Segunda, 18 de Julho de 2016 - 08:00

Maurício Barbosa

por Rebeca Menezes / Bruno Luiz | Fotos: Betto Jr. / Ag. Haack / Bahia Notícias

Maurício Barbosa
Foto: Betto Jr. / Ag. Haack / Bahia Notícias
Tecnologia como ferramenta para a melhoria dos serviços de segurança pública no estado é o que promete o secretário Maurício Barbosa com a inauguração do Centro de Controle Operacional da Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA). Considerada inovadora, a obra, orçada em R$ 260 milhões, deve integrar serviços como o Disque Denúncia e o monitoramento por câmeras de segurança, tanto em Salvador quanto no interior baiano. “Esse nosso principal elemento de integração vai funcionar atraindo outras ferramentas tecnológicas. Entre elas, junção do 190, com integração do sistema de monitoramento por câmeras. O projeto tem a intenção de colocar mil câmeras pelas ruas de Salvador e também fazer com que essas câmeras sejam integradas ao sistema do 190. Elas podem dar um atendimento melhor às pessoas que precisam. Sabemos que não é possível colocar um policial em cada esquina. Ou a gente usa a tecnologia, ou a gente fica para trás”, afirmou o secretário ao falar sobre como o Centro pode otimizar o trabalho realizado pela SSP. Há quase seis anos à frente da pasta, Barbosa também faz, nesta entrevista ao Bahia Notícias, um balanço de sua gestão. O titular da SSP fala, ainda, sobre as principais dificuldades para combater as facções criminosas na Bahia e enumera as iniciativas adotadas pela secretaria para reduzir a criminalidade no estado.
 

Como vocês acreditam que a inauguração do Centro de Controle Operacional vai melhorar a atuação da Secretaria de Segurança Pública (SSP)?
Na verdade, o projeto não se resume somente a inauguração do Centro. Nós fizemos um projeto onde a nossa intenção era fornecer uma melhor estrutura e integração entre as forças policiais. Então o projeto, que tá com investimento em torno de R$ 260 milhões, foi para reformular toda a parte de telecomunicação da secretaria, criando no interior 22 centros de comunicação. Esses centros funcionam como 190 do interior. Exemplo, o centro de Feira de Santana atende a cidade e todos os municípios circunvizinhos. Então, espalhamos 22 centros. Já inauguramos 11 e esperamos inaugurar os outros 11 até o final do ano, integrando estes 22 a este centro maior. Esse nosso principal elemento de integração vai funcionar atraindo outras ferramentas tecnológicas. Entre elas, junção do 190, com integração do sistema de monitoramento por câmeras. O projeto tem a intenção de colocar mil câmeras pelas ruas de Salvador e também fazer com que essas câmeras sejam integradas ao sistema do 190. Elas podem dar um atendimento melhor às pessoas que precisam. Sabemos que não é possível colocar um policial em cada esquina. Ou a gente usa a tecnologia, ou a gente fica para trás. Estamos também abrindo espaço para que o sistema prisional faça o monitoramento de presos que utilizam tornozeleira eletrônica. Criei todo um andar para as inteligências, reunindo as inteligência da SSP, da Polícia Civil, da Polícia Militar, com ferramentas de interceptação telefônica, sistema de monitoramento de redes sociais, disque-denúncia. Tudo para facilitar o fluxo de informações e para fazer que isso seja trabalhado melhor pelas instituições que vão estar aqui presentes. Nós já temos as nossas forças, polícias Civil, Federal, Militar e Técnica. Temos aqui também a Guarda Municipal de Salvador e a Transalvador. A iniciativa também é trazer as Forças Armadas, órgãos federais, porque o centro não foi feito somente para segurança, mas para defesa civil também. O principal, depois de inaugurar o centro, é estabelecer a possibilidade de parcerias público-privadas. Estamos fechando parceria com a CCR, puxando as imagens das estações de metrô, com as concessionárias que administram rodovias e pretendemos editar as mesmas parcerias com os shoppings e bancos, dando também a possibilidade para que aquelas associações de moradores de bairros possam jogar aqui as imagens de suas câmeras de segurança. Então, o céu é o limite. 

Qual a expectativa para tornar isso real, para agregar todas essas câmeras ao sistema?
Primeiro, o pontapé inicial é inaugurar. O grande desafio daqui pra frente é fazer uma mudança de paradigmas na atuação das forças. O que costumo dizer é que não é mais difícil colocar a tecnologia, mas trabalhar com essa tecnologia. Por isso, fiz questão de que o gabinete do secretário viesse para o Centro, principalmente nesses momentos iniciais, para que todos sentissem que agora é para valer. Vamos ter elementos que fazem o controle de GPS nas viaturas, elementos com câmeras embarcadas nas viaturas. Vamos ter um helicóptero capaz de trazer essas imagens aéreas. Ou a gente aprende a fazer uma melhor gestão de nossas forças e a tratar as ocorrências com os meios necessários, através da tecnologia, ou vamos ficar para trás. O Centro começa hoje com parte de inteligência, de tecnologia, telecomunicações e sistema prisional. Já recebi proposta da Secretaria de Educação vir para cá, onde eles vão monitorar as escolas. Já recebi proposta também da Secretaria de Saúde para trazer seus sistemas de vigilância e monitoramento aqui, além de trazer para cá o monitoramento do sistema prisional. Ou seja, é um centro que começa com perspectivas de crescimento para os próximos 10 anos.

O senhor falou na questão das câmeras nas viaturas. Isto era até uma reclamação, pois havia casos de GPS desligados. Daqui vocês conseguirão localizar realmente onde estão as viaturas?
O mais difícil é fazer as pessoas encararem a tecnologia como aliada, e não como elemento de controle para prejudicar os servidores policiais. A câmera embarcada na viatura é um elemento de prova para o policial. Se a abordagem é bem filmada, ele tem condições de usar aquilo a favor dele caso haja alguma arguição por excesso, abuso de autoridade, mas determinadas pessoas acabam usando esses equipamentos como forma de burlar o controle. Mas a culpa não é só dessa pessoa que faz isso e provoca o dano. A culpa é de quem não olha e não gere o sistema. Se você tem um delegado que todos os dias passe o olho e veja se a câmera e o sistema de GPS da viatura estão funcionando, se ele abre o seu monitor para ver onde está a viatura, esse é o primeiro passo. Como eu, como secretário, tenho condições de gerir 44 mil pessoas? Essa é a inversão que queremos fazer. É dizer: “olhe, aproveite esta tecnologia que estamos dando a você para que eu possa também ter condições de controlar de qual forma o efetivo está sendo usado”.
 
 

Estamos às vésperas das Olímpiadas. Este vai ser o primeiro teste para o Centro de Controle?
Sim. Na verdade, a gente opera com um minicentro lá no Parque Tecnológico desde 2013. Então, já temos a experiência de trabalhar com este tipo de sistema há três anos. Hoje, o que é que difere? Nós vamos trazer esse espaço de grandes eventos como uma parte anexa ao Centro. Ou seja, dentro desse grande salão, eu vou tratar de trabalhar coisas cotidianas. Eventos especiais vão para o Centro de Comando e Controle. O que a gente busca, seja qual for a utilidade do Centro, que as operações sejam feitas de forma integrada e que facilite a tomada de decisões. Nossa promessa aqui é de melhorar a prestação de serviços, a qualidade de nosso atendimento e a consequência, mais cedo ou mais tarde, é a redução da criminalidade.

O senhor está há quase seis anos à frente da SSP e ainda tem pelo menos mais dois anos de gestão. Este Centro foi sua grande conquista? Se não, o que espera ainda alcançar?
São os chamados legados intangíveis. Aquilo que as pessoas não têm condições de enxergar, mas que significam uma mudança de paradigma na atuação da atividade policial. Acredito que o maior legado que posso ter deixado é o da melhoria da gestão na atividade de segurança. Criamos o “Pacto pela Vida” em 2011, onde procuramos fazer uma política de segurança pública transversal e integrada com Judiciário, Ministério Público, Defensoria, outras secretarias, e não somente pensar a segurança pública como a polícia, pois sabemos da importância desses outros órgãos para que você possa melhorar o seu trabalho. Reunimos esses atores e, através de reuniões e avaliações de resultados, pois essas reuniões não existiam, criamos mecanismos de coleta de informações e cobrança de resultados. Em cima dessa avaliação das estatísticas, começamos a avaliar o que estava acontecendo de pior. Passamos a ter atuações mais pontuais em cima de determinado problema. Este, para mim, foi o meu maior legado: a gente conseguir levar esses importantes mecanismos de avaliação, de controle, de metas para a segurança pública. Temos as bases comunitárias de segurança e hoje ela se tornou a concretização do Pacto pela Vida. Através delas, que as ações de outras secretarias são levadas para as comunidades mais carentes de Salvador. Em cima delas, conseguimos desenvolver ações para tirar os jovens da criminalidade. Para mim, isso é um grande legado. E agora, depois do meu quinto ano, temos um grande equipamento, que é o Centro, que vai de encontro a tudo que fizemos esses anos todos. É um trabalho que vem rendendo frutos, independente da sensação de insegurança da população – acredito que isso é no Brasil como um todo  – nós já fomos conceituados como os melhores do Brasil, em termos de segurança, na Copa do Mundo e na Copa das Confederações.

O senhor mesmo citou que existem alguns bairros são liderados por facções.  O crime organizado está mais organizado? Como a SSP tem lidado com essa situação?
Não podemos conceituar as facções de tráfico de drogas como organizações criminosas. Pelo aspecto legal, não há distribuição organizacional de trabalho, é apenas uma junção de criminosos que se propõem a vender drogas, diferentemente de São Paulo e Rio de Janeiro. É isto que nos diferencia destes estados, pois lá temos grandes facções, com estrutura verticalizada muito forte, o que facilita, inclusive, o enfrentamento. Uma coisa é eu saber que o traficante A é o chefe de uma organização que tem o monopólio do trafico, como acontece em São Paulo. Eu vou combater quem? A facção e as lideranças. O que temos em Salvador, e na Bahia em geral, é um grande crime desorganizado. Temos facções que se digladiam 24 horas por dia, onde você prende determinadas lideranças que se apresentam como chefe daquela quadrilha. No dia seguinte, já há brigas internas para assunção do lugar deste traficante. Quando você desmantela a quadrilha, surge logo outra com outra denominação. Qual é a solução para isso? Primeiro, enfrentamento, mas tem que ter os outros atores. O que leva as outras pessoas a consumir e traficar drogas? Hoje, eu tenho pais que obrigam crianças de 11, 12 anos a irem para o tráfico para trazer dinheiro pra casa. Esse é o reflexo do Brasil, não é só de Salvador. Temos que ter uma política educacional forte que dê ao jovem a possibilidade de ter futuro. Temos que nos preparar para enfrentar toda essa criminalidade da forma como ela se apresenta na Bahia: desorganizada. Mas temos que ter organização para saber da melhor forma como atuar.
 

 
A crise econômica ainda perdura, mas sempre se fala na necessidade de contratação de novos policiais. Existe um plano, mesmo num contexto de crise, para melhorar a situação?
Mesmo com este cenário de crise, tivemos este ano a formatura e o ingresso de 1,7 mil policiais militares. Depois de quase 16 anos, estamos fazendo concurso e estamos próximos da nomeação de 639 policiais civis. Ah, é o necessário? Não, nós precisaríamos aumentar nosso efetivo, como é a reclamação em todo o Brasil. Mas temos que colocar as mãos na cabeça que temos as nossas limitações orçamentárias. O governador sempre relembra que a Bahia tem o menor PIB per capita do país. Como podemos melhorar ou minimizar isso? Com a tecnologia. A longo prazo, os estados vão continuar enfrentando dificuldades, como os municípios estão enfrentando.

Houve redução no número de roubos a bancos no interior, do roubo de veículos e no transporte coletivo de Salvador. O que permitiu essa redução?   
Por coincidência, recentemente houve um confronto de assaltantes de banco com policiais na BR-324. O que eu poderia dizer como elemento de modificação do que tínhamos relacionados a roubos a banco foi uma parceria maior das instituições bancárias com a SSP, medidas preventivas de redução de valor em caixas eletrônicos, da quantidade de cédulas nos cofres das agências, limitação do horário de funcionamento, além do enfrentamento maciço. Tivemos um desmantelamento de 100 quadrilhas nos últimos dois anos. Estamos apresentando este ano uma redução de 70% no número de ocorrências contra instituições financeiras. São dados excelentes. Já na questão de roubos de veículos e a ônibus, foi uma questão metodológica, com aumento das blitz. Mas é um desafio eterno. Tem anos em que conseguimos a redução, em outros já não conseguimos, mas a meta é sempre a redução. Mas eu tenho que trabalhar melhor e aumentar a produtividade da polícia. 
 
Neste âmbito da tecnologia, muitas prefeituras e estados têm criado aplicativos para facilitar a comunicação, contribuindo até para amenizar o problema da subnotificação. Existe a possibilidade de criação de um aplicativo para que a população possa denunciar, principalmente em casos de menor gravidade?
Existe. Criamos há quatro anos a Delegacia Digital. Muitas pessoas que não queriam ir para a delegacia passaram a fazer, pela internet, o registro de ocorrência. Agora, nosso desafio é encontrar um aplicativo que, em primeiro lugar, seja útil para população, seguro e que consiga fazer o atendimento dessas demandas. Já procuramos três aplicativos e o que a gente sente é isso: a partir do momento que criarmos esse aplicativo, temos que ter certeza que conseguiremos dar conta. Não adianta criar o aplicativo para ele cair em desuso. Tem que ser uma coisa muito bem estudada, para que as pessoas passem com segurança suas informações. E já estamos desenvolvendo, em âmbito final, um aplicativo do Disque-Denúncia através da internet. Com essa ferramenta, as denúncias serão facilitadas.

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