Sábado, 20 de Junho de 2020 - 05:06

Hotel Transfranciscano

por Biaggio Talento

Hotel Transfranciscano
Foto: Acervo pessoal

Quatro parrudos sapos cururus estavam na entrada da "pousada" a nos recepcionar no início da noite. Pulavam com dificuldades quando tangidos, mas ficavam nas imediações "filmando", na sombra da noite. O alimento ali era farto, uma variedade enorme de insetos que vive na região do semiárido nordestino próximo à margem do São Francisco, convivendo na boa com a temperatura de 40° nos dias mais frescos.

 

O refúgio possível para escapar dessa praga do Egito era o quarto. Mas lá, talvez atraídos pela luz, o cheiro do suor dos humanos ou fugindo de ser o jantar dos sapos, havia uma espécie de convenção de artrópodes: besouros, mariposas, mosquitos, larvas, enfim, os indivíduos se espalhavam pelas paredes, o piso e as camas sem o menor constrangimento. Ao contrário, já iam à procura de sangue. Um velho ventilador Malory de 40 centímetros e mosquiteiro não pareciam páreo para a turba invertebrada.

 

Havia ainda o sanitário, cuja porta não fechava, impedindo a tola tentativa de manter a luz do WC acesa para atrair a esse cômodo a “insetaria”, afastando os indivíduos do quarto. Tudo debalde. Foi quando, de repente, vislumbrou-se próximo à moldura da porta, na parte de baixo, o implacável vulto amarelo de um peçonhento escorpião. Aí a situação piorou sobremaneira, pois seria difícil encontrar por aquelas bandas soro contra a ferroada do bicho. E ele era pequeno, o mais perigoso conforme os entomologistas. A solução foi enfrentá-lo. Pra sorte dos humanos o bicho não é ágil e foi abatido com certa facilidade com um golpe preciso de tênis.

 

A grande dúvida era se o escorpião estava acompanhado de parentes e, estes, dispostos a perpetrar alguma “vendetta” contra o algoz do integrante da família. Dormir nesse ambiente foi mais angustiante que desconfortável. Mosquiteiros não são páreos para escorpiões. Mas, dormiu-se e, se os insetos aproveitaram as horas em que os corpos ficaram inertes para se fartar de sangue, não deu pra perceber pela manhã.

 

As 8 horas o termômetro do carro indicava 42 graus no lado de fora. Mesmo assim crianças brincavam nas ruas da localidade. Na margem do Rio São Francisco um homem bêbado saiu da água cambaleando e falando coisas incompreensíveis. Os moradores logo cedo já haviam colocado nas portas de entradas de suas casas, garrafas pets, cheias de água. Versa a tradição dessa região que isso afasta incômodos cachorros mijões.

 

As viagens a lugares desconhecidos são interessantes não só pelos motivos que levam as pessoas até lá, mas por permitir entrar em contato com todo esse estranho universo do campo para quem mora na "capitá". O mundo que o sertanejo convive numa boa, achando tudo dentro da normalidade, sem qualquer incômodo. Quando ocorre o contrário, dá-se o que Gilberto Gil e Dominguinhos compuseram no "Lamento sertanejo".

 

"Por ser de lá/

Do sertão, lá do cerrado/

Lá do interior do mato/

Da caatinga do roçado", 

na cidade grande, o sertanejo se aperta:

"Não sei comer sem torresmo/

Eu quase não falo/

Eu quase não sei de nada/

Sou como rês desgarrada/

Nessa multidão boiada caminhando a esmo".

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