Segunda, 11 de Dezembro de 2017 - 11:00

Manuela D'Ávila

por Luana Ribeiro / Bruno Luiz

Manuela D'Ávila
Manuela D'Ávila, pré-candidata à Presidência | Fotos: Paulo Victor Nadal/ BN

Lançada no dia 18 de novembro como pré-candidata do PCdoB à Presidência da República, a deputada estadual gaúcha Manuela D’Ávila (PCdoB-RS), de 36 anos, demonstra preocupação em relação às eleições do próximo ano. Na avaliação dela, com a gravidade da atual crise política vivida pelo país, o pleito de 2018 corre risco. “Uma das nossas bandeiras é para que existam eleições no ano que vem. Acho que 2018 é algo ainda a ser garantido, para que o povo brasileiro tenha as decisões sobre o futuro em suas mãos”, defende a gaúcha de Porto Alegre, em entrevista ao Bahia Notícias. Declaradamente feminista, a parlamentar também constrói uma plataforma política com a “cara das mulheres” e pretende dar atenção especial a elas, que, segundo a pré-candidata, mais sofrem os efeitos da crise econômica. “Nosso projeto é um projeto para as mulheres porque eles enfrentam a crise e vivem ela de forma mais perversa”, ressalta. A comunista ainda defende a candidatura do ex-presidente Lula no próximo ano, mesmo com a possibilidade de acabar dividindo votos com ele, que se apresenta em espectro político próximo ao dela e consolida a liderança nas pesquisas de intenção de voto para 2018. “O que eu defendo para ele, eu defendo para todos os brasileiros e brasileiras: que ele seja julgado com base em provas. E, como não há provas, defendo que ele concorra. Mais ainda, acho que ele não concorrer é um elemento de agravamento da crise política brasileira”, afirma.

 

Sua candidatura, em um cenário de polarização política como atualmente, sendo o PCdoB um partido declaradamente de esquerda, como se encaixa sua participação na disputa e pode influenciar nas suas próprias chances de ter sucesso?
Nosso esforço é para que a polarização seja de programas para o Brasil. Hoje, a polarização que existe é entre quem mais consegue fomentar ódio e medo no povo brasileiro. Precisamos fazer com que o debate não seja pautado apenas pelo ódio que algumas candidaturas constroem, mas pelo projeto para o país. Então, eu acredito que, a partir do debate de projeto, é possível, sim, unir a maior parte do povo brasileiro. Porque a maior parte do nosso país são as mulheres e os homens que trabalham. Então, quando a gente apresenta um programa para responder aos problemas da maior parte das pessoas, que são as pessoas comuns, que vão para o seu trabalho e veem o desemprego crescente, incerteza com relação à aposentadoria pela reforma da previdência, instabilidade em relação ao mundo do trabalho por causa da reforma trabalhista, então essas pessoas querem debater saídas para o Brasil. Então, acho que o debate sobre essas saídas pode fazer nossa candidatura vitoriosa. Basta ver que, com 15 dias de candidaturas, sem praticamente nada, nós pontuamos na pesquisa mais que Henrique Meirelles, que assina todas as notas de dinheiro do Brasil. É fácil, né? Tem panfleto para tudo quanto é canto.

 

Quais são, em linhas gerais, as propostas norteadoras desse projeto que você está construindo para o país?
Então, o que justifica a existência de uma candidatura do PCdoB é a ideia de que o Brasil precisa discutir um projeto nacional de desenvolvimento. Um projeto que consiga retomar o desenvolvimento da economia e garantir que esse crescimento seja para garantir direitos sociais e individuais às pessoas. Não nos serve retomar o crescimento da economia se nós não garantirmos que as mulheres trabalhadores, por exemplo, terão trabalho digno. Não nos serve se não conseguirmos, nessa retomada do crescimento, reduzir as diferenças salariais entre homens e mulheres e mulheres negras e brancas.

 

Você é mulher, e as candidaturas femininas sempre foram muito destacadas por serem poucas. Isso é sempre muito ressaltado. Sua candidatura terá uma bandeira feminista ou de políticas bastante voltadas para mulheres?
Sim, até porque eu sou uma feminista. Na campanha, não é quando os candidatos se escondem, é quando eles se apresentam. Nós temos que combater essa política de transformar candidatos em produtos que podem ser vendidos. Eu venho de um partido com uma tradição de participação das mulheres. A Bahia conhece isso, tivemos aqui Alice [Portugal] candidata a prefeita de Salvador, que é deputada federal por muitos mandatos, quiçá senadora na próxima eleição. Isso não é debate para gente do campo das ideias, é a vida real. Eu sou de um partido que é presidido por uma mulher negra. Nós não ficamos fazendo discurso, retórica sobre isso. Mostramos na prática que lugar de mulher é em qualquer lugar, inclusive na política. Eu entendo sua pergunta, mas acho que é sempre importante ressaltar que todas as questões da minha campanha são questões de mulher, porque os temas das mulheres não são apenas vinculados à violência doméstica ou saúde sexual e reprodutiva. Tentam fazer com que a parte destinada às mulheres na campanha seja essa. Mas não. O tema das mulheres é a reforma trabalhista, porque 50% das mulheres brasileiras não voltam ao mercado de trabalho depois da maternidade. Com a CLT, com a estabilidade. Imagine sem a CLT. Como será sem a estabilidade? Como será a Previdência dessas mulheres se elas não conseguem voltar ao mercado nos primeiros dez anos dos filhos, com a reforma e os 40 anos de contribuição? Então, nosso projeto é um projeto para as mulheres. São elas que sofrem os principais impactos da crise. É bonito ver a turma do Temer debatendo a PEC dos gastos públicos. Quero ver eles explicarem para a mulher que não encontra vaga na creche que o dinheiro do Fundeb vai diminuir. Quero ver eles explicarem para a mulher que enterra o filho, pois não tem política de segurança pública, as nossas mulheres pobres e negras que enterram os filhos no Brasil inteiro, como é que vamos diminuir gasto público se nós sequer ainda investimos em segurança pública. Como é essa matemática. Não temos quase um real de investimento público federal em segurança pública e vamos congelar isso por 20 anos? Como explicar isso para quem vive com medo? Para quem desce do ônibus todo dia calculando a rota para não ser estuprada? Elas vivem isso em um país violento. Então, sim, o nosso projeto é com cara das mulheres porque eles enfrentam a crise e vivem ela de forma mais perversa. 

 

No anúncio da sua candidatura, foi questionado se a candidatura do ex-presidente Lula de alguma forma se colocaria oposta à sua. Isto foi negado. No entanto, historicamente, o PT sempre teve uma relação de protagonismo político em relação ao PCdoB. Aqui na Bahia, a gente tem as disputas locais, de uma certa forma. A candidatura do ex-presidente corre riscos. Caso ela não se efetive, você espera um apoio direto do PT à sua candidatura?
Eu não trabalho com um cenário em que o ex-presidente Lula não concorra. Eu acredito que todo mundo que defende a democracia no Brasil deve compreender que ele tem o direito de concorrer. Agora está muito na moda, e é uma frase correta, dizer que não tem ninguém acima da lei. Mas também não deve ter ninguém abaixo dela. O Brasil tem várias pessoas abaixo dela. Pessoas paradas pela polícia pela cor da pele, por exemplo. Pessoas que estão à margem da lei. E o que eu defendo para ele, eu defendo para todos os brasileiros e brasileiras: que ele seja julgado com base em provas. E, como não há provas, eu defendo que ele concorra. Mais ainda, acho que ele não concorrer é um elemento de agravamento da crise política brasileira. E a eleição de 2018 deve ser um espaço de solução da crise política brasileira para que a gente não perca mais tempo para retomar a economia brasileira. Se Lula não estiver na cédula, certamente ficará mais difícil de construir esses debates. 


 
 

Em relação à própria esquerda brasileira, você avalia que ela está fragmentada? Esta quantidade de candidaturas dentro do campo não pode acabar pulverizando os votos?
Para ganhar, a gente precisa escalar o time inteiro. Na Copa de 1994, o time brasileiro tinha dois craques, que eram o Romário e o Bebeto. Mas, lá em um jogo decisivo, que foi entre Brasil e Holanda, teve um gaúcho que marcou um gol de falta, o Branco. Foi o gol que garantiu que nós seguíssemos adiante. Nós temos vários jogadores em campo, mas não acho que a presença deles deponha contra a ideia de termos uma agenda mínima, que, na minha opinião, não deve ser tão mínima assim, mas uma agenda comum entre partidos. No processo eleitoral, vamos poder mostrar as diferenças que temos. Eu, particularmente, tenho bastante vontade de conversar com as mulheres e com os jovens brasileiros sobre o que pode representar a candidatura de alguém que defende a volta da ditadura e acha que nós devemos ser estupradas, que é o caso do Bolsonaro. Outros debaterão suas particularidades, mas termos uma agenda comum. Então eu estou feliz de poder ser o jogador Branco, que não era o craque que carregou a taça, mas o inesperado que garantiu o título. 

 

Apesar da reforma politica, o regime de presidencialismo de coalizão que nós vivemos não mudou de todo. Caso eleita, como a senhora pretende lidar com os outros partidos, o fisiologismo, a troca de cargos?
São dois debates. O primeiro é relacionado à ideia de que, para se governar, é preciso ter um projeto que uma grande parte do Brasil em torno dessas bandeiras. Eu acho que isso pode fazer o Congresso se movimentar. O Congresso aprovou avanços importantes para a população como o Reuni porque havia um pacto pela ampliação do acesso ao Ensino Superior. Mas existe também o debate em torno da reforma política. O Brasil também precisa debater um modelo mais representativo de política. Um sistema que só tem 9% de mulheres, em que os negros são praticamente invisíveis, em que o poder econômico ainda tem tanta força é um sistema que precisa ser repensado para garantirmos o aprofundamento da democracia.

 

De alguma forma, você acredita que as eleições do próximo ano correm risco? Até a própria ex-presidente Dilma Rousseff afirmou que é preciso ficar atento porque, caso haja um agravamento da crise, podem surgir soluções mais drásticas.
As pessoas têm falado muito pouco sobre isso e o falar pouco faz com que essa hipótese continue viva. Precisamos falar que sim, uma das nossas bandeiras é para que existam eleições no ano que vem. Nós já tivemos uma interrupção democrática com o impeachment da presidente Dilma. Nós subvalorizamos o impacto que é retirar uma mulher, uma presidente do poder, sem provas. E, agora, a partir daquela movimentação no Supremo, com hipótese de criação do parlamentarismo, se golpeia a vontade popular. O povo brasileiro já opinou duas vezes sobre o sistema político e, nelas, foi contra o parlamentarismo. É preciso fazer com que as instituições compreendam fortemente que, quem decide o futuro do país é o povo. O povo brasileiro participa do processo eleitoral a partir das eleições. Então, acho que 2018 é algo ainda a ser garantido, para que o povo brasileiro tenha as decisões sobre o futuro em suas mãos.

 

Em 2012, a candidatura de Alice Portugal estava muito forte aqui em Salvador, mas o PCdoB recuou para apoiar Nelson Pelegrino. Em 2016, foi diferente. Em 2018, o PCdoB apresenta uma candidatura competitiva à Presidência da República. Existe possibilidade de o PCdoB recuar, como já ocorreu no passado?
Sabe que a gente vai ficando mais velho na vida e aprendendo que a gente nunca pode dizer que todas as hipóteses não existem, né? Enquanto a gente está vivo, o rumo das coisas pode mudar. Mas, hoje, essa não é uma hipóteses colocada. Eu empatava em primeiro lugar nas pesquisas para governador do Rio Grande do Sul. Então, nós não deslocamos as pessoas de missões importantes para que não seja pra valer. 

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