Sábado, 27 de Junho de 2020 - 05:13

Zum, zum, zum zum pandemia mata um

por Carlos Navarro Filho

Zum, zum, zum zum pandemia mata um
Foto: Lili Navarro

A pandemia só nos dá uma opção. Ficar em casa e evitar uma tungada fortuita do vírus voador disparado contra os mais afoitos que se arvoram a sair sem que nem pra que, por alguém a menos de dois metros, um infeliz sem máscara, o que acarreta certos dissabores, tipo ser contaminado sem sentir, que nem marido traído, e empestear todo mundo ao seu redor, tirante a sogra que nunca está por perto em uma hora dessas, ou ainda ter de enfrentar a fila do respirador, e depois outra fila, a do leito de UTI, permitindo que você chegue feliz e devidamente morto ao estágio final do tratamento, que consiste em dois ou três dias, quiçá uma semana, de analgésicos e anti-inflamatórios somente para não dar o gostinho do cramunhão do vírus pegar e levar assim na total facilidade, antes de você ter a sorte de receber carinhos na face de um enfermeiro bonitão, ou de uma enfermeira gostosa a lhe dar umas apalpadas, isso na sua imaginação porque nada se vê debaixo daquelas camadas de roupas e jalecos e de três ou quatro máscaras protetoras, e depois partir feliz porque aqui a situação está por demais confusa ninguém conhece mais ninguém, nem irmão conhece irmão, nem mãe ou pai conhece filho, amigo nem falar, quando não é o ódio espalhado pelos robôs do maluco via fakes nas redes sociais ou em laives pessoais, em especial irritando o vírus, que foi chamado de gripezinha e está virado no cão, impedindo os pobres mortais de pegar uma praia, ou fazer um cooperzinho, nos feriados antecipados, nem de ir ao botequim virar uma cachacinha para tomar coragem de enfrentar o desemprego e a falta de grana, que acabou lá atrás quando a besta fera apareceu e as empresas correram a demitir, muitas por não ter outro jeito, muitas só de sacanagem com chefes que tinham raiva de subalternos aproveitando a chance e matar dois com uma só tacada porque também agradará ao patrão diminuindo despesas com pessoal, que em última análise é que paga o pato, e não a Fiesp, sem contar que em casa você engorda, sei que não é politicamente correto falar de gordo, de gorda nem pensar, mas não tem jeito você come e dorme, come e dorme, malhar só quando acabar a preguiça que insiste em não ir embora, aí você pega e engorda, eu mesmo estou nas últimas, agora só cabem alguns calções velhos e folgadões que ficaram justos mas ainda podem ser usados sem muito vexame, vou ter de gastar com um novo e adequado guarda roupa, ainda bem que se pode comprar fiado sem sair de casa, é só dar o número do cartão que a compra chega direitinho deixando-o feliz, e com uma conta a pagar que virá no início do mês seguinte mas você nem liga mais porque uma vantagem da pandemia é permitir que você passe o porrete sem ter de sumir depois porque o mundo inteiro não tem dinheiro e são seria você subnutrido brasileiro que seria obrigado a pagar em dia, aliás pagar em dia nunca foi o seu forte, e não seria agora em condições tão adversas, deixa eu fazer uma pausa para você tomar fôlego.

 

Retomando a conversa, a gente já viu que não deve ir pra rua para não se estrepar e deve ficar em casa, e ficando em casa, a gente também já viu, você lê e come, posta nas redes e come, vê TV e come, mas não voltarei a falar de gordo porque já deu, é de coisa pior, na TV você não escapa das notícias da pandemia, vinte e quatro horas por dia, ninguém aguenta mais, bicho filho da puta é esse vírus, se não mata de morte matada mata de tristeza, tensão, estresse, depressão, infarto, a porra toda, que é efeito colateral dirá o seu terapeuta e ainda mata do tédio das laives que é para fechar o torniquete em torno de sua cabeça, o que pode ser visto em um bilhão de laives que aparecem todo dia na telinha e que piorou muito agora em época de Santo Antonio, São João e São Pedro, nunca vi tanto forrozeiro desaparelhado, porque gente especialista em pop, funk, rock, arrocha e sofrências em geral, incluindo as sertanejas, deram de tocar e cantar forró que ficou uma beleza de feio e sem jeito, inclusivamente sacaneando os forrozeiros raiz, aqueles do triângulo, zabumba e sanfona, que não têm onde cair morto e precisam passar o chapéu nas casas do sertão para ajudar o orçamento da nova atividade de lavrador, mecânico ou marido de aluguel consertando de um tudo em residências que podem pagar, mas é isso mesmo, o sol chega para todos e não vamos discriminar os nossos artistas ricos, dirá você, mas agora já deu mesmo e vou deixar você tomar outro fôlego, não sem antes dar um viva ao SUS e ao pessoal, médico, enfermeiro, auxiliar, gente da faxina e a todos que arriscam a vida, e muitas vezes morrem, ficam deprimidos e acometidos de outras patologias, tentando salvar outras vidas, sem direito a descanso, a ver a família, a se alimentar direito e tendo sempre o cutelo do vírus sobre o pescoço, comove a alegria deles na despedida, na porta de hospitais, clínicas e postos de saúde, quando conseguem salvar e dar alta a alguém. Palmas para eles que eles merecem.

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