Segunda, 15 de Janeiro de 2018 - 12:00

Cleidiana Ramos

por Luana Ribeiro / Guilherme Ferreira

Cleidiana Ramos
Fotos: Jamile Amine / Bahia Notícias

A pesquisadora e jornalista Cleidiana Ramos fez um levantamento centenário para estudar uma das principais marcas de Salvador. Com base em reportagens de jornais datadas de até 104 anos, ela elaborou um trabalho de análise de 13 festas populares da capital baiana. Em entrevista ao Bahia Notícias, Cleidiana comentou sobre as transformações que os festejos tiveram ao longo de todo esse tempo, traçando inclusive a tão comentada relação entre sagrado e profano. "Na verdade, essa separação não existe, é uma coisa híbrida. Até o nome que a gente usa: 'festa de largo', por que é uma festa que vaza da igreja para o entorno", explicou. A pesquisadora apontou ainda que, enquanto algumas festas ganharam destaque ao longo do tempo, outras perderam força e atualmente quase não são mais conhecidas. Além disso, Cleidiana chega à conclusão de que realmente o ano de Salvador acaba demorando mais que o normal para começar. "O que a gente percebe é exatamente isso: essas festas, na sua relação com a cidade, do ponto de vista do cronograma, elas impõem seus calendários. A gente, por exemplo, só vai começar nosso 2018 na quinta-feira depois do Carnaval. Até então a gente tem esse sentimento que está tudo mais ou menos ainda se acomodando, não é nossa rotina acontecendo", disse ao Bahia Notícias.

Essa questão da religião acaba permeando todas as festas. Ao mesmo tempo o discurso do sagrado com o profano é muito comum nas festas. Gostaria de saber um pouco sobre essa relação entre as festas populares que ganham essa dimensão para além do próprio culto como acontece no Bonfim e no Yemanjá.
É uma dicotomia que não está em um extremo e outro como a gente costuma pensar. A festa por natureza é uma festa religiosa, é uma festa de ritos. O Carnaval é uma festa religiosa. Não tem exatamente como separar uma coisa da outra, a religião é festiva. Ela não é uma coisa triste, principalmente o catolicismo ibérico, de onde a gente herdou praticamente todas as festas. A primeira grande festa de Salvador depois da sua fundação foi uma festa religiosa, a festa de Corpus christi, uma grande procisão. As procisões eram grandes espetáculos. As pessoas ostentavam o que elas tinham de patrimônio, então quanto mais bonita e rica fosse a festa, era um indício que determinada irmandade era mais poderosa. Na verdade, essa separação não existe, é uma coisa híbrida. Até o nome que a gente usa: 'festa de largo', por que é uma festa que vaza da igreja para o entorno. Então todo esse ciclo de festas, com exceção da Ribeira - mas ainda assim, a Ribeira é uma separação da Feira do Bonfim. Ela é a segunda Feira do Bonfim que depois muda de nome, mas sem nenhum rito religioso. No meu trabalho eu até sugiro, porque não é nenhuma tese exata, que a dificuldade que a Ribeira teve é que ela não teve nenhum rito. O que é a Ribeira? Beber, dançar e pronto. Não é que ela acabou, as pessoas continuam indo pra lá se lembrar da festa, mesmo que ela se resuma a se sentar numa barraca da orla como numa segunda-feira qualquer. As pessoas continuam indo, ainda que em menor número. Elas têm a memória da festa. Não tem aquele trânsito enorme na orla, mas as pessoas estão lá, elas se lembram, principalmente as pessoas que estão na faixa dos 50, 60 anos. Elas fazem questão de continuar o hábito de ir pra lá comer cozido porque é a segunda-feira da Ribeira. Mas ela não tem o rito, então talvez por isso ela tenha se esvaziado. Quando você tirou o samba de roda e depois tirou o trio elétrico, ela não tinha muito mais o que mostrar. 


Há uma dinâmica, essas festas passaram por diversas mudanças ao longo do tempo e gostaria que você falasse sobre essas modificações mais marcantes e as principais razões para essas alterações acontecerem.
Sempre me interessou muito essa questão do jornal como memória. Tem um texto de um teórico fracês que ele fala dos lugares de memória, que são lugares com algum tipo de funcionalidade, de fazer com que você recupere memórias, mesmo que você não tenha vivido elas. São lugares capazes de contar histórias. E ele não inclui os jornais nessa categoria, são museus, bibliotecas...E tem toda uma discussão entre os que consideram os jornais como um lugar de memória. Eu já me coloco entre os que consideram o jornal trabalha como um lugar de memória. Eu acho que o jornal trabalha com o microcotidiano e para que os macro eventos aconteçam - às vezes a gente não percebe - mas o microcotidiano está caminhando para aquele evento. Os fenômenos sociais tem algum tipo de lógica, mesmo que a gente não perceba. O jornal tem essa capacidade de registrar a coisa do dia a dia e foi mais ou menos o que eu fiz nessa pesquisa, olhando 104 anos de reportagens, olhando o dia a dia relacionado a essas festas. O que eu percebi nessa análise? As várias tensões, as várias rearrumações e as várias dinâmicas. Porque algumas festas continuaram visíveis, porque algumas festas continuam acontecendo com a mesma dinâmica, no seu tempo? Como a festa de Santa Luzia, que sempre foi uma festa com uma dinâmica estável desde as primeiras reportagens que eu encontrei lá em 1918, 1916 era uma festa que estava acabando. E ela continua existindo, lá na Lapinha. Talvez o único abalo tenha sido 2006, que a gente conhece como o Verão do padre Pinto. Foi o único ano em que a festa ganhou mais inserções que a Festa do Bonfim nos jornais, quantitativamente. O que a gente percebe é exatamente isso: essas festas, na sua relação com a cidade, do ponto de vista do cronograma, elas impõem seus calendários. A gente, por exemplo, só vai começar nosso 2018 na quinta-feira depois do Carnaval. Até então a gente tem esse sentimento que está tudo mais ou menos ainda se acomodando, não é nossa rotina acontecendo. Na Lavagem do Bonfim não é feriado, mas metade da cidade fica parada. Sempre me perguntei como 1 milhão de pessoas - que é o que o poder público divulga - estão na Lavagem do Bonfim. Quer dizer, pessoas que trabalham. E como é que essas pessoas justificam a falta? As pessoas vão para a festa, os patrões não perguntam. São acordos tácitos que a gente faz e alguém faz de conta que não está vendo.

 

E como foi a transformação na Festa de Yemanjá?
O Rio Vermelho começou como a festa de Nossa Senhora Santana. Depois, o Bando Anunciador da Festa de Santana ganhou mais proeminência que a Festa de Santana. O Rio Vermelho era uma área de veraneio extremamente festiva até os anos 50. Aquela área do Rio Vermelho, Pituba, Amaralina, nos anos 70, tem uma urbanização muito rápida por conta da chegada da industrialização na cidade. A Pituba perdeu a lavagem. A festa da Pituba continua acontecendo, mas ninguém vê porque acontece no dia 2 de fevereiro, mas ela está lá, só tiraram a lavagem. Chegou uma hora em que a lavagem não interessava mais. Talvez os novos moradores não quisessem. Imagine hoje você fazer uma festa que durava 11 dias na Pituba. O Rio Vermelho era a mesma coisa. Durava quatro meses a festa. Começava com o Ciclo de Natal, Desfile de Ternos...as pessoas iam verenear lá. A padroeira do bairro, Nossa Senhora Santana, que tem a festa litúrgica no dia 26 de julho, passou a ser festejada em fevereiro. O Bando Anunciador fazia parte do desfile de carros, fazia parte da elite. Era a padroeira dos pescadores porque a origem da festa dá conta que a Senhora Santana teria aparecido para os pescadores dizendo que os portugueses iriam invadir o Rio Vermelho, no contexto da Guerra da Independência, e então se tornou a padroeira. Mas os pescadores estavam ali no Bando Anunciador como figuras secundárias. Era uma festa da elite. O Bando Anunciador tomou a frente católica. Mas em várias fotos do Rio Vermelho que eu analisei, tem uma imagem apenas da procissão de Nossa Senhora Santana, dos anos 60. O resto é o presente de Yemanjá. Nos anos 30, os jornais fazem uma primeira menção ao presente de Yemanjá, de forma jocosa, inclusive. A imagem é uma caricatura do presente, de uma forma extremamente preconceituosa. A partir dos anos 60, Yemanjá reina absoluta na festa. O Bando Anunciador já está vinculado à Festa de Yemanjá. Até que em 76, a paróquia resolve tirar a Festa de Santana de vez e transferir para julho, então Yemanjá reina absoluta. Uma santa católica perde a proeminência. Salvador tem uma data específica para um orixá do candomblé, desvinculada de um santo católico. Não precisa da fachada, do santo católico. É um triunfo de uma religião extremamente perseguida. 

Em relação a essas mudanças, muitas vezes para quem acompanha a festa já há mais tempo, acabam deixando uma nostalgia, um saudosismo. Algumas intervenções também do poder público nas festas, tanto de ordenamento quanto de inserir novos elementos também causam revolta, com as redes sociais isso se amplifica. Pessoalmente, você considera que alguma dessas festas tenha tido de fato uma perda com essa dinâmica?

Tem algumas questões. Geralmente, quando o poder público entra, é em uma tentativa de regulamentação. E a regulamentação é terrível. A própria palavra já diz: regular é normatizar. Então você quebra a espontaneidade, você tira a criatividade. Por exemplo, o professor Alberto, que é um grande estudioso de festas, não se conforma com a intervenção e a destruição da estética das barracas. Quando você padroniza as barracas - e agora é mais terrível ainda, porque tem as cervejarias -, eles colocam lá aquelas estruturas de metal que não tem nenhum tipo de diálogo com a tradição. As barracas tinha toda uma sociabilidade. Inclusive do ponto de vista estético: já era uma foto clássica dos fotógrafos os banquinhos arrumados para fazer aquele desenho de estrela. Então os próprios barraqueiros já arrumavam figuras geométricas. E tinha a questão da sociabilidade, em que as barracas eram a extensão do bar de Itapuã, de seu fulano, em que todo mundo se encontrava na festa de Santa Luzia. Os barraqueiros tinham o dia da mudança e eles descerem de uma festa para a outra acabava sendo uma festa. Por exemplo: o dia em que os barraqueiros desciam do Bonfim para a Ribeira eles chamavam do 'Dia da Mudança'. Os clientes acompanhavam a mudança da barraca e faziam outra festa. A questão mesmo das carroças não se discutiu do ponto de vista popular. Era uma questão de direitos dos animais, isolada, de maus-tratos, e tira-se a carroça. Então ficou o Judiciário regulando uma questão que era cultural. A coisa descambou de tal forma que iam tirar os Encourados de Pedrão do Dois de Julho. Então normalmente são discussões que quem está envolvido com a festa não participa, quem está envolvido é desconsiderado. Vamos pegar essa discussão como exemplo. Eu não estou dizendo que não havia maus-tratos aqui ou ali, mas porque não houve uma discussão? E os animais que participam de paradas humanitárias? Os cachorros que são treinados para pelotões e ajudam a combater o crime não passam por sistemas estressores não? Alguém já se perguntou isso? As associações já foram lá? Imagina o estresse dos animais que estão na parada de Sete de Setembro, com aquele monte de arma e com aquele barulho? Então esses animais sofrem menos que os animais do Bonfim? Ou é porque o que é do povo é ruim e quando o Estado está presente de alguma forma está tudo bem, porque é o Estado que está fazendo? A gente não tem essa discussão. Então se tira as carroças do Bonfim. Aí de repente você coloca um cortejo na frente do cortejo das baianas, que é um processo de penitência. Então aquela festa é de penitência? O espírito da Lavagem é esse? Então insere no cortejo e ninguém discutiu por que ele foi parar ali, por que tem que sair na frente do cortejo das baianas. Se a Igreja está tentando se inserir, por que não se integra às baianas? As baianas agora não marcham mais de forma unânime. Cada grupo político, cada autoridade leva seu grupo de baiana. Eu vi isso em 2016. Então às vezes você vê um grupo político com 'baianas personalizadas', com um cortejo disforme. Eu não digo que essas coisas são boas ou ruins, tira aqui, tira ali, mas normalmente quando o poder público entra... E eu vi muito isso na documentação dos anos 1970. Houve uma tentativa de romanização das festas por parte da Arquidiocese, que entrou na parte dos discursos principalmente. Era um movimento em que os padres da Conceição, de Itapuã e do Rio Vermelho tiraram as festas religiosas, as missas, as procissões... Itapuã tinha a festa de Nossa Senhora da Conceição, a festa de dezembro era deslocada para fevereiro. Aí o padre tira a missa e a procissão. Então a festa sobreviveu só com o cortejo das baianas. Nos anos 2000, com aquele movimento dos moradores, colocaram mais dois ritos na festa: O Bando Anunciador, que sai 2h, e a Lavagem iniciada por Dona Niçu, em que os próprios moradores lavam as escadarias da igreja, 10h às baianas vem e lavam. O que a gente percebe é: quando o povo faz as intervenções, o Estado tenta regulamentar e, quando ele regulamenta, ele bagunça. É o que está acontecendo com as festas de São João, por exemplo. O governo do Estado e as prefeituras entram, fazem grandes espetáculos nas praças e tiram o São João do interior, de visitar as casas. E assim alguns ritos vão se perdendo. A Conceição da Praia é a festa que perdeu praticamente: o fim do largo, a morte do largo. A festa da Conceição durava dez dias, era o point do verão baiano, para onde as pessoas iam beber depois das novenas, as pessoas enchiam o Comércio, tinha samba... Eu encontrei nos anos 1980 uma referência a um lançamento do disco de Alcione em uma das barracas da Conceição da Praia. Primeiro começa o movimento da Vigilância Sanitária entrando pesado contra as barracas. Proibiu-se a cerveja de garrafa. Quando você tira a garrafa, você impede que as pessoas se reúnam para consumir essa cerveja, você coloca a latinha, que você pode consumir andando. "Ah, é por causa da violência, as pessoas se agrediam". Agora o grande vilão da violência é o churrasquinho de gato, com o espetinho de madeira, quando existem coisas muito mais letais como misturar whisky com energético, que é uma bomba. Mas estão mais preocupados com o espeto, que pode ferir alguém. Aí você coloca tantas normas que Dona Maria não tem condições de cumprir para manter a barraquinha de comida dela, porque não tem condições nem do ponto de vista financeiro, de pagar tantas taxas. Você vai colocando várias restrições e as pessoas se assustam e abandonam, então vai morrendo, as barracas somem. Depois vem a história de não poder a barraca de madeira, e você não vai negociar mais com o Estado, você vai negociar com as cervejarias, que são em outros parâmetros. O cara tenta a coisa informal, vem o Estado e pega pesado com quem está informal. Outra coisa da Conceição: a igreja começou a se queixar do barulho das barracas e aí muda a procissão de horário, traz para a manhã. Isso nos anos 1970. Naquele momento, enquanto a procissão não sair, não pode beber cerveja. Então aquelas pessoas que não ficavam no adro, mas que ficavam nas barracas acompanhando de longe vão fazer o quê lá? Então matou o largo. Então é a festa mais esvaziada da Bahia, a da padroeira. Você chega lá e não tem ninguém. É o público mais idoso - eu não tenho dados estatísticos, mas visualmente é a com maior faixa etária. E agora a festa com mais concentração de jovens é a do Rio Vermelho, que virou um grande festival. Na festa de Yemanjá você tem de tudo, até o sereismo. Então virou um grande festival, bem dinâmica e tomada pelas chamadas festas de camisa. As pessoas passam muito pouco tempo no largo. Elas colocam o presente, ficam circulando e depois vão para um barzinho. Todos os bares e restaurantes do Rio Vermelho fazem festas, até rave teve na última edição. Então é isso: quando o poder público entra para organizar, acaba bagunçando a própria ordem da festa. Muitas vezes é de caso pensado, é interesse. Aqui por exemplo a igreja tinha interesse em Romanizar a festa da padroeira da Bahia, a mais católica.
 

Você citou a noção de cidade festiva. Realmente é um calendário extenso, que toma todo verão. Em parte essa noção foi contruída pela imprensa e por artistas. Pode-se dizer que essa construção corresponde ao que de fato acontece na cidade?
Sim. Se a gente for pensar, a cidade vive de ciclos festivos. O ciclo de verão é o mais poderoso e a cidade vive em função disso. Você constrói um discurso de que você vai entrar no grande tempo da cidade. A grande data da cidade é o Carnaval e você tem todo o preparo que são essas festas. É como se fosse um aquecimento para chegar a essa grande data. E o Carnaval é uma semana única, em tudo. É como se a cidade se desconectasse do tempo real para entrar num tempo festivo por excelência. A gente fala do Carnaval como se fosse um tempo recortado no tempo. O que de verdade é. E Salvador precisa disso. Eu não estudei a economia da festa, que é um campo mais complexo. Mas se a gente for olhar, o que é que essa cidade tem se não for esse capital simbólico? O turismo, que é um segmento econômico chave para a cidade, precisa da festa. Quando Jorge Amado escreve 'Bahia de Todos os Santos', ele dedicou um capítulo inteiro às festas. Salvador não tinha nada mais. Salvador foi fundada para ser uma cidade-entreposto. Ela foi escolhida pela localização. Não é à toa que Tomé de Souza escolheu fazer a cidade oficial na parte mais alta, porque dali você consegue ver o mar. Você resolvia várias questões de segurança. O que Salvador é? O meio do caminho. Vem de Lisboa, para aqui, abastece e continua o caminho para as posses portuguesas na África e na Ásia. Na volta é a mesma coisa. Imagine o que acontece com essa cidade quando a capital passa para o Rio de Janeiro. A importância política se foi. Então são intelectuais construindo essa ideia de lugar único. Os jornais são as arenas onde isso está se degladiando. Até hoje a gente está o tempo inteiro alimentando essa ideia de que somos diferentes e que somos a cidade da festa. E aí, nos anos 70, o poder público resolve criar a Bahiatursa e já vem o discurso do patrimônio arquitetônico. Aí você começa a vender a ideia da natureza, história, magia, arquitetura e festa. É uma cidade única no mundo. É o que Jorge Amado vai dizer. Se você pisar na cidade da Bahia, você vai estar seduzido para todo o sempre.

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