Sábado, 01 de Agosto de 2020 - 05:04

Ano que vem, eu serei outro homem

por Afonso Machado

Ano que vem, eu serei outro homem
Foto: Acervo pessoal

Sabíamos que ele colecionava aranhas em seus cachimbos e espancava a secretária. De resto, eram só conjecturas. Se era amarelo ou vermelho, gordo ou baixo, a idade. Se tinha família (achávamos que não), onde morava. Talvez falasse outra língua. Nunca o vimos chegar, nunca o vimos sair. A porta de seu gabinete, fechada. Mas sentíamos a sua presença de segunda a sexta-feira; podíamos senti-lo nos espreitando. Ele sabia de cada um de nós e nunca atrasou um dia o nosso salário. Se o pagamento caísse num final de semana, adiantava o depósito. Seu poder era soberano. Achávamos que considerava a nós, os empregados, a sua família. Os mais novos de casa nutriam por ele um sentimento de amor e ódio; os mais velhos, indiferença, porém respeito. Comentava-se que um dos chefes do escritório, quando completou 25 anos de serviços prestados, pôde ouvir a sua risada. Por isso achávamos que era enorme e, não sei por quê, careca. Já, as colegas, pensavam o contrário; que era forte e bonito, o pulso firme, olhos penetrantes, e talvez por veneração, obediência ou medo, fariam tudo o que estivesse ao alcance para servi-lo. Todos nós, na verdade, faríamos tudo o que ele pedisse. Embora só tivéssemos uma certeza sobre ele: que colecionava aranhas em seus cachimbos e espancava a secretária.

 

Na véspera do Natal, ele patrocinava o almoço de confraternização. Nesse dia trabalhávamos meio período; nem meio período para dizer a verdade, pois havia todo um clima de festa no escritório. Vontade de nos abraçar. Sentíamo-nos próximos uns dos outros, e, de alguma forma, próximos dele também. Era a única vez do ano que o trabalho de cada um parecia importante, como se fizesse parte de um todo. Como se cada um tivesse vencido a batalha; pequena porém árdua batalha travada no dia a dia, e a soma das vitórias de cada um resultara numa vitória maior, que ele, de seu posto altivo, trancado em seu gabinete, comandara com eficiência. E nos orgulhávamos dele. E não guardávamos rancor. Nesse dia de festa, vestíamos nossas melhores roupas. Mais do que mostrar outra face, queríamos dizer; somos iguais, estamos juntos. E sentávamos à mesa e ficávamos contando casos engraçados que aconteceram durante o ano, invocando o testemunho dos colegas, que era mais um modo de fazer com que todos participassem. Eu desejava muito que ele participasse, que estivesse ali ao nosso lado e visse como realmente somos. Ele também deveria ter casos engraçados para contar, e ouviríamos e daríamos risadas. Eu sentia a sua falta nesses almoços. Não concordava com os colegas que diziam que ali não era lugar para ele.

 

A secretária o representava. Alegre e bem vestida, educada e atenciosa, mesmo com os colegas mais humildes. Uma senhora capaz e eficiente. Tínhamos por ela admiração, e a olhávamos à mesa como se uma parte dele estivesse nos prestigiando. Não a parte enérgica (que ela de alguma forma nos fazia lembrar) e sim a parte que nos considerava uma família. E foi justamente num almoço de confraternização que decidi, de uma vez por todas, conhecê-lo.

 

Sabíamos que ele fumava cachimbo pela névoa quente e doce que exalava de seu gabinete, de segunda a sexta. E colecionava aranhas em seus cachimbos, não porque a secretária contou (ela nunca disse uma palavra sobre ele) mas, sim, uma vez, pelo grito apavorado que uma colega deu quando viu debaixo de sua mesa, próxima de seus pés, uma aranha peluda, escura e de pernas compridas, que, segunda ela, estava pronta para dar o bote. A cena que se seguiu foi patética: a secretária (e todos percebemos o seu constrangimento), com um cachimbo em punho e chamando a aranha pelo nome, conseguiu, depois de alguma insistência que ela retornasse ao cachimbo e daí para o gabinete. Nesse dia, constatamos também, que ele espancava a secretária.

 

Mas ele só a espancava por um bom motivo. Quando, por exemplo, ela cometia um erro grave de digitação. Ou ainda quando não terminava no prazo um relatório urgente. Mas quanto a isso, pouco apanhou, pois sempre que a víamos apertada de serviço e o nosso estava em dia, corríamos para ajudá-la. Uma vez confidenciou a uma colega que ela apanhara por não ter conseguido encontrar a cópia de um e-mail. Depois, foi constatado, o cliente não enviara o e-mail. Mas ela não reclamou propriamente de ter sido espancada, e sim por ele ser por demais esquecido. Falha – ela disse à colega – que tinha de suprir com a sua eficiência e um controle total sobre as coisas dele, e que representava o verdadeiro obstáculo para quem desejasse um dia substituí-la. Porque (a hipótese não era só minha), a maioria das colegas gostaria de ocupar o seu cargo. Todas a invejavam nem tanto pelo alto salário, mas por falar diretamente com ele; por ser a única a entrar e sair de seu gabinete e cuidar de suas aranhas e de seus cachimbos, mesmo que para terem o privilégio corressem o risco de apanhar de vez em quando.

 

Os clientes o respeitavam, diziam isso aos nossos chefes, embora não o conhecessem pessoalmente. Elogiavam a sua ética com os compromissos, mesmo se durante a vigência de um contrato surgissem mudanças nas regras impostas pelo governo. De certo modo, a sua postura profissional chegava a cada um de nós e constituía uma espécie de missão, visão e valores da empresa. Todos cumpriam as suas tarefas, na rotina dos dias e das horas, com o mínimo de erro. Fazíamos o que tinha de ser feito, no dia certo e na hora exata, e da melhor maneira possível.

 

Por essa precisão britânica, não havia necessidade do contato direto com ele. Quando surgia algo fora da rotina – o que era dificílimo acontecer (quase impossível) – a secretária comunicava aos chefes, e cada qual, por sua vez, nos comunicava. Porém, houve um ano, exatamente na semana anterior a do almoço de Natal, que essa rotina foi quebrada. Não por iniciativa dele, mas, para ser sincero, minha.

 

Um colega iria se casar e resolvemos organizar uma lista de contribuições. Depois que a lista circulou e cada um deu a sua parte, tomei a iniciativa de pedir à secretária que falasse com ele; talvez, ele se interessasse e desse também a sua colaboração (só eu sei por que fiz isso). O inusitado e a coragem do ato, para dizer a verdade, nem foi tanto para ajudar o colega, mas porque vi na lista um ótimo pretexto para me aproximar dele – porque, ora!, havia prometido a mim mesmo conhecê-lo. Falar pessoalmente com ele se tornara um desafio que, por honra, me impusera. Eu não seria o mesmo homem se não o conhecesse; essa obsessão estava prejudicando o andamento do meu trabalho e mais ainda: a minha vida. Era uma situação totalmente absurda, digna de um conto fantástico, trabalhar anos num escritório e só saber do dono que ele colecionava aranhas em seus cachimbos e espancava a secretária. Se os colegas, covardes, se acomodaram com a situação, eu não iria me acovardar! A lista seria o álibi: não se tratava de assunto de serviço e sim de um gesto de solidariedade com o colega e que dizia respeito a todos nós enquanto família, e sabíamos o quanto ele estimava esse sentimento.

 

A secretária, como era de se esperar, se recusou terminantemente a levar a lista. Chegou a dizer: jamais! A experiência dizia que não adiantava insistir e muito menos me aventurar a pedir permissão para que eu mesmo levasse a lista. Voltei para a minha mesa de cabeça baixa, conforme previsto pelos colegas. Talvez, pelos meus anos de casa, que me colocavam exatamente numa faixa em que não nutria por ele nem o amor e ódio dos mais novos, nem a indiferença e respeito dos mais velhos, ou pela teimosia que herdei de meu avô, não me dei por vencido. Afinal, não é coisa de outro mundo o empregado falar com o dono da empresa. Bastava ter paciência e estar atento a uma nova oportunidade.

 

Toda primeira sexta-feira do mês, às oito em ponto, infalivelmente, a secretária vai ao banheiro buscar água para as plantas (ela cultiva cactos em sua mesa): são o dia e hora ideais, eu sabia.

 

Sem que os colegas notassem, nesse dia eu peguei a lista, dobrei e coloquei no bolso. Com os anos de observação, eu descobrira que a chave do gabinete ficava no fundo da gaveta da sua mesa. Peguei a chave, e cheio de coragem, me dirigi ao gabinete com uma determinação cega. Abri, com cuidado, o cadeado e me certifiquei se havia destrancado a porta. Depois, rápido, recoloquei a chave no lugar para que ela não desse falta, quando voltasse do banheiro. Dei as três batidinhas habituais na porta, conforme a secretária fazia, girei a maçaneta e entrei resoluto para vê-lo.

 

Mas ele não estava!

 

Era um salão escuro. Enquanto a minha visão ia se acomodando, vi surgir à minha frente uma escada estreita e comprida que levava a outra porta. Com certeza, era lá que ele ficava. Uma escada e uma porta, pensei, e era tudo o que me separava dele. Por que não havia tentado antes? Por que outros colegas não haviam tentado, se o que mais desejávamos era conhecê-lo? Foi preciso mais de dez anos de empresa para chegar aonde cheguei, pensei, inconformado. E pensei também que a vida era simples, que tudo era possível, e somos nós que criamos as nossas próprias dificuldades.

 

Respirei fundo e caminhei em direção à escada. Aquele cheiro era familiar: o mesmo do escritório. Senti o cheiro espesso e achocolatado de seus cachimbos, que ficava mais forte e doce quanto mais me aproximava da escada. O salão era escuro, eu deduzi, por causa da fumaça dos cachimbos acumulada ali, havia anos. Por superstição, fui com o pé direito no primeiro degrau: mas não o encontrei. A fumaça, como uma nuvem opaca, começava a me enjoar e não permitia que eu enxergasse direito. Também, o degrau era alto, mais alto que o normal, eu descobri. Com esforço o alcancei. Já o outro, nem era tão alto. Uma escada irregular e sem corrimão para se subir no escuro, certifiquei-me. Era esse o desafio. Precisava ir com cuidado para não cair. Tive uma sensação de vertigem por causa da altura, da escuridão, principalmente pelo cheiro acre e adocicado de coisa podre, velha, que começava a impregnar nas minhas entranhas. Porém, pensei comigo, a teimosia do meu avô me levaria até o fim, e isso fez renovar as minhas forças. Lembrei-me também de quando dizem que nas alturas o melhor é não olhar para baixo, nem para trás, e só se concentrar na frente, na meta, no alvo. Mirei a porta, não estava longe, e consegui galgar mais um degrau. Faltava pouco. Se havia chegado até ali, era só me esforçar, tentando esquecer do cheiro insosso que me sufocava e revirava o estômago, e dei mais um passo e alcancei o próximo degrau. Era tudo uma questão de paciência e perseverança, me conformei. Bastava manter a calma. Mas a cada degrau que subia ia ficando mais escuro e difícil de respirar. Tentei ser lógico: era apenas o cheiro de fumo dos cachimbos, num ambiente totalmente fechado, sem janela, sem ventilação alguma. Comecei a sentir tontura, náusea, vontade de vomitar. De repente, tive de reter entre os dentes uma gosma volumosa que me veio e não me cabia dentro; e vomitei na escada. As repetidas contrações no estômago me fizeram curvar e vomitar uma vez mais, e uma vez mais. Mas não desisti. Eu não iria me dar por vencido! Agachado, com as mãos no próprio vômito, tentando controlar a ânsia e sem poder respirar fundo por causa daquele cheiro insuportável, agora misturado ao cheiro do meu próprio vômito, e me esforçando para ordenar os pensamentos, concluí, naquela altura e escuridão, que seria melhor continuar agachado para não cair. E nessa posição, engatinhando como uma criancinha que não aprendeu a andar, subi mais um dos poucos degraus que restavam até o seu gabinete.

 

Lembro-me que a porta estava perto. Lembro-me que limpei os restos de vômito do canto da boca (não ficaria bem eu me apresentar sujo perante ele). Fui apalpando com a mão direita para localizar o próximo degrau; precisei inclinar o corpo para o lado esquerdo, o que me forçou a ficar quase de cabeça para baixo. Porém, tive a certeza de que alcançaria a porta: ela estava à minha frente, a menos de um metro! Apalpei o último degrau, e foi então que senti entre os dedos uma coisa mole, repugnante, que, com o meu toque, se moveu e fez mover outras, muitas, milhares, centena de milhares, milhões! Sentia patas e pelos subirem pelas minhas pernas, pelos vãos da calça, no braço, nas costas, nos meus cabelos, entre a gola da minha camisa, e me sacudi todo e não sei como consegui, embora agoniado, voltar despencando pela escada até onde havia entrado.

 

Abri a porta. A secretária aguava os cactos.

 

Verifiquei se ainda estava com a lista de casamento no bolso, não, devo tê-la perdido na confusão dos degraus da escada. Limpei um fio de baba que escorria dos lábios, ajeitei a gravata, o cabelo. Olhei para os lados, os colegas trabalhavam dentro da rotina. E caminhei com dignidade, de cabeça erguida, para a minha mesa.

 

        Ano que vem, outro colega irá se casar. Depois do almoço de confraternização, depois dos feriados de Natal, logo na primeira sexta-feira do mês, quando a secretária estiver aguando os cactos, custe o que custar, eu irei falar com ele. Então, eu serei outro homem!

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