Sábado, 06 de Julho de 2019 - 09:32

Operação Golem

por Flávio VM Costa

Operação Golem
Foto: arquivo pessoal

Isaac era o alvo principal da Operação Golem. Somente ele sabia como aquelas fraudes conectavam barracos do Bairro da Paz a apartamentos luxuosos do Itaigara, Graça e do Corredor da Vitória e mansões do Horto Florestal e Alphaville, passavam por gabinetes de desembargadores e secretários no Centro Administrativo da Bahia, seguiam pelas obras às margens da Avenida Paralela e estacionavam por alguns minutos em condomínios de classe média na Pituba, deixavam Salvador para desembarcar em Brasília e em São Paulo e depois se alastravam pelo mundo. Isaac era o Rabi de Salvador que criava homens feitos de papeis falsos e números quase cabalísticos, números que viravam cifras, cifras que voavam de Salvador a Montevidéu e continuava por Lagos, Cidade do Panamá, Luxemburgo, Amsterdam, Genebra e outras cidades, quase no mesmo segundo; cifras que alimentavam irreais construções de resorts no Caribe, e financiavam maquetes de hospitais para crianças em Bangladesh, que nunca seriam erguidos; cifras que asseguravam a existência de fazendas de café nos arredores de Nairóbi, onde nenhuma muda era plantada, e de agências petrolíferas em Luanda, que nunca perfuravam poços; a manutenção de Ongs que socorriam doentes inexistentes na Amazônia peruana, e outras falcatruas internacionais. Um mundo espectral de offshores que apenas fazia sentido e tinha realidade na mente de Isaac. Os chefes do Esquema mal apreendiam dez por cento de toda aquela trama; apenas recebiam os dividendos resultantes da mente operativa de Isaac, e se concentravam nos negócios reais da organização.

Penélope teria que fugir comigo, Isaac pensou. Se ela o rejeitasse, esperaria com o revolverzinho em punho os policiais federais à porta do apartamento de Nazaré, às seis horas da matina. Com certeza, nem atiraria. Apenas receberia os projeteis policiais, de bom grado.  Isaac se recusava a ser transformado em mais um rosto-emblema da corrupção brasileira. Um novo personagem para contos morais na imprensa, um nome que os populares passariam a associar à ladroagem. Um rosto perfeito para máscaras de carnaval e caricaturas na internet; um rosto preto de esquivo olho direito, um nariz largo e achatado e lábios carnudos. Um rosto que o país sempre associou ao roubo, mas o roubo violento, o típico rosto do assaltante; o rosto que a classe média teme nas noites insones protegidas por grades guardadas por outros rostos pretos, o rosto com o qual as mulheres brancas se assustam com bolsas coladas junto aos seios, quando o encontram na rua; Isaac sabia que no imaginário popular rostos pretos não combinavam com crimes de colarinho branco. Seria um integrante sui generis na lista dos grandes corruptores brasileiros. E sempre sob o risco de ser eliminado pelo Esquema.

O preto aqui, pensou Isaac, está pouco disposto a cumprir o papel. Um homem tem que atuar, de acordo com seu próprio roteiro.

 

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