Sábado, 30 de Maio de 2020 - 09:46

A velha canção da chuva

por Antonio Pastori

A velha canção da chuva
Foto: Acervo pessoal

VAGALUMES NA MOCHILA

 

 

- hoje é quando mesmo?

é inverno ao redor das fogueiras

e entardece mais cedo na vila

 

os lampiões brincam de não adeus

e bailam ao relento das meias canções

quase tempestades

 

e o sabor do jovem tanino

é desabrigo dos pequenos

em desequilíbrio por velhos seixos

 

a manhã sem tinturas

dá fiapo de memórias

e nem mais sabes

o que é mais saber 

 

podem montar cartas velhas

ouvir versos das linhas que que sobram

ou convidar vagalumes para um passeio

 

mas, por favor,

deixem a mochila pendurada

no corrimão da escada.

lampião não cai por derivar de ventanias

 

e nada de querer roubar do passaredo

a abstração de anoitecer distraído

 

noite é para se perder de vista

e por certo, voltarei

desmadrugado.

 

 

 

 

 

PASIONI XI

 

 

e se o amor

mostrar as tintas

na lisa falsa

pernóstica

plástica fruta

 

doma, amor

as tetas

as espátulas

e coma

o coração das borboletas

 

            

 

 

O ANJO PETA E A BAILARINA NA JANELA

 

 

para Ivon das Aldeias & Inês Amélia

 

anjo Peta e seus incêndios

cora a bailarina na janela

 

é um nobre andarilho

e não é dado a regressos 

para que delicadezas?

 

Peta sangra 

no que a tarde

breve em luz, leva.

 

vermelha.

 

crava 

nunca 

côa

 

em frevo

nunca

jazz

 

Peta lança

no que a hora 

troça em crua paz

 

vermelha

 

nuca

nunca

ombro

 

âmbar

nunca 

nós

 

e se... 

poema vem 

e embala

 

 

 

Peta

mete

bala

 

por teus incêndios

ao que der na telha.

 

a finos demônios.

por dançar e volver

 

só a bailarina tem olhinhos de retróis 

 

para que debruçar na espreita? 

 

só ela pode ver

o que a tarde leva

 

só ela

só ela

a bailarina na janela

 

pode derramar para colher

o que a chuva deixa rosa.

 

o poeta

nunca 

o pranto

 

o rio

nunca 

a foz. 

 

            

 

 

 

Concretudes

 

 

do saber de passarada estrela é parida

 

por isso 

nunca diga

que dia morre

ou noite nasce

 

dia e noite

são faces de mesma musa

 

lua minguante

é tatuagem de asa

 

e sol é pintura 

com bico de pena.

 

 

            

 

 

As esfinges do rio

(A rota dos pássaros rubros II)

 

 

onde vais sei que gritas e gritas por dentro entre o cais e os costeiros da lua

ao mito das litanias, dos velhos arvoredos, dos passos da chuva 

eu vago nas beiras e aos ofegos por te amar demais no último dos versos

 

onde vais sei que andas e andas ao catar estrelas para inventar o caminho dos vagalumes

onde talhas sei que mudas e margeias entre linhos e leitos ao fado inquieto e riscado

 

porque ali te recorto aos mundos de iluminuras 

dopo aquarelas e sangradouros na vastidão dos sós 

 

bem e assim eu sei

a primeira lágrima nasceu da tristeza de um rio

e tinha cor de ouro velho por vir da ponta de um pincel 

 

bem e assim bem sabes

o rio era o imenso jardim

as lágrimas eram as flores do rio

 

as esfinges eram donas do oceano

as esfinges moravam nas profundezas

as esfinges roubavam as pontas de lágrima

as pétalas perdidas do jardim das corredeiras

 

e eu naveguei no hiato de nos deixarmos ir por não sabermos mais

e eu gritei na solidão das canoas e dos vagalumes sem rota  

e eu procurei as pétalas na imersão e na fúria das correntezas

 

como açoitar a mesma ira dos temporais?

como grotar a incerteza das velhas sangas?

 

e mudar de vez o curso das águas brancas

na palidez das horas que morrem sem saber dos dias

para desnudar a rota dos rubros pássaros

por não se saber mais como é a cor do sol

 

porque acaso venhas de lá 

e lutas eu sei que lutas

 

e como rastros em asas fugidias

eu arranquei a lágrima da tua esfinge

e libertei tons azuis para inventar a beleza

e devolvi ao rio as iluminuras

e escutei canções andinas dos encantados

 

pois é, eu também sei

sei da ilha e sua ninfa

a cria das ribeiras  

a rainha

 

é dela a tarde que te desenho 

é dela a última das pétalas que carrego

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