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Sábado, 27 de Fevereiro de 2021 - 05:09

Uma vida inteira

por Gilson Souza

Uma vida inteira
Capa do livro: Criação Editora

Um dos maiores jornalistas com atuação marcante nos estados da Bahia e Sergipe teve a sua trajetória profissional e pessoal contada no livro “Cleomar Brandi, uma vida inteira”, uma biografia bastante reveladora escrita pelo jornalista sergipano Gilson Sousa. Nascido em Ipiaú, região cacaueira no sul da Bahia, Cleomar Brandi viveu sua adolescência em Salvador, entre brincadeiras na Ladeira dos Aflitos e mergulhos profundos na praia do Unhão. O livro de Gilson Sousa foi lançado na semana passada semana e por conta da pandemia do coronavírus não houve solenidade para evitar aglomeração. A comercialização é feita diretamente com o autor.

 

Na Bahia, Cleomar estudou Pedagogia na UFBA e depois ingressou no IRDEB através de concurso público. Foi um dos principais produtores de programas culturais e musicais da Rádio Educadora e ajudou na implantação da TV Educativa. Escreveu muitos textos para jornais impressos baianos e curtiu a vida nas lagoas e praias de Arembepe nos anos 1980. Por causa de seu destaque como profissional de comunicação na Bahia, foi convidado pelo Governo de Sergipe em 1985 para participar da implantação da TV Aperipê, em Aracaju.

 

Na capital sergipana, Cleomar Brandi trabalhou ainda em vários outros veículos de comunicação, entre jornais impresso, emissoras de rádio e televisão. Sua trajetória foi marcada pela boemia e pela extensa produção literária, incluindo centenas de crônicas de cotidiano e poemas. Publicou dois livros, mas deixou um vasto material inédito que poderá ser transformado em livro em outra oportunidade. A biografia “Cleomar Brandi, uma vida inteira” narra com precisão todo o percurso do jornalista, incluindo muitas histórias familiares também narradas pelo jornalista baiano Chico Ribeiro Neto, irmão de Cleomar.  

 

Segue um trecho do livro:

A rotina de correrias, mergulhos no mar, natação nas piscinas do Vitória, futebol de rua e outras brincadeiras de adolescente terminou para Cleomar de forma surpreendente. Aos 16 anos de idade, sem histórico algum de problema de saúde física, caiu doente. Perdeu o movimento das pernas e deixou a família e os amigos extremamente preocupados com sua condição. O diagnóstico preliminar foi um acometimento tardio de mielite transversa, uma espécie de paralisia infantil retardada. Transformou a casa num ambiente de aflitos.

 

A literatura médica diz que mielite é um problema que pode começar com dor súbita nas costas, seguida por alguma dormência e fraqueza muscular que iniciam nos pés e estendem-se para cima, evoluindo para paralisia, perda do controle intestinal e da bexiga. Uma infecção na medula que causa um traumatismo, restando somente a fibrose. O problema pode ser causado por vírus ou bactéria, como a esquistossomose. O fato é que todos esses acometimentos e sintomas fizeram parte da rotina de Cleomar desde então. E, para o desespero de todos na família, os homens de jaleco branco davam apenas mais dois anos de vida ao adolescente.

 

O irmão mais velho, Luiz Fernando, estava em casa quando Cleomar surgiu corredor adentro tropeçando, reclamando das pernas e com muitas dores nas costas. “Mamãe ajeitou a cama e mandou ele se deitar. Ele deitou e nunca mais levantou”, disse Luiz.

 

Após muitas idas e vindas aos consultórios médicos, sem que nada fosse resolvido, passou praticamente dois anos internado num hospital público no bairro do Canela, em Salvador. O nome oficial é Complexo Hospitalar Universitário Professor Edgard Santos, da Universidade Federal da Bahia (HUPES-UFBA), mais conhecido como Hospital das Clínicas. A partir daí, nasce uma rotina de dor e sofrimento que precisava ser superada a cada dia, cada hora, para que a vida seguisse em frente. E isso durou muito mais que os dois anos previstos pelos médicos.

 

“Fui atingido por um voraz vírus que quase consome a minha existência. Daí em diante minha adolescência foi dura: dois anos internado num hospital e mais seis em cima de uma cama, às vezes quase morrendo, família reunida esperando o desfecho, febres diárias, eu ‘apagava’ durante dias e sempre voltava, com um laivo de determinação nos olhos. É que meus olhos sempre foram temperados na forja da Fé e acho que acreditava que a vida era muito bela para morrer adolescente”, revelou Cleomar, em entrevista ao jornalista Osmário Santos em 2003.

 

Nesse período em que viveu praticamente na cama, em Salvador, Cleomar buscava ânimo nas coisas mais simples. A arte o salvou em muitos momentos. Mas os cuidados de dona Cleonice, as constantes visitas de tias e primas, e o apoio incondicional dos irmãos o ajudaram a superar barreiras durante anos. “Ele ficou muito tempo trancado em casa. Lembro que quando ele morava em Brotas, eu ia visitá-lo e sempre o levava para dar uma volta de carro. Ele gostava de ver a rua, e essa era a única maneira pra fazer ele sair de casa”, relata Luiz Fernando.

 

Agindo assim, quase sempre as constantes lições de superação dadas por Cleomar ao longo da vida normalmente eram absorvidas pelas pessoas. Não que ele quisesse ensinar algo a alguém, pelo menos voluntariamente não. É que seus atos e atitudes transpareciam uma força incomum para quem vivia praticamente preso a uma cadeira de rodas. E muita gente compreendia isso, pois Cleomar jamais admitiu ser chamado de deficiente físico. Não gostava, não concordava e muito menos se enxergava na situação de deficiência. Pelo contrário. Sempre foi um eficiente físico e mental, apenas precisava superar alguns obstáculos maiores que o comum.

 

“Sobrevivi a vários chamados da soturna morte e estou aqui até hoje, sentindo o vento na pele e o cheiro do mar nas narinas. Assim, aos 16 anos o atleta recordista de nado livre e borboleta saiu da água e foi sentir suas dores numa cama de hospital, com uma paralisia que quase me mata. Entre febres, cirurgias, engessamentos, dezenas de escaras (medalhas amargas), consegui sobreviver e, oito anos depois, busquei aproveitar os anos que passei deitado, mas sempre abraçado à melhor literatura mundial”.

 

Sim, nesse período de convalescência e confinamento, Cleomar Brandi descobriu o gosto pela leitura. Leu com avidez cerca de 100 livros da literatura clássica mundial. “Fiquei amigo, quase íntimo, de Tolstói, Stendhal, Baudelaire, Homero, Goethe, de muitos escritores, bálsamo de palavras e estilos que me ajudavam mais que as pomadas, cirurgias e internamentos. Soube armazenar meu silo com uma vasta biblioteca e esse conhecimento mostrou-se mais tarde uma das grandes armas da minha sobrevivência profissional”.

 

Cleomar bebeu nas fontes mais férteis da literatura mundial e acumulou um conhecimento literário sem igual. Tudo isso refletiu mais tarde na sua produção textual, principalmente no gênero crônica, o qual ele se tornou um mestre. Devorou um arsenal de livros densos e com temáticas variadas, formando no rapaz adoentado uma consciência ampla sobre vários aspectos da vida, mesmo que partindo de uma ficção literária. Sendo assim, é inegável dizer que todas essas leituras permitiram a Cleomar uma compreensão de mundo que lhe possibilitou a abertura de horizontes.

 

Para ele, ler um livro era como se transportar para outros mundos, outras terras, outros mares que povoavam a sua mente fértil. E isso se transformou numa rotina desenfreada de Cleomar. Dezenas e mais dezenas de livros eram consumidas nos anos em que prevaleceu seu estado de convalescência. Foram leituras diárias que iam de Ernest Hemingway a James Joyce, de Machado de Assis a Oscar Wilde, de Virginia Woolf a Liev Tolstói, e de Dostoiévski a Albert Camus. E sempre com Fernando Pessoa, José Saramago, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira circulando pela cabeceira de sua cama.

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