Sábado, 16 de Novembro de 2019 - 05:02

O instante em que se pousa o lápis

por Antonio Brasileiro

O instante em que se pousa o lápis
Foto: Tribuna Feirense

O SIM & OUTROS ACHAQUES

 

A vida inteira anulada

por falta de outros desígnios,

 

eis que voltamos ao parque

onde os homens se congregam:

 

ninguém jamais sabe ao certo

onde o sim das grandes aves,

 

singramos por mares mansos

que julgáramos esquecidos —

 

mas eis que a vida se perde

por falta de outros desígnios.

 

Ou não se perde: é só isto.

 

 

 

 

        A BENÇÃO

 

        As cartas de meu pai eram singelas.
         Diziam só as coisas triviais:
         Como vai, filho? Seus estudos vão bem?
         Vamos em paz. Sua mãe manda lembranças.
         A benção do
                             Seu Pai.

         E, num p.s. — Seguem cem mil reis.

         À sua morte, herdamos: três bengalas,
         o relógio de bolso, uma agenda de notas
         e um par de chinelos que nem foi usado.

         Não importa.
         Onde ele está soe se andar descalço.

 

 

 

        

 DÍSTICOS

 

        Há os silêncios ocultos
         e o não ter o que dizer.

         Há o vulto dos passados
         e a consciência calhorda.

         A corda para enforcar
         sustém o sinos da igreja.

         Não há consertar o mundo:
         o mundo é um desconcerto.

         Há as tuas e as minhas raivas
         e os meus e os teus perdões.

         Ao cabo somos nós mesmos
         inventando as soluções.

 

 

 

 

A ESPUMA DAS COISAS

 

A grande ilusão do insustentável.

O lama e os não-desejos.

A imensidão de um cosmos de brinquedo.

O estrelejar do hoje versus

o princípio. Ou o

         precipício.

 

Sossega, peito meu, és só a espuma

das coisas vãs gozadas uma a uma.

 

 

 

 

O OFÍCIO

 

No fim dos tempos,

vou estar numa casinha de palha,

uns livros, um lápis,

papel almaço, a alma pura

e uns rabiscos pra ninguém ler,

         só

         me confessar.

 

Ao deus dentro de mim, primeiramente.

E a quem não interessar possa.

 

 

 

 

ESTUDO 179

 

Quero fazer um poema reto.       

Sem emoções — que essas nos embaçam.  

Sem sutilezas semânticas ou glaxúrdias

Gramáticas.
                    Quero fazer              

 um poema simples, sem sentido.  

(Que o essencial não tem sentido.) 

Quero escrever como se uma árvore .  

soubesse olhar as nuvens: um poema

que só por existir se explique e me explique.

 

 

 

 

 

            8.

 

        Poeta, a eternidade
         é só o instante em que se pousa
           o lápis.

 

 

 

 

ESTRADAS PLANAS

 

1.

A sombra da tarde imensa
— e certas vidas esconsas.

Os grandes subterfúgios
— onde, nas tardes, se escondem?

Eis que a tarde passa e esplende;
tons de escuro

Tingem a barra do horizonte.
Quem nos chama?

 

2.

A tarde seus olhos bons —
nos vela. Estradas planas
se perdem, nem tudo é longe:

às vezes é uma saudade
que nos encanta. Ser homem
 é estar na tarde.

 

3.

Na vastidão das coisas findas,
o homem imprime seu sonhos de ficar.
 E fica.

 

 

        

 

 ANOTAÇÕES DO IMEMORIADO

 

         Há uma rua e um erro,
         e o mar sem nenhum regresso.
         Edificamos no vento
         é o que nos resta.

         E esta flor amarela
          no jarro.

 

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