Sábado, 09 de Novembro de 2019 - 05:03

Quem é essa mulher e outros poemas

por Otto Freitas

Quem é essa mulher e outros poemas
Capa:Luis Eduardo Gómez - P55 Edição

Quem é essa mulher

 

 

 

 

Quem é essa mulher,

que me faz menino,

mas não quer brincar;

canta cirandas,

mas não entra na roda.

 

Quem é essa mulher,

que desperta a noite,

faz a lua pratear a janela,

mas não vê as estrelas.

 

Quem é essa mulher,

que mente por trás dos olhos,

sem lente e sem véu,

jurando infidelidade eterna.

 

Quem é você, amor,

que prefere a colheita à toa,

sem regar e semear o ventre,

e quer ser mulher sem ser pessoa.

 

 

 

 

Banheira de girassóis

 

 

Banho quente todo dia,

entre bolhas imaginárias.

A cada verso a vida

escorre entre os dedos.

Eram todos fetos. 

Mergulho na banheira,

até o outro lado do mundo

que não é Japão.

Saio quase morto,

no meio dos girassóis,

para renascer depois,

em Shangri-lá ou Serinhaém,

tanto faz,

nunca fui lá nem cá.

 

 

 

 

Gim tônica

 

 

Vou me mudar para ontem,

quem sabe anteontem.

Reencontrarei pessoas que jamais conheci,

tão íntimas que mal sei seus nomes.

Talvez eu tome aquelas quatro doses

de gim tônica,

copo longo,

cheio de assunto e muito gelo.

Clarear o juízo,

refrescar o olhar,

lembrar direito do futuro sem flores,

tudo sujo feito pé de vento no deserto.

Foi o fim do mundo que chegou

ontem,

quem sabe anteontem.

 

 

 

 

Narguilé em Teerã

 

 

Na Brodway tem uma van

carregada de morte.

Todos passam, ninguém vê.

Catam lixo na sala de estar,

enquanto o óleo vira mar,

anunciando o fim do mundo.

 

Os assassinos estão soltos,

o homem-bomba dança rock n’roll.

Os outros, todos presos,

esperam a hora chegar.

O rio morre na lama,

 já não se navega mais além do blues.

 

Vamos fumar um narguilé em Teerã,

antes que acendam todos os pavios.

Se não for agora, será qualquer dia,

Mas quem vai saber a hora?

 

 

 

 

A seus pés

 

 

Deixei suas sandálias sob a cama,

para  você calçar quando vier do riacho,

junto com o último raio de sol.

Todo fim de tarde eu espero,

com suas sandálias sob a cama.

Mas você nunca mais voltou.

Sinto saudade dos seus pés,

tão pequenos, delicados, lindos,

sob as águas do riacho.

Suas sandálias continuam sob a cama.

 

 

 

 

Dengo

 

 

Dengo do qual desfiz

só para brincar,

esconder o medo.

 

Dengo de quem fugi,

por querer mentir,

desfazer de tudo.

 

Dengo que me deixou mudo,

no encantado da noite,

copo quebrado na estrela.

 

Dengo que eu tanto quis

e que tanto fiz

para guardar em mim.

 

Dengo que perdi

e acabei assim,

sozinho, infeliz.

 

 

 

 

Asas do sonho

 

 

Tão intensa é a noite

que vira dia,

desperta o céu

e todas as estrelas.

Acorda sonhos,

faz a gente voar

com asas

imprudentes.

 

 

 

 

Itaparica do meu avô

Para meu avô Miranda

 

 

Na ilha do meu avô tinha

sombra de mangueira,

manga rosa e carlota,

mangaba no chão,

caju, jabuticaba

e sapoti no pé.

 

Sempre tinha dendê,

no cacho e no tacho,

siri no jereré e na lata,

sardinha, cavalinha e caçonete,

peixe na rede e no anzol,

na frigideira e no alguidar.

 

Tinha água da fonte e da bica,

no porrão e na moringa.

Tinha Seu Pedro aguadeiro,

com seu cachimbo de pau,

Seu Teodoro de dona Maria,

cavaleiro que era o tal.

 

Na ilha do meu avô tinha

cantoria de passarinho,

banho de balde na fonte,

preguiça na rede da sala,

velas de saveiros ao vento,

entre os coqueiros antes do mar.

 

No silêncio fresco da noite,

sob a luz do candeeiro

e o brilho dos vagalumes,

tinha lagartixas e sombras

nas paredes do casarão,

diversão antes de dormir.

 

Na ilha do meu avô tinha onda

batendo no cais do Belvedere,

praia e baba na maré baixa.

E por trás das muralhas do forte

os meninos davam caídas

da ponte do velho navio.

 

Nos jardins do Boulevard

tinha espreguiçadeira na porta,

dona Da Hora com seu tabuleiro,

de cocada, apanam e acaçá,

sorvetes e beijos dos namorados,

no cinema de Waldemar.

 

Na ilha do meu avô agora

tem facada e tiro no cais,

toque de recolher ao por do sol.

Tem morte no velho beco,

sob o céu dourado e lilás.

O que será depois da ponte?

 

 

 

 

 

 

 

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