta forma, as pessoas ficam instruídas e capacitadas para saber como agir em um momento similar. Temos também o Plano de Defesa Civil nas Escolas (PDCE), que surgiu após um convênio com a Secretaria Municipal de Educação de Bruno Barral. Nele, alunos, professores e diretores passam por uma capacitação. A perspectiva é ter 12 mil famílias contempladas em 2018. Nessa forma a gente constrói nas crianças uma cultura de defesa civil. Falamos tanto em cultura porque é a premissa base da nova defesa civil, a da prevenção. Nessa perspectiva, a intensidade de trabalho é maior na época da chuva para uma das equipes, mas todo o resto possui trabalho o ano inteiro para, no período da chuva, a gente saber como dar a melhor resposta. O PDCE visa fazer esse trabalho, em 2018 serão 30 escolas contempladas. Esse é o braço da prevenção. O terceiro e último que instituímos no fim de 2017 não é para todos, é para quem foi capacitado, como líderes os comunitários. Além de toda capacitação que nós demos, eles aprenderam a trabalhar com um aplicativo criado para Operação Chuvas 2018, que é o Programa Mobiliza Defesa Civil, são cerca de 300 a 400 pessoas que vão ter em seus celulares, não é um aplicativo que baixa diretamente, apenas é baixado por técnicos da Codesal. No aplicativo eles podem informar o risco, o sinistro, a árvore que está para cair, o barranco que está para deslizar, etc. e nossa equipe de técnicos e engenheiros pode dar a resposta com mais rapidez. Esses programas estão interligados. A gente também fez campanha de panfletagem nas estações de trem e ônibus com nossa equipe de prevenção, além disso temos os trabalhos publicitários e outdoors. Agora na Operação Chuvas deve entrar a parte televisiva, são campanhas, motivadores para que as pessoas entendam que tem risco e que devem ficar atentas para não ter esse tipo de problema. O nosso objetivo é no fim das contas é não ter mais risco, é um objetivo difícil de alcançar, a luta é dura, mas vale a pena.


A Prefeitura de Salvador divulgou a instalação de 30 mil metros quadrados de lonas e geomantas até o fim do primeiro semestre. Para que elas servem e como funcionam?
Normalmente a solução para problemas recorrentes como desabamentos e alagamentos é a contenção de encostas ou a confecção de uma rede de macrodrenagem. Mas você não consegue realizar tudo isso rapidamente com a quantidade de demandas que se tem na cidade. Por isso, mais uma solução foi trazida para perto da população foi a instalação das geomantas, equipamento novo, moderno, mais barato e rápido. Se você tem a dificuldade orçamentária de fazer uma alta contenção de encostas e ao mesmo tempo a dificuldade do tempo de construção dessa contenção, com a geomanta nós temos mais praticidade e agilidade na resolução dos problemas. Não é uma contenção, é uma proteção que garante a população de determinada localidade a segurança e a paz devida para que ela possa dormir em paz. Às vezes é suficiente para um primeiro momento, mas há situações que só a contenção pode resolver. 

O imóvel que desabou em Pituaçu e acabou deixando vítimas foi construído de forma irregular, não tinha aval da Sedur. Quem faz esse tipo de vistoria?
A vistoria é da Sedur. A Defesa Civil tem o papel de defender, sua casa está rachando e você percebe que rachadura aumentou, está em progressão, aí você aciona o 199 e solicita a vistoria. É claro que após o incidente de Pituaçu as pessoas começaram a ligar demais, naquela semana houve 450 chamadas. No dia daquele episódio chegamos a 70 chamadas para risco de construção, as pessoas ficaram com medo. Mas não se engane, não são uma ou duas vezes que chegamos ao local, condenamos o imóvel, informamos que não pode e pouco tempo depois a pessoa acha leigamente sem informação técnica que pode retornar a sua casa. É uma situação muito triste porque ocorrem vários casos assim, de locais que sabidamente vão ter problemas porque as pessoas recebem notificação e voltam para suas residências. Esse caso de Pituaçu, por exemplo, estive lá desde cedo com a família e o rapaz que fez a construção carregava um olhar de perda profunda. Ele disse “a gente fez isso para sair do alugue”'. E é verdade, na maior parte das vezes acontece isso. É muito bom quando a gente vê programas habitacionais como Minha Casa Minha Vida e que as pessoas tenham esse tipo de possibilidade. Mas, muitas vezes, as pessoas não querem se deslocar para longe de onde construíram suas vidas.

O que vocês fazem nesse tipo de situação quando vocês vão lá, condenam o imóvel, as pessoas saem depois voltam? 
A gente retorna de novo, é um trabalho cotidiano e diário, é a nós que cabe fazer esse tipo de afastamento. Mas infelizmente ocorrem esse tipo de episódio, muitas vezes voltamos de ano a ano nas residências.

Existem benefícios cedidos pela prefeitura para convencer as pessoas a não voltarem para essas áreas?
Antes de 2015 o recurso que era dado de auxílio aluguel era R$ 150 por três meses. ACM Neto subiu para R$ 300 por até um ano renovável, essas pessoas gozam desse benefício quando são retiradas de seus imóveis, mas quando elas saem e voltam elas deixam de ter direito ao benefício. Isso é tudo feito de forma transversalizada com a Semps, Sedur, Seman e Limpurb. 

Como é o processo de vistoria e diagnóstico?
Os engenheiros e plantonistas recebem um endereço e o sinistro que a pessoa sofreu, entram em contato com uma pessoa , faz um histórico do ocorrido e estudam as soluções possíveis, por fim indica intervenções, tipo instalação de lona ou talude, etc. O histórico vai para Sedur. São coisas sistêmicas que vem a facilitar o gerenciamento da Codesal, isso visa a celeridade e rapidez, o que pode salvar uma vida. O tempo é muito importante. Ouvi falar que dias antes do ocorrido em Pituaçu eles viram a rachadura, pensaram em ligar para Codesal e não ligaram. No primeiro barulho, primeira rachadura ou risco é importante ligar para Codesal.

O senhor acha que as pessoas ficam com medo ou intimidadas pela possibilidade de ter que sair de casa?
Eu acho, mas é isso que a gente tem que combater. O que vale mais? Sair da sua casa ou perder sua vida, seu filho? Esse medo é legítimo natural, de não querer sair. Muitas vezes lá é onde você deixa seu filho com uma vizinha para trabalhar, ninguém tira essa legitimidade. Mas existe algo mais concreto que é o risco. Nós temos que combater isso e criar a cultura da defesa civil e da prevenção. Em outros países, as crianças sabem como sair de uma escola em alagamentos, em situações de terremoto, desabamento. É natural. Temos que criar essa cultura, é o que estamos fazendo de dois anos para cá de forma mais intensa, é muito trabalho para criar esse tipo de cultura. Precisa esperar acontecer uma situação dessas como a de Pituaçu para as pessoas começarem a procurar o órgão responsável.

Existe algum órgão da prefeitura que orienta essa construção gratuitamente?
Dentro da Seinfra existe uma diretoria de educação que é responsável pelas entregas do Programa Minha Casa Minha Vida e do Morar Melhor. Essa diretoria tem um escritório publico de engenharia e auxilia a população de baixa renda em como prosseguir com as construções. Além disso, temos todas as escolas de Arquitetura e Urbanismo e Engenharia que prestam esse tipo de serviço. A Codesal firmou convênio com algumas instituições de ensino superior que atuam diretamente em áreas específicas da cidade, fazendo projetos nas áreas de risco que citei. As instituições pegam uma região e estudam para implantar praças, macrodenagem, etc, além de construir um plano. Existem portas para esse tipo de parceria da parte organizacional para população, é importante buscar. 

A Operação Chuvas deste ano foi lançada no último dia 13 de março, com destaque para ações de prevenção, como obras de micro e macro drenagem, limpeza de canais e poda de árvores. Mas já está chovendo na cidade, inclusive no dia 13 chuveu 70% do esperado no mês. Como está sendo isso? A Codesal parou de fazer essas obras para esperar estiar? 
Não, de jeito nenhum. Não pode parar. É claro que quando chega o momento da chuva você identifica outros pontos que por ventura pesem, mas no geral todo serviço já está em curso. Todas as situações já estão naturalmente acontecendo, quando as chuvas acontecem as ações só são intensificadas. Mas elas ocorrem sempre, para que a gente possa dar respostas rápidas a localidades que por ventura não foram vislumbradas em um momento anterior. Mas às vezes não tem para onde correr. De 150 mm previstos para o mês todo, só em uma localidade bateu 107 mm em duas horas, não tem o que fazer, essa localidade terá transtorno. As grandes aglomerações de chuva pontuais vão gerar esse transtorno. 


Vou voltar para as encostas que assustam as pessoas. A prefeitura fala que já foram instaladas geomantas em 70 áreas de risco na cidade. Em 2016 falava-se em mais de 150 áreas de risco, qual o número exato atualmente? 
O Plano de Encostas, que já está desatualizado falava-se em 430-433, atualmente já chegamos a 600 mais ou menos. Em 88 áreas nós instalamos geomantas e desde março o prefeito autorizou mais 20 mil metros. Estamos fazendo levantamento para saber em quais áreas vamos implantar. Esse serviço tem sido realizado para dar tranquilidade aos moradores. 

E no Centro Histórico, que passa por uma revitalização, há alguma ação prevista para tratar dessa região?
Em novembro tivemos o incêndio no cinema XIV no Pelourinho e nós convocamos uma reunião no comitê da institucional da defesa civil. No último dia 6, nós realizamos o primeiro workshop do Plano de Contingência do Centro Histórico de Salvador, no Pelourinho. Tivemos participação de diversos órgãos como a Sedur, os Bombeiros, a Guarda Civil, etc para construirmos um plano. Esse programa nós encaminhamos para Fundação Mário Leal Ferreira para auxiliar a legislação de como atuar no pelourinho, para em caso de um sinistro sabermos como fechar uma área do Pelourinho, como demolir um prédio da região. O objetivo é que a Sedur possa fazer uma rápida intervenção em situações adversas.

O senhor gostaria de fazer algum pedido para população?
Quero pedir que em possibilidade de qualquer risco entrem em contato com 199, nos procurem. Não coloquem lixo e entulho próximo a encostas, não plantem árvores que tenham problemas de raízes que pesam como a bananeira, por exemplo. Cuide bem da área em que você vive. 

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