Sábado, 25 de Julho de 2020 - 05:03

Um encontro com a Tanzânia (II)

por Nelson Cerqueira

Um  encontro com a Tanzânia (II)
Foto: Divulgação

Pararam em uma pâtisserie, com belos doces e croissants e um suco de pera que nesse instante lhes apetecia, até mais que aspectos teoria da narrativa literária. Ninguém é perfeito, nem ninguém é de ferro, ou só de texto. Era mais leve que café. Erwin pediu uma cerveja belga e um pastrami, simbolizando para a Jane um gosto não africano.

 

--A Tanzânia é totalmente desconhecida de nós no Brasil. Até sabemos algo ligeiro sobre a costa oeste e o sul da África, embora muito pouco, mas a costa leste? Nada. Pelo menos é o meu caso, para não comprometer todos os brasileiros.

 

--Bem, os brancos são apenas uns vinte mil dos mais de três milhões de habitante, assim somos uma minoria tão forte quando os falantes de alemão na Checoslováquia de Kafka, estudada por Deleuza e Guattari, no ensaio sobre literatura de minorias.

 

Impressionava à Jane todas as referências do Erwin, mas pensando bem, não deveria; com mestrado em estudos linguísticos em Londres.

 

--Por isso mesmo, continuou o Erwin, ser branco é ser quase nada. Somos nomeados em todos os instantes de “Mzungu” um termo da língua Bantu, usado na região dos lagos para se referir a qualquer descendente de europeu. Em Bantu esse termo significa andarilho; o possessivo kizungu significa com pinta de rico, mas na atualidade é sinônimo de pessoa de pele branca e que fala inglês; wazungu é usado para emprestar alguma forma de respeito a um branco, usada no plural e no singular azungu para um indivíduo branco, wachinzungu, bachizungu, andarilhos em Bantu. Mzungu pode ser usado de forma afetuosa ou simplesmente como insulto, o mais frequente. E não apenas na Tanzânia; também em Quênia, Uganda, Malawi, Ruanda, até em Moçambique. O mais embaraçoso é quando você está em uma praça na cidade, e um bando de meninos começa e lhe agredir com “mzungu, mzungu, mzungu”. A Jane estava boquiaberta.

 

--Lá na Bahia, há uns termos, creio que derivado do Bantu, cuja fonética é parecida. É o caso de xibungo, aplicado de forma derrogatória a algum homem que mantém relações sexuais com outro homem e a palavra kibungo para chamar alguém de feiticeiro, metade homem, metade animal, com uma cabeça enorme e um buraco nas costas, usado também para descrever um baile de negros.

 

--Com certeza está na raiz semântica do termo uso ne Tanzânia, principalmente se a palavra tem base linguística entre os bantus.

 

Não era à toa que o Erwin fazia doutorado em estudos da linguagem e trabalhava com a gramática generativa de Chomsky. Destrinchou o termo em suas várias acepções e significados, além de sua aplicação cultual. A Jane se lembrou que em Salvador quando os meninos queriam gozar ou agredir um garoto de pele branca, gritavam “sai daí, seu amarelo imprestável”, “corta essa, seu alemão sujo”, coisas muito frequente no pós segunda guerra mundial.

 

--Na Tanzânia não é diferente. No meu caso, porém, eu trabalho com gerenciador de informação e análise de cenários a partir da mídia nacional e internacional para subsidiar o Banco Nacional com leituras de tendências e de investimentos. É um trabalho difícil. Tenho que fazer leituras de artigos, teses, noticiário, e sobre pequenas notas em jornais que, às vezes, trazem informações mais uteis que os grandes jornais. Preciso ler o óbvio e o escondido ou apenas indicado em alguns textos. Não é uma tarefa fácil, mas tenho tido muito sucesso. Recentemente o banco tomou uma decisão para empréstimo de grande soma para um país vizinho e o resultado foi e tem sido muito lucrativo para o banco. Antes de vir para a Sorbonne, fui promovido, eles pagam tudo aqui, e devo pesquisar e fazer a tese sobre Chomsky, linguagem e responsabilidade social visando desenvolver linhas de investimento para o banco em outros países e especialmente em projetos inovadores, para apoiar startups, novas tecnologias, inclusive linguagem para software.

 

Que bom que conheci esse africano, pensou. O bicho parece até que tem alguma mandiga com os bruxos do conhecimento; mas lembrou que ele não era do universo africano com o qual possuía algum conhecimento, Costa Oeste e Angola. A Costa Leste era uma incógnita para ela. Seu conhecimento era zero, por isso tinha perguntas, mas nem sequer abria a boca. Mesmo assim, não lhe parecia legal usar as teorias do Chomsky para benefícios de um banco emprestando dinheiro a juros! O Erwin lhe narrou uma passagem de Chomsky onde ele afirma que sempre diante de uma situação onde o conhecimento é construído a partir de dados imperfeitos, mas gerando uniformidade e homogeneidade entre as pessoas, pode-se concluir que um conjunto de limitações iniciais desempenha um papel importante para se determinar o sistema cognitivo sendo construído pela mente.

 

O garçom perguntou se Erwin queria outra cerveja, ele disse que não e pediu a conta. A Jane não gostou de não ser consultada. Que pensava ele? Estava na África, onde só o homem decide? Fez uma cara amuada, mas ele não percebeu. Mexeu-se na cadeira, ele não percebeu; perguntou quanto era a conta para dividir, mas ele disse já estar tudo pago. Como se nem saíra da mesa? Parecia um complô entre ele e o garçom, coisa de homens.

 

--Desculpe, mas eu quero pagar meu consumo.

 

--Já paguei tudo no cartão de crédito.

 

--Mas, como? E se eu não quiser que você pague minha conta?

 

--Já está paga, você paga a próxima, caso queira.

 

--Que próxima? Nem falamos de nos encontrarmos outra vez.

 

--Que tal então um licor para fechar esse encontro e você paga a conta, propôs o Erwin, sem deixar em branco um ar de ironia.

 

--Hoje não dá mais, está ficando tarde. Vou para casa, refletir sobre essas ideias do Chomsky, narrativa bancária e ver se, por acaso, é aplicável a meu trabalho. Deixemos para outra conferência ou painel, aqui na Sorbonne. Mas, queria lhe dizer que, no Brasil, a gente sempre propõe dividir a conta. As coisas não são assim unilaterais, disse sem estar convencida de ser assim mesmo. Apenas não gostara da forma como ele tomou toda a decisão.

 

O Erwin insistiu em acompanhar a Jane até o apartamento dela e, apesar de não desejar isso, ela foi deixando, enquanto andavam pela rua Descartes. Na porta do edifício, ele olhou-a com um ar de carinho, pelo menos assim, ela interpretou e disse:

 

-- Sabe, você é a primeira brasileira que conheci em minha vida. Foi um prazer e um aprendizado. A imagem que tinha era outra. Agora entendo melhor. Vamos marcar um dia para o licor e reescrever nosso encontro. Estarei na Sorbonne por uns três meses até minha defesa. Poderia tomar um drinque lá na cidade, no Champs Elisées. Tem uns bares aconchegantes e agradáveis, apesar de ser um local turístico, ou talvez até por isso. Três anos aqui e me considero ainda um turista de longa duração, esboçou um riso.

 

--Combinado. Vamos marcar. Eu moro nesse prédio aqui. A gente se encontra no departamento, durante a próxima atividade. Haverá um painel sobre texto literário e imaginação, com um viés antropológico que me interessa e poderá lhe interessar. Parece-me tratará também de linguagem e ficção. Um aspecto que me interessa é a análise do texto de ficção entendido como ídolo sagrado. Espero que desmontem essa suposição, mas quem sabe o que será discutido. Que lhe parece.

 

--É, sem dúvida, linguagem. Vou ler alguma coisa em minha bibliografia para ouvir melhor. Nos vemos lá. E com aquele final de capítulo de seriado, se despediram, sem beijinhos. Ela não foi voluntária.

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