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Sábado, 16 de Janeiro de 2021 - 05:07

Oração para adiar a morte

por Elieser Cesar

Oração para adiar a morte
Foto: acervo pessoal

Segue distante de mim, morte precoce!

Caminhei muito, é verdade

(não se pode negar na minha idade),

mas ainda não cheguei ao fim.

Portanto, permaneça longe de mim.

Não lhe quero bem e muitos menos mal.

Então, leve a outro a sua visita fatal.

Logo ali, bem na sua frente,

tem um cidadão indiferente.

É um homem doente e sem sorte.

Para ele, estar aqui, tantos faz.

Portanto, me esqueça

(tenho ainda espírito de rapaz).

Vá buscá-lo. De bom grado,

ele a acolherá como última consorte.

E, depois, saciada a colheita neste terreno,

parta para bem longe,

como um viajante sereno.

Leve sua exígua mortalha

para a França, a Inglaterra,

(vá, peste!), para o Timor Leste,

a Romênia, a Chechênia ou Itália.

Mas, fique longe de mim.

Se calhar, vá para os Estados Unidos,

a China, a Rússia, a Turquia,

Oh noiva da noite e fugitiva do dia!

(Poupe a África, lá já ceifaste demais,

emissária de Satanás.)

Dê muitas voltas no mundo,

a pé, de barco, avião e bicicleta,

e só retorne, verme atleta,

quando minha mente estiver,

irremediavelmente, inquieta.

Estarei lhe esperando, andarilha nefasta,

para, novamente dizer: volte,

e não retorne tão cedo. Basta!

Vá para bem distante, irmã da escuridão.

Não há só este caminho. Há outro chão.

Parta tranquila, oh presença intranquila!

Segue, sem mim, o seu caminho,

todo um tenebroso espinho,

que eu mesmo hei de chamá-la,

oh derradeira e inútil mala!

Tenha paciência, que eu mesmo hei de convocá-la,

mas só no último, inadiável e estelar instante,

oh, insaciável bacante!

E, você, mãe dos que se foram,

há de me embalar e recitar um verso,

em louvor à uma criança,

renascida para a eternidade

e já embalada pelo universo.

 

 

 

PLANOS PARA 2021

 

Quero muito, não.

Só algo que chegue de surpresa,

como quem não avisa.

Algo de suave beleza:

um sereno, um orvalho,

um ventinho, uma brisa.

 

 

 

AS MUSAS E OS FALSOS POETAS

 

 

Vinde, poetas ruins!

Vinde, escritores sofríveis!

Vinde, os que escrevem com os rins!

Vinde, textos desprezíveis!

 

São todos bem-vindos ao banquete.

Vinde, em fila indiana,

com sua mensagem cacete

e insípida como banana.

 

Vinde, oh, desgarrados siameses,

que se esforçam meses a meses,

para escrever uma linha,

inferior a um grão de farinha.

 

Vinde, pressurosos e afoitos,

como trêfegos adolescentes!

Melhor se entregarem aos coitos

do que a estéticas indigentes.

 

Vinde, inspiração buscar,

pois de vocês temos dó.

Desde que passaram a criar,

nós, Musas, os deixamos sós.

 

nós, Musas, os deixamos sós.

 

 

 

 

FLORAL

 

 

Oh, não me perguntes

(não no meu jardim):

qual a mais terna,

a rosa, o lírio, a dália,

ou o pé de alecrim?!

Toda flor é eterna.

 

 

 

OUTRAS ÁGUAS

 

 

Não se faz poesia

a todo instante.

Poesia, água incontida,

rio distante,

margem escondida.

 

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