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Sábado, 28 de Novembro de 2020 - 05:02

Alienígenas do Pajeú

por Lázaro Carvalho

Alienígenas do Pajeú
Foto: Acervo pessoal

Deus, Senhor e nosso Pai, fez o mundo todo em seis dias, sem contar com auxílio de ajudante. No tempo certo decorrido, ao final da sexta-feira, o mundo estava, finalmente, concluído, e Nosso Senhor, naturalmente, completamente exaurido, carecia descansar. Nosso Pai requereu o benefício de uma folga semanal e passou o sábado do sétimo dia refestelado no seu confortável trono de puríssimo cristal para recuperar as forças e recarregar as baterias. E nesse dia inteiro de descanso, ao relaxar nosso Pai fez um balanço de tudo que havia construído: 

 

Fiz o céu e fiz a Terra e tudo que neles há. Fiz o rio de água doce, joguei sal grosso no mar. Fiz o sol e fiz a chuva, coloquei claridade na luz e pus as trevas na escuridão. Fiz o raio e o trovão. Criei as aves de andar no céu e os animais de rastejar no chão. Criei a formiga e o elefante, a bactéria e o mastodonte, fiz vulcão e fiz geleira, dei aos pássaros o privilégio de saber cantar e dei também a liberdade de poder sobrevoar em exibição de cores, botei clorofila nas plantas e coloquei perfume nas flores. Nada mais tenho a fazer.  

 

Absoluto e onipotente, nosso Pai é exigente e não estava plenamente satisfeito, achava que faltava acrescentar um algo mais a ser bem-feito e o mundo ficar completo, perfeitamente do seu jeito. Resolveu criar um homem em quem pudesse se comprazer, dele sentir orgulho e nele se reconhecer. Um cabra em quem pudesse pôr o carimbo de autenticidade, e marcar a fogo a testa dele com o selo de qualidade. Assim Deus fez essa criatura capaz lhe dar satisfação, a razão certificada de sua imoderada autoestima, indiscutível obra-prima de toda sua criação.  

 

Nosso Senhor criou um homem de raciocínio anormal, possuidor de uma inteligência de teor sobrenatural. Importou o material de uma remota constelação. Manhã cedo do outro dia com o material na mão, Nosso Pai não perdeu tempo e iniciou a construção. Estava criado o homem de essência excepcional! A rapidez do seu pensamento é maior do que a frequência de movimento de qualquer milimétrica onda de comprimento. É Bem maior do que a velocidade do som em propagação no ar. Seu tirocínio tem bem mais celeridade do que a corrente de eletricidade passando por dentro do fio. E se parear em pé de igualdade, pra fazer comparação, a velocidade da luz é coisa pouca, de vagarosa lentidão. 

 

Na concepção urdida desse cabra fenomenal, Deus empregou a excelência disponível do melhor material. Foi assim que Nosso Pai criou o violeiro e repentista, e só a ele deu um dom que não deu a outro artista. Ele vai ser semeado no baixo Sul do hemisfério, num ambiente adverso, de clima hostil de deserto, no Nordeste do país de um novo mundo a ser ainda descoberto. Onde a água é milagre e a chuva é ficção. Não vai ter bens de patrimônio nem acumular riqueza. Ganhar o pão de cada dia e garantir o seu sustento vai puxar a voz da garganta e debulhar no instrumento e se apresentar onde tem feira que é lugar de movimento.  

 

Que seja o mote apresentado da maior complexidade, ele desata cada nó na maior facilidade. Sua verve funciona com a pré-consciência aberta, na sua métrica intuitiva cada verso é fabricado dentro da medida certa. A frase na ponta da língua e a ideia pronta na cachola, ele desmantela o enunciado de braços dados com a viola. Conduz o tema em ziguezague, quando quer volta pra reta, se quiser ele ignora a indicação que está na seta, ultrapassa na contramão, para alcançar a sua meta, desce abaixo e sobe em acima, com astúcia faz o verso e coloca dentro dele o sabor próprio da rima. 

 

A julgar pelo traçado da sua aparência rude nem parece uma estrela de absoluta magnitude. Vai brilhar na cantoria de qualquer modalidade. Em lugar perto de casa ou longe da sua cidade. No martelo agalopado, no quadrão que é respondido, no mourão que é perguntado, sapateia indiferente no quadrão de pé quebrado, sobe e desce no desnível e anda bem no solo plano, e pisa forte nos dez pés do martelo alagoano. 

 

No lombo da cavalgadura se segura com firmeza pra não se desaprumar, embala na cabeceira pra descer desembestado, descamba ladeira abaixo sem poder se refrear, Aperta o passo quem tem pressa, em função do compromisso, e não pretende se atrasar. E lá vai ele ensimesmado, devidamente arremessado, cantando galope na beira do mar. 

 

No quadrão de meia quadra, no gosto pela sextilha, na rebuscada redondilha, conforme a situação. A cantoria de repente é resistente e cada dia aumenta mais o seu valor na cotação. Mas é o mote de uma glosa, ao que parece, que engrandece o cartaz do glosador, onde ele mostra, com clareza, a força de sua esperteza e porque se fez cantador. O repente é esquisito e como tal faz requisito para coroar alguém. E como consta do lembrete quem não canta em gabinete não é cantor pra ninguém. Quanto ao quadrão constituído, se não for mal perguntado, sai muito bem respondido. E o poeta que já fez de quase tudo, ainda quer saber, contudo, o que lhe falta fazer mais... 

 

Não vai ser homem letrado de usar beca nem toga, muito menos de envergar o paramento da estola, mas o cabedal que ele domina nem uma Universidade ensina e ninguém aprende na escola. Ele fala sobre Roma com especial desenvoltura, da imponente arquitetura, como se tivesse estado lá, e da arena do coliseu cruento onde o espetáculo da morte era só divertimento para o delírio popular. No Egito ele relembra um esplendor que existia dentro da biblioteca e no farol de Alexandria.  As conquistas do Grande Ciro no imperioso reino da Pérsia e os deuses pagãos da mitologia no panteão da antiga Grécia.  

 

Ele conhece a Bíblia Sagrada desde o tempo em que Eva era apenas namorada, antes de morar com Adão. Das tantas virgens puras de um recanto admitido no paraíso prometido nos pergaminhos do Alcorão. A Lei promulgada por Moisés em vigência atualmente na tradição permanente ensinada na Torá. E com singular conhecimento ele diz como foi o real envolvimento do sábio rei Salomão e a belíssima rainha de Sabá. Ela dormiu no palácio dele e a guarnecida virgindade da rainha nessa noite ficou por lá. 

 

Ele vai ser semeado num ambiente adverso, no baixo sul do hemisfério, de clima hostil de deserto, no Nordeste do país de um Novo Mundo, ainda a ser descoberto. Não vai ter bens de patrimônio nem acumular riqueza. Ganhar o pão de cada dia e garantir o seu sustento vai puxar a voz da garganta e debulhar no instrumento, e se apresentar onde tem feira que é lugar de movimento.  

 

Sabe muito de História, Astrofísica e Cosmologia, passeia livre pelo Universo guiado pela Astronomia, na palma da sua mão se encolhe desprotegida a vastidão da Geografia. Conhece desde o início a trajetória da humanidade quando o homem só  dispunha  dos dentes da sua   boca e das garras das suas unhas para defender sua vida e conseguir alimentação.  Vê na conduta humana a gritante contradição de matar seu semelhante em nome de religião.  Exalta a milenar sabedoria de um povo que preconiza a caminhada gloriosa em busca da iluminação. 

 

Quando canta empolga a todos por sua sagacidade, provoca o êxtase progressivo  de quem tem sensibilidade e reconhece o poder de sua engenhosidade em fazer parecer tão simples o que é da maior dificuldade. De quem não entende muita coisa ele arranca sorrisos de encanto e aplausos de viva admiração ao constatar que só mesmo Deus para colocar no mundo um ser de tamanha genialidade.  

 

A cobiçada semente desse gênio magnífico só brota da natureza num tipo de solo específico, pra lá da zona da mata, além do permeio agreste, ele parece natural deste planeta, mas se trata de um ser extraterrestre. Ele é filho da caatinga, parente próximo do cacto, irmão de leite do xique-xique, descendente direto do mandacaru. Esse cabra vai nascer e se criar, vai morar e sobreviver na região do vale seco do improvável sertão do Pajeú. 

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