Sábado, 30 de Novembro de 2019 - 05:01

Tranquilino papo reto

por Carlos Navarro Filho

Tranquilino papo reto
Foto:acervo pessoal

Hoje amanheci virado, os copos virados ontem dia e noite até mais de meia noite definitivamente não ajudaram um acordar condizente, logo hoje que tenho de entregar à editora a sinopse de um novo conto, com a história de Tranquilino Papo Reto. Não é do meu feitio furar compromissos para não ficar desmoralizado com o patrão, esse negócio de receber adiantado para escrever é bom e não é bom e escrever estuporado sobre uma figura que não vejo há uns bons trinta anos me intranquiliza porque é uma figura muito rica e sem essa riqueza ele vira um personagem comum e nada pior que um personagem comum que exige um talento que não tenho para torná-lo um belo personagem, rico, interessante, criativo. Por sorte essas poucas linhas aí já embotaram os resquícios do álcool, sinto que os dedos já não tremem tanto, embora a vontade de morrer causada pela vontade de vomitar sem ter vontade de vomitar continue, dificuldade adicional que espero superar acendendo um cigarro e bebendo um gole d’água com uns descongestionantes de fígado, o ideal seria um cigarro e um cafezinho fresco e forte, mas morre quem tem coragem de levantar daqui para fazer café, morrer é mais fácil e encorajador.

Conto é conto e gosto de começar do jeito que ouvia do meu avô com o era uma vez. Sem era uma vez não havia fantasia em nossa fantasia de meninas e meninos sentados ao redor daquele velho forte, caboclo, cabelo ralo e barbicha brancos pitando o cigarro de palha com o fumo de corda picado tirado de uma mochilinha de couro de cabra, enrolado, devotamente lambido nas extremidades e acendido no maior espetáculo da terra na minha imaginação quando ele sacava o binga da algibeira, armava-se de uma pecinha de metal que vinha pendurada e batia em uma pedrinha que soltava faíscas na parte superior do apetrecho até pegar fogo no pavio e com ele acender o cigarro, as crianças sem piscar, olhar extasiado, então o velho olhando imponente em cada olhar e com o ar solene dava a primeira baforada. Quem viu jamais esqueceu.

Era uma vez... dizia pausadamente à plateia inebriada que ouvia feliz, tensa, triste ou assustada as narrativas de caiporas, Pedro Malazarte, Jeca Tatu, o nego d’água do rio, almas penadas, mulas sem cabeças, imensas sucuris que engoliam bois, cabras e porcos e das quais ninguém devia se aproximar porque também engoliam gente, principalmente crianças desobedientes que fossem sozinhas brincar na beira e tomar banho no Rio Paraguaçu que banhava nossa aldeia. Ninguém arredava pé dali antes de escurecer, galinhas e passarinhos dormindo no poleiro e nos galhos, para ir dormir e sonhar sonhos felizes de criança ou mesmo pesadelos felizes de criança porque no dia seguinte a lembrança era sempre da história que mais marcou, e o pesadelo tornava-se uma lembrança feliz, quando o sol raiava todo mundo continuava criança feliz. Meu avô era nosso deus, totem de cigarro de palha pendurado no beiço com o seu vozeirão, andar ligeiro e uma permanente aura envolvendo-o ao caminhar, ao sorrir espalhafatosamente, sentado à mesa comendo feijão com fato o prato que mais apreciava. O sol nascia para ele e o tirava da cama já com as tarefas da manhã devidamente conversadas com os filhos e agregados na noite anterior, depois da retirada das crianças, enquanto pitava um cigarrinho e engolia a segunda jurubeba do dia, um santo remédio para tudo. A primeira faina seria bater sessenta quartas de feijão seco no terreiro, devidamente conferidas pelo capitão do mato do fazendeiro em cujas terras vivia de meia plantando feijão, milho, mandioca, abóbora e melancia em seus trinta alqueires, era um homem rico o meu avô e exibia com orgulho as mãos grossas e rachadas de calosidades a ponto de quebrar ao meio um tijolo de rapadura sobre a mão esquerda espalmada com uma única martelada de mão fechada e a se gabar que na casa dele a família e os amigos sempre tinham o de comer. As histórias do meu avô me ensinaram a vida e depois eu conto a história do seu Tranquilino. Hoje é segunda-feira, três da tarde, hora e dia de profissional beber. Amador bebe, e vai à praia, no fim de semana, quando é fácil estar na companhia de amigos e as praias cheias de meninas. Quero ver em uma segunda ou terça feira quando estão vazios os bares e as praias. É preciso ter competência.

 

 

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