Sábado, 04 de Julho de 2020 - 05:09

A calça rota no TCA

por José de Jesus Barreto

A calça rota no TCA
Foto: Kin Guerra

Sonoro silêncio

 

 

 

  Dia triste

  Tarde cinza

  João se foi

  Silêncio

  Sem adjetivos

  João.  Só.

  Simplesmente

*

  Apagou-se um pouco

  a beleza desse nosso mundo

*

  O bom é que ele não nos deixou

  Bom é tudo o que ele nos deixou

*

  E lá se foi João com seu violão

 ao encontro do mestre Caymmi,

 do irmão Tom Jobim e o piano,

 dos versejos do querido Vinícius,

 dos aconchegos de Jorge Amado...

 A flautar, todos, com Pixinguinha.

*

João era um homem simples,

Tímido, sedutor e terno.

Desconcertante, às vezes.

Parecia não ser deste mundo.

 

****

João Gilberto, essencialmente músico, violonista, nasceu em Juazeiro da Bahia, às margens do Rio São Francisco, em 11 de junho de 1931. Tornou-se, por sua arte, um dos músicos mais importantes e influentes do Século XX. Criou, no final da década de 50, um jeito novo (Bossa Nova) de tocar, cantar e dividir os compassos, o andamento do samba, tornando universal a nossa MPB e influindo até na execução do jazz, música negra dos norte-americanos.

 

Por sua arte, reconhecida e diferenciada, é reverenciado em todo o planeta, tido como gênio. Pelo seu jeito estranho, esquisito, esquivo, de pura timidez é também conhecido; tornou-se um mito e histórias de suas excentricidades rolam, inesgotáveis. 

 

**

 

 

A Calça rota no TCA

 

 

 

1979. Há um tempão João Gilberto não vinha à Bahia. Desde que conquistara o mundo, consagrando-se com seu jeito único de cantar e tocar violão, samba puro brasileiro que a mídia planetária convencionou chamar de ‘Bossa Nova’. Ele nem gostava do termo. “Eu toco samba”, insistia.

 

Expectativa, lotação do Teatro Castro Alves esgotada. Era João.

 

Hospedou-se no Meridién, então o mais chique hotel da capital. Repórter de uma revista nacional, ganhei a missão de acompanhá-lo. Oba ! Dois, três dias só pensando em João, ídolo.

 

Não consegui vê-lo antes do dia do espetáculo, sem ensaios, passagem de som, nada. Ele entocado. Soube que chegou a sair sorrateiro à noite/madrugada e que recebera umas poucas visitas especiais...  Ou seja, encontrá-lo só com muita sorte. Mas descobri que o sonso e cativante João costumava ficar no telefone papeando com uma atendente do hotel, bela jovem morena com quem se encantara na recepção, minutos sem tempo no fio a perguntar e contar bobagens sedutoras pra ela, uma de suas atividades favoritas, além do violão. Através dela, consegui trocar um lero com ele pela rede interna do hotel.

 

 Foi nesse papo que dele ouvi algo marcante: - “... toco violão, apenas, o gênio da raça é Caymmi, sem ele nada seria”. Calou-me. Confessou estar muito feliz, satisfeito por voltar à ‘Cidade da Bahia’, mas, naquele instante, também muito tenso e preocupado porque, em função da emoção e ansiedade, sentia os dedos das mãos travados, endurecidos e por isso não conseguia executar os acordes direito, tocar o violão como devia. Daí, temia não ter condições, não ser capaz de fazer o show, marcado para as 21 horas do dia seguinte.  

 

  Dizer o quê? Credenciado, sem fotógrafo ao lado para não espantá-lo, fui para os camarins do teatro à noite do espetáculo, bem mais cedo, a esperá-lo. Algumas poucas pessoas do teatro, da produção, uns escolhidos... 

 

   Vinícius de Moraes, amigo fraterno dele, à frente de tudo, todos na expectativa da chegada de João, ponteiros girando, e cadê o homem? Saíra do hotel mais cedo, ninguém sabia de seu paradeiro. O relógio, o nervosismo, o tititi: - Virá?

 

  A plateia já se manifestava. Ouvia-se o eco dos protestos nos camarins, Vinícius agitado, já passavam uns 15 minutos das nove...  Eis que ele aparece, não se sabe de onde, olhando para todos, meio que assustado, cabelos desalinhados, o terno surrado em tom cinza escuro, camisa branca, sapato social, sem gravata. Soubemos, depois, que estivera dando um passeio por Itapagipe, Ribeira... 

 

   - Vamos João, vamos, está na hora! -, alguém falou. 

 

  Ele retrucou em voz baixa, mostrando os fundilhos da calça:

 

  - Preciso ir no hotel, olhe pra isso, minha calça rasgou.

 

  Sim, estava com uns dez centímetros descosturados nos fundos. Naquele instante, fazer o quê?  Alguém da produção iria com ele ao hotel, rápido, para ajudá-lo a trocar de roupa e sobretudo garantir seu retorno ao teatro. Assim aconteceu. 

 

A plateia, com o passar de intermináveis minutos, já indócil, assoviando, barulhando... o que levou Vinícius a tomar a iniciativa de ir ao palco e, com sua habilidade de diplomata de carreira (aposentado), pedir calma, mais um tempo, que João estava a caminho, já chegando, e o show ia acontecer.  Vaias estrepitosas ao poeta.

 

Passava das 22h quando João voltou. Com o mesmo aspecto, cabelos em desalinho, aquele terno, e a mesmíssima calça rota nos fundos. Sem perguntas ou explicações. Assim daria o show, pronto. Mas, tocar o quê?

 

O violão que trouxe nem dedilhou direito, disse que estava desafinado, os dedos endurecidos. Afiná-lo, naquele instante, aquele clima de suspense, o barulho da plateia irritada invadindo os camarins, os ponteiros andando... nem pensar. Alguém da produção, no ato, ofereceu-lhe outro violão, mas ele não gostou do instrumento. Sem pestanejar, o sambista Edil Pacheco, fã presente, prontificou-se : - Aqui, João, é o meu violão, está afinado.  

 

João pegou o instrumento, dedilhou e decidiu, para alívio de todos: - Que violão bonito, vou tocar com ele!

 

Mas... ‘tocar o quê?’, perguntou.

 

Diligente, Vinícius conseguiu (produtor é muito útil nesses instantes) uma folha de caderno e uma caneta, sentou-se do lado de João e começou a sugerir e escrever o repertório, de 1 a 13 as canções que João deveria cantar/executar, na sequência.  Os clássicos, óbvio. A folha de papel foi pregada com durex no fundo do violão. No palco, João ia pescando, olhando, seguindo o roteiro.  Assim foi. 

 

 - Vamos, vamos!, dizia Vinícius a um João assustadiço, repetindo que não iria conseguir ... refugando entrar no palco, pânico costumeiro, pavor, mesmo, de ter de enfrentar a plateia irritada, sob vaias. O poeta foi com ele, segurando-o pelo braço, e encarou : - Aqui está João, o show vai começar,  aplausos pra João!

 

  Vaias, agora já misturadas a alguns aplausos, o público aos poucos se acalmando, sentando, João querendo dar de ré, recuar, e Vinícius a empurrá-lo até que ele se acomodou no banquinho e, já com o público em silêncio, começou a tocar ...

 

   Aquele som, aqueles acordes, aquela voz quase um sussurro, aquele ritmo ... e o ambiente, o astral, e tudo mais foi se transformando num espetáculo encantador, algo de outro mundo. Pura magia. João ainda falou, mostrou a calça rasgada, reclamou num certo instante de um zumbido que vinha de longe - e que só ele ouvia, mesmo com o ar condicionado desligado.

 

  Mas, então, a plateia já havia sido seduzida pelo gênio, quedava-se enfeitiçada pelo canto, pelo som, o encanto, e ele tocou até o final, num êxtase.

 

  Saudade perenes de suas ‘doideiras’, caro João. Santas loucuras.

 

  Os gênios tudo podem.

 

 

Obs: esse relato é de como me lembro agora dos fatos acontecidos. Se há imprecisões, coisas do juízo cansado, que importa?  João é uma lenda.    

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