Sábado, 18 de Janeiro de 2020 - 05:01

1693, o voo que acabou fondo

por Carlos Navarro Filho

1693, o voo que acabou fondo
Foto: Acervo pessoal

Primeiro dia desse 2020 tão esperado, porque o ano que passou foi quinino puro, subo a Avenida Morumbi na direção da Santo Amaro, em um começo de manhã ensolarado a gosto das nuvens que de vez em quando abriam uma brecha no céu. Sigo em velocidade de cruzeiro, um tanto preocupado por marchar em uma hoje terra estrangeira, pois não estou voltejando na pracinha do fim de linha da Pituba, que posso considerar meu território de caminhada quando consigo superar a preguiça do fim da tarde, comecinho da noite.

 

Rua vazia, algumas mulheres e homens, avançados nos oitenta, noventa anos, caminham lentamente aproveitando a tranquilidade da manhã luminosa de um feriado, uns poucos conduzindo cães e portando as respectivas sacolinhas plásticas, outros poucos homens e mulheres, na mesma bitola, estacionam os carros ao rés da calçada lateral da igrejinha do Sagrado Coração de Jesus, quase na esquina da Santo Amaro. O padre os espera à porta já paramentado de sobrepeliz branca e estola dourada.

 

Sopesei os mil e cento e cinquenta metros vencidos, senti-me bem disposto, atravessei a avenida na direção da Joaquim Nabuco e quebrei na primeira esquina à esquerda para checar se o bom e velho restaurante mineiro abriria no feriado para fazer a gracinha costumeira à família de Pops, que saiu de Ubá e se mudou para o Brooklin quando ela tinha sete anos de idade.

 

O mineiro não ia abrir e bati em retirada, chateado com a minha primeira derrota política mal chegado na pauliceia, e aquela pequena frustração me remeteu à tarde/noite anterior, aí sim um pepino de bom tamanho, mas desconsiderado por mim por entender estoicamente que era o fecho adequado à qualidade do ano que findava.

 

Embarcamos no Dois de Julho com tempo bom, os primeiros da fila (esse é um dos raros bons momentos de ser velho, outro é a prioridade na fila de bancos e loterias já que em clínicas e consultórios é barril porque a maioria já passou dos sessenta), sentamos e passamos a observar os demais passageiros que entravam.

 

Um tanto surpreso percebi que, apesar dos últimos acontecimentos nacionais nesses três anos passados, uma espécie em extinção ainda resistia bravamente. Apurei o sentido e satisfeito constatei, pelo olhar de lado e mal disfarçado esgar nas poltronas próximas: era mesmo o que a classe média e a pequena burguesia convencionou batizar nos aeroportos, “o povo do Lula”.

 

Enfim, estava ali uma parcela da resistência desses trabalhadores que se dá ao luxo de viajar de avião sem preocupação de se comportar com a “finesse” da classe média, cada vez mais mediazinha, mas que em boa medida mantém alta a pose.

 

Passados esses instantes de elucubratione decolamos para uma viagem maravilhosa não fosse um pequeno e inesperado detalhe. Menos de vinte minutos depois de o comandante comemorar que chegaríamos com dez minutos de antecedência, acenderam-se os avisos de “apertar cintos”, e aí começou a nossa desdita. Logo voltou o comandante informando que uma tempestade desabara sobre Cumbica e que, juntamente com outros aviões, companheiros de infortúnio, ficaríamos dando voltas até o tempo estabilizar.

 

Dar voltas é mole, o diabo é dar voltas em meio a colossal turbulência. Por mais que o comandante aumentasse o raio das citadas voltas os coriscos, trovões e tudo o mais de ruim em uma situação dessas insistiam em nos atingir, parecia coisa de praga. Assustadas, algumas apavoradas mesmo, as pessoas pareciam estáticas, brancas que nem cera, algumas rezando baixinho, outras de mãos dadas e apertadas. Até um casal de coroas que inicialmente olhava a tudo com segurança e ar distraído começou a se preocupar seriamente.

 

É voz corrente que turbulência não derruba avião, mas quem tem, tem medo. A bem dizer, como recitaria um meu compadre “turco” (que ele não leia isso porque senão vem de lá “turco é a mãe, sou libanês”), estava todo mundo meio apavorado, daí o silêncio sepulcral, só quebrado pelo comandante após noventa minutos de solavancos: o combustível acabou, vamos a Viracopos reabastecer. A reação dos passageiros foi um misto de alívio e de desânimo, “e será que dá para chegar lá?”.

 

Finalmente fora dos raios e trovões começou outro tipo de problema. Uma criança à nossa frente, que havia passado mal e vomitado, finalmente despertou a atenção da chefe de comissários que chegou correndo e nervosa. Trazia toalhas de papel para limpar o chão, ajudada por uma colega com um copo d’água para a menininha. (Aliás, comissário que se preze não arreda pé do lugar seguro em uma situação dessas, pelo menos nesse voo, talvez seja o protocolo).

 

Com o fim dos solavancos, os esfíncteres relaxaram e os passageiros começaram a se levantar em busca dos toaletes para desespero da chefe de comissários que, perto da histeria, não parava de reclamar ao microfone, “aos seus lugares, aos seus lugares, senta, senta”. E assim aterrissamos em Campinas por volta das cinco da tarde, quando deveríamos ter descido em Guarulhos às duas e quarenta.

 

Perfeito, avião reabastecendo, fim dos problemas.

 

Não, o começo.

 

Mal os motores foram desligados, percebeu-se uma movimentação “atípica” ao fundo. Ato contínuo, uma senhora, baixinha, magra, avançou por entre a multidão que no corredor procurava os banheiros, ou simplesmente esticava as pernas e tentava se recompor do susto, e expedita enfrentou a chefe de comissários que se esguelava tentando proteger a entrada da cabine de comando.

 

A passageira falou alto e forte:

 

- Quero descer com minha família, não vou morrer nesse avião”.

 

- Não pode.

 

- Quem disse que não pode? Pode, nesse avião não ando mais.

 

A discussão foi interrompida pelo burburinho, que lá no fundo já era quase um tumulto. Uma senhora passava mal e os comissários a muito custo tentavam passar com outro copo d’água, enquanto apelavam por algum médico a bordo. Um paramédico apareceu, deitou a passageira no corredor suspendeu as pernas e começou a balançar, como se faz com jogador que cai em campo com câimbras, tentando “irrigar o cérebro”. Não irrigou. Logo desistiu, com o diagnóstico “chama um médico da equipe de socorro do aeroporto”. (Pausa para uma informação de utilidade pública que a minha vã ignorância desconhecia: a taxa de embarque inclui atendimento médico gratuito no aeroporto. Você sabia?)

 

Para piorar a situação, um rapaz com “Síndrome de Down” que estava sentado no meio da muvuca também passou mal com a confusão e o falatório, desabou, e teve de ser retirado de bordo às pressas, quando a equipe médica de Campinas conseguiu chegar aos últimos assentos, para ser hospitalizado.

 

O que causou tudo isso com o avião em terra foi uma simbiose jamais imaginada. A classe média, mediazinha, postada próxima, também estava com medo de continuar a viagem e se juntou ao “povo do Lula” na revolução salvadora para o desembarque. Pela primeira vez caminhos da esquerda e da direita fundiram-se no campo de luta e partiram para cima da comissária chefe na porta da frente do avião. E ainda há quem diga que classe média não faz revolução. Depois do 1693, vou rediscutir esse conceito. Só conhecia isso no tempo da ditadura, na militância estudantil, porque boa parte dos estudantes, em especial nas universidades, era de classe média para desgosto e sofrimento dos pais, tios, avós e dos padres Peytons da vida.

 

E a tropa revolucionária ocupou a entrada do avião, na beirinha da cabine de comando na qual os pilotos deveriam estar olhando pelo buraco de alguma fechadura e vendo o desespero da chefe de comissários.

 

- Vocês não podem descer...

 

- Podemos e vamos...

 

- Mas dá trabalho localizar as bagagens, tem que trazer a escada para a aeronave, é despesa, vai atrasar ainda mais o voo...

 

- Nós vamos descer, chegaremos a São Paulo de carro, ônibus, trem, mas nesse avião a gente não vai.

 

À essa altura, já passados trinta minutos do abastecimento, volta mais uma vez o piloto com voz conformada e informa que o avião já está abastecido, mas só poderá levantar voo depois de “alguns passageiros descerem, por vontade própria”. Já passava mais uma hora de atraso em terra e lá se foi embora pelo menos um terço dos passageiros.

 

Já a classe média, mediazinha, que não aderiu à revolução murmurava com os próprios botões “puta que o pariu” quanto tempo isso ainda vai durar?

 

E foi assim. Chegamos a Guarulhos, sãos e salvos, por volta das nove da noite. Depois de ouvir um pedido de desculpas do comandante pelo atraso “porque a segurança é mais importante”. E logo após da chefe de comissários, o que seria melhor não tivesse sido feito: “apesar de tudo (o que vocês aprontaram) desejo bom ano novo”. Por um instante pensei na pensar na sorte dos tripulantes: e se os passageiros tivessem pedido para descer com o avião no ar, em meio aos solavancos?

 

A volta para Salvador foi ótima, por precaução desencanei desse negócio de conferir a classe social dos passageiros.

 

Concluído o taxiamento da aeronave no Dois de Julho, um senhor na poltrona ao lado, que me pareceu depois um lavrador, sacou o celular:

 

- Josias, cabemos de chegar...

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