Sábado, 07 de Dezembro de 2019 - 05:04

A viúva Machado

por Helenita Monte de Hollanda

A viúva Machado
Foto: Biaggio Talento

O culto a seres fantásticos desde sempre relacionados ao uso da imaginação tem sido fermento a fazer crescer o bolo cultural de povos e a demonstrar um certo prazer oculto no sentir medo a partir de uma posição de segurança. 

Tal fascínio tem se mostrado em manifestações universais na literatura oral em contos e cantos pedagógicos de "fazer medo" como dispositivo de amedrontamento e correção. 

Daí bicho-papão, cuca, papa-figo, velho do saco, lobisomem e outras entidades que põem limites às "perigosas" incursões infantis a beira de precipícios. 

O medo também serve para garantir a unidade dos grupos sociais fortalecidos em unidade por temores reais e outros nem tanto.

Não há tempo ou civilização em que o medo não esteja presente. Está nas canções de ninar deixando aos bebês a opção única de fugir do medo adormecendo, nos contos ouvidos com olhos arregalados e cabelos em pé sob as noites escuras de um Brasil interiorano a cada dia mais desperto e empobrecido em sua oralidade e cancioneiro populares.

Mas deixemos aos textos escritos que pretendemos as teorizações! Por enquanto ficam pérolas de personagens fantásticos do imaginário brasileiros que, mesmo universais um dia, nos chegaram e dele nos apropriamos fazendo-os nossos, objetos de pavor e de gozo.

Há até um ciclo, nos estudos da nossa cultura, que se denomina "ciclo dos pavores infantis que a noite traz".

Já era plano nosso a exibição de uma série que veiculasse os monstros e assombrações brasileiros. Agora ousamos fazê-la e, regularmente, traremos personagens consagrados pelo nosso rico imaginário popular.

 

 

1.

Entidade encantada dos rios, o Nego d'Água é presença visível no São Francisco a perturbar caçadores de peixes como Manoel Capote.

Causa aflições a quem o provoca e, dizem, protege os rios. Vira embarcações, fere e até devora pescadores!

Há quem, ao sair para o trabalho no rio, leve consigo uma garrafa de cachaça como oferenda a ser jogada em águas fundas.

Por vezes chamado Bicho, recebe o tratamento de Compadre dos mais temerosos e respeitadores.

Guardião das águas do São Francisco, é descrito como grande negro e careca. Para alguns tem pés de pato. Em comum, o assombro que causa a quem o vê.

 

 

2.

Homens e mulheres pálidos, condenados por doenças hepáticas ou do sangue, estão na origem do mito que coloca caçadores e comedores de fígado humano entre as histórias mais populares a causar temores em crianças e outros ingênuos.

Leprosos, melancólicos, coléricos, anémicos... Menos maldosos que temerosos com o morrer, os papa-figos são pessoas temidas de hábitos marcantemente noturnos. Homens a carregarem sacos nas costas para recolherem crianças em horas de fazer-medo. Mulheres amarelecidas por males de humores apavorando a meninada.

Na Cidade de Natal a Viúva Machado sempre trancafiada em seu palacete próximo a Igreja do Rosário, hermética em sua solidão enlutada e sem filhos, na Cidade Alta, é marca do nosso medo infantil, adolescente - nunca andar em bicicleta nem correrias ruidosas naquelas calçadas.

Nosso neto, menino hoje em seus 12 anos, conheceu pela avó materna o temor ao Homem do Saco, um tal Velho Quinquim, de quem eu o protegia, criança com olhos arregalados.

É mito abrangente encontrado em vários países e traz na Lepra uma justificativa universal para instalar-se, sendo crença popular que os leprosos encontrariam cura em receituário peculiar feito a partir de fígados de criança, daí os mercadores de fígados e o comércio franco e assustador de vísceras entre os doentes a estabelecer lenda urbana nacionalmente tão marcante.

 

3.

Entidade fantástica a assustar meninos a Cuca é espécie de monstro antiquíssimo trazido pelo colonizador com feições de jacaré, unhas longas e dentes afiados, pronto a devorar meninos teimosos e insones.

A cada sete anos adormece deixando em paz as crianças a custarem em balanços de rede, mas, via de regra, espreita os teimosos que desobedecem aos pais e mantêm-se em brincadeiras quando a hora do sono já e passada.

Na canção de ninar de cadência monótona e conteúdo aterrador, a criança desamparada por um pai na roça e uma mãe a trabalhar, só tem mesmo que dormir como opção ao rapto certo pela velha com feições assustadoras que se incumbe de levá-los e que ocupa os telhados das casas onde a presença de meninos desobedientes é certa.

A lenda é portuguesa e trata-se lá de um Coca, entidade masculina, encarnação de um velho feio perseguidor de crianças "insones ou faladoras".

 

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