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Sábado, 06 de Março de 2021 - 05:06

A lua de Celinha

por Eleonora Ramos

A lua de Celinha
Foto: acervo pessoal

Aracaju, segunda metade dos anos 40. Celinha, 13 frescos anos, era a mais velha dos quatro filhos de Durvalina, viúva aos 24 anos, mulher batalhadora e rígida, que dispensou pretendentes e criou seus dois meninos e suas duas meninas sozinha, na máquina de costura dia e noite, varizes e amargura precoces, noites sem sexo, dias divididos entre o terço e a vassoura que lhe ajudava a manter a pequena casa sempre impecável.

Celinha foi recolher a roupa seca da corda do quintal, como toda noite, e mergulhou no prateado da imensa lua cheia. Estava tão linda que sentiu vontade de chorar. Ficou ali, olhando pro céu, esquecida da roupa até que ouviu a mãe irritada chamando seu nome e entrou.  Isso é hora de ficar olhando a lua, menina, cadê a roupa?

Moreira era cearense, mas foi parar em Aracaju vendendo seus produtos, representante comercial como tantos outros naquele tempo pré-tudo. Viu Celinha um dia de manhã, de uniforme do colégio estadual, sapatinho surrado, andando rápida e rindo sozinha. De que riria a menina? Moreira jamais esqueceu aquela visão matinal. Voltou no dia seguinte e não esperou muito para vê-la, radiante, andando apressada, quase encostando nos muros das casas, para aproveitar a pouca sombra do quase meio-dia.

Viu quando entrou na casa pequena, uma porta, duas janelas e ouviu a voz de uma mulher que mandava um menino tomar banho.

Passou por lá mais algumas vezes, até durante a noite, quando as luzes apagadas e o silêncio o faziam imaginar a menina dormindo como um anjo, enrolada em lençóis brancos.

Venceu todos os medos, bateu palmas, entrou, apresentou-se e voltou por muitos dias, alguns meses, namorado oficial de Celinha, apesar de seus 12 anos a mais e sua condição de forasteiro, sem família. Alguns conhecidos censuraram Durvalina, por ter concordado com aquele namoro, onde já se viu.

Mas o Moreira conquistou Durvalina e a todos com seus modos educados e suas roupas bem passadas, tão difícil num homem solteiro.

Pediu a mão de Celinha, largou a vida itinerante, montou um pequeno escritório de representações, comprou as alianças, alugou uma casa de dois quartos e prometeu pagar todas as despesas do enxoval e do casamento. Durvalina só exigiu que fosse no final do ano, depois das provas do colégio. Queria que Celinha terminasse pelo menos o 4º ginasial.

Celinha, espevitada, gostava dos beijos do Moreira, das mãos dele sobre seu joelho, alisando suas costas, apertando seus braços. Mal conseguiu terminar os últimos meses no colégio, envolvida com toalhas e lençóis e com o pijama de seda lilás da primeira noite, que não cansava de alisar, vestir, dobrar.

Quase não tinha ideia do que aconteceria nessa noite, mas tirar aquele pijama, à meia-luz, certamente faria parte do roteiro. Foi tudo quase como o planejado. O padre meio apressado, o vestido simples e as flores brancas no cabelo de Celinha, risonha e trêmula, o único bolo sobre a mesa da sala, refresco e licor de jenipapo, presente do padrinho, um velho tio que veio de São Cristovão num carro de praça. Só não foi possível chamar o fotógrafo, e Celinha ficou sem a foto com que tanto sonhara nas últimas semanas.

À noitinha, enfim, estariam a sós, na casa alugada por Moreira, do outro lado da cidade, no Sto. Antonio e mobiliada do jeito que deu. Lá Celinha viveria pelos próximos cinco anos e teria os dois primeiros filhos. 

Entraram de mãos dadas, a luz da lua cheia entre as frestas das telhas. Ela ansiosa pra tirar aquele vestido incômodo, salpicado de chocolate do recheio único do bolo único, que caiu do garfo, tão nervosa e faminta estava ao comer o primeiro pedaço na frente dos convidados, o tio de São Cristóvão, duas vizinhas, uma prima que também veio de longe e uma colega do colégio, a melhor amiga, e a mãe dela.

Fechou a porta do quarto, abriu a armário e lá estava ele, impecável, o seu pijama lilás. Conseguiu se livrar do zíper e finalmente, o vestido desabou no chão. Tinha visto um filme que quem fazia isso era o noivo. Será que deveria ter esperado o Moreira?  Vestiu rapidamente o pijama, ouvindo o barulho do noivo, ou marido, fazendo a mesma coisa dentro do banheiro, trocando os sapatões lustrosos por chinelos e vestindo, ele também, um pijama impecável.

Na pequena mesa da sala, uma jarra de vidro com água e dois copos. E a lua, implacável, prateando tudo. Deu um passo pra fora, deslumbrada, como sempre, com a lua cheia, e com a mesma vontade de chorar.

Dessa vez a mãe não gritou, mas Moreira chegou por trás, abraçou-a e puxou para dentro, e  ainda na porta do fundo, começou a beijar-lhe o pescoço, meio ofegante, de um jeito que nunca tinha feito antes. Claro, aquela era a noite, a tal noite. O coração de Celinha batia acelerado, ia acontecer, tudo ia acontecer, por baixo do pijama lilás. Moreira não conseguiu desabotoar sequer o primeiro dos quatro botões. Eles saltaram fora, quase juntos, como se tivessem sido pregados ali pra isso mesmo. Não seriam as mãos enormes de Moreira que iriam passá-los, um por um, por dentro de suas casas apertadinhas.  Como a própria casa do casal. Num instante era o quintal, dois passos e já estava sentada na cama, Moreira encostando a porta do pequeno quarto.

Sonhara com um quarto claro de esvoaçantes cortinas, besteira de menina. O seu era aquele quarto sem janela, muito menos cortinas, uma porta que rangia e um armário envernizado demais para seus quase dezessete anos.

Nunca mais colégio, provas, nunca mais passar a ferro a blusa do uniforme, nunca mais não poder comprar amendoim torrado na porta da escola.  Aprendeu a cozinhar, a fazer sexo com Moreira, a suportar seus longos silêncios e a tirar a poeira daqueles seus livros de caixa, empilhados em cima da mesa.

Moreira era o primeiro homem que viu deitado numa cama, pois, do pai, nem se lembrava. Era muito comprido e parecia ainda mais comprido com aquele pijama, que mais tarde se revelaria o único, de listas verticais. Por ser único precisava ser lavado dia sim, dia não. Celinha lavava. Junto com lençóis semanais, camisas diárias, panos de prato e mais tarde, fraldas, muitas, dezenas, como se se multiplicassem por conta própria naquele tanque cinzento que enfrentava todas as manhãs.

 

Não tinha 20 anos e já engravidara duas vezes, há dois anos suas mamas vazam leite, e os dois meninos  crescem, comem, mijam, e gritam o dia todo à sua volta.

Ainda teria mais dois, um casal. O último nasceu na chamada casa nova que Moreira conseguiu construir, com duas varandas e um quintal com uma goiabeira. E até que se acostumou com as mãos do Moreira, sua respiração ofegante, o cheiro do alho amassado antes, o bolo assando depois, aprendeu a fazer bolo e até pudim, Moreira adorava pudim.

Não que a vida fosse ruim. Mas era bem diferente da que imaginava, quando menina. Imaginava

um bebê bonito no colo,  marido, beijos na boca, uma aliança, flores, talvez. Era bem diferente. Tinha muito o que fazer. Ficar atenta, lembrar de tudo, mal tinha tempo de pentear o cabelo. A lua cheia já não lhe dava vontade de chorar, na verdade, nem se lembrava de ir lá fora olhar o céu. Quando se dava conta ela já tinha sumido.

Um dia, sua menina faria 15 anos, festa, valsa e um dia casaria na igreja, o menino também casaria, teria um bom emprego, no banco, quem sabe. Moreira teria problemas na coluna e tonteiras inexplicáveis, haveria festinhas de aniversário e missas do galo.

E Celinha, D.Celinha, murcharia como uma flor. Sorridente, como sempre, esquecida que a vida passou.

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