Sábado, 11 de Janeiro de 2020 - 05:11

É muito tarde para não te amar

por Ruy Espinheira Filho

É muito tarde para não te amar
Gravura: Fernando Oberlaender

Soneto da negra

a Maria da Paixão

 

 

 

A cor da suavidade é que a modula.

Nela se abisma a luz e se revela

incapaz de alterar nada daquela

penumbra que atrai, absorve, anula.

 

Nessa paisagem que coleia, ondula

como um rio, ou o mar (e é dela e ela),

um vento violento me desvela

um animal que me trucida e ulula.

 

O tom da suavidade não se altera,

eleva um canto cálido e me diz

que são garras de amor, e é bela a fera.

 

E assim, em carne rubra e cicatriz,

entrego à cor profunda que me espera estes despojos em que sou feliz.

 

 

 

 

Essa mulher

 

A que nunca amei e me ama pensa em mim à noite

antes de dormir, e nos escombros do sono vê o meu rosto suave, arrogante, de há muitos anos

e sente uma mão fria empunhar-lhe o coração.

 

É bela a que nunca amei e me ama, cada vez mais bela

com seus cabelos soltos ao sopro da memória,

com uma voz onde sonham luas que jamais iluminaram

um caminho me levasse à que nunca amei e me ama.

 

É doce essa mulher que acorda e diz o meu nome

com unção. Seus olhos me fitam do longínquo

e doem em mim como dói nessa mulher que me ama

amar quem nunca a amou, disperso em seus enganos.

 

A que nunca amei e me ama acaricia a minha ausência

com pena de mim, que teria sido feliz, bem sabe,

se a tivesse amado; a ela que me ama e nunca amei 

e nunca hei de amar, como até hoje, amargamente.

 

 

 

 

Soneto de um amor

 

Quando chegou, nem parecia ser.

Agora é isto, este pulsar violento

a rir à toa, a crepitar no vento,

e este oceano, e este amanhecer,

 

mais estas comoções de anoitecer, 

mais estes girassóis no pensamento,

raio fendendo a alma (lento, lento...), e esta estranheza de dizer e crer,

 

e este ácido pássaro no peito,

e uma ternura ardendo na ferida,

e um silêncio, e um fragor, e o céu desfeito

 

por sobre tudo, e a lua comovida

chorando um choro cândido, perfeito

a esta tortura do esplendor da vida!

 

 

 

 

Soneto da lua antiga

                                                                                                                                                  

De repente ficamos muito antigos.

Em teu olhar ainda reluz a lua,

porém distante, sobre antiga rua

de onde vêm farrapos de cantigas

 

antigas como nós. Um desabrigo

me ofende a alma ao pensar-te nua

agora, sob a luz dura da lua

que não é a outra lua, a lua antiga

 

que do teu corpo retirava o brilho

com que inundava o céu e a minha vida

em vastidão de amor, cálida lua

 

que já não vem – ou só como esbatida lembrança dos teus olhos,

desde quando, de repente ficamos muito antigos.

 

 

 

 

Soneto de julho         

 

É muito tarde para não te amar.

Tudo o que ouço é o sopro do deu nome.

O que sinto é teu corpo, que consome – presente, ausente – o meu corpo. Luar

 

em que me abraso, morro: teu olhar ofuscando memórias onde some

um mundo, e outro se ergue. Sede, fome

e esperança. Ah!, para não te amar

 

é tão tarde que tudo é já distância,

que só respiro este luar que me arde,

este sopro sem praias do teu nome,

 

esta pedra em que pulsa e medra a ânsia

e esta aura, enfim, em que me envolve (é tarde!)

o que és – presente, ausente – e me consome.

 

 

 

 

Campos de Eros

 

Amor: esta palavra acende uma

lua no peito, e tudo mais se esfuma.

 

E testemunho: eis que Amor deixou

ferida cada coisa que tocou.

 

E tudo dele fala: a mesa, a cama

(como abrasa este hálito de chama!),

 

o bar, cadeiras, livros e paredes

vivem, revivem: de fomes e sedes

 

a corpos saciados. Tudo fala,

tudo conta. Só a boca é que se cala.

 

Amor. Do extinto pássaro, o voo

prossegue, inexorável. Mas perdoo,

 

eu, essa lâmina que me escalavra,

revolve em mim, em sua funda lavra

 

amor, restos de amor, gestos quebrados, enganos, mais amor, olhos magoados,

 

e fúria, e canto, e riso, e dança, e dor.

E a Quimera. E amor, amor, amor

 

por toda parte trucidado e em flor.

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