Sábado, 15 de Junho de 2019 - 05:06

O intervalo do diabo

por Jeremias Macário

O intervalo do diabo
Foto: Divulgação

Salustiano Querosene do Pavio é um trabalhador braçal que nasceu e vive há anos nos confins dos grotões deste Brasil que muita gente diz que é aonde o diabo gosta e o vento faz a curva, cafundós do Judas ou o fim do mundo. Salustiano e a gente daquele pedaço de chão nem existem como seres humanos cidadãos, mas já ouviram falar das artimanhas do Diabo, ou do Belzebu Satanás chifrudo que não perde um descuido ou um intervalo de fraqueza para roubar uma alma.


 Quando Salustiano não tem dinheiro, e isso é quase sempre, para comprar na venda o querosene de acender o candeeiro pra clarear seu casebre, ele apela para o óleo de mamona extraído dos bagos pisados no pilão. O pavio é feito do algodão colhido de um pequeno plantio de sua roça. Quando não tem algodão vai mesmo um pedaço velho de pano. O pior de tudo é a escuridão quando o Diabo mais aprecia para fazer suas assombrações.


  Teve um tempo que Salustiano vendia querosene e pavio, mas o negócio não foi pra frente por causa dos fiados que não recebia. Restou o seu nome dado pelo povo. Essa expressão “pobre diabo”, pessoa que trabalha como condenado e nada tem, escrava do poder e que não incomoda ninguém, é o típico Salustiano.


   Mesmo temente a Deus, ele sabe e sente na carne e na alma que é um “pobre diabo”, só não sabia que desde a antiguidade, nos tempos dos bárbaros, antes e depois de Cristo, inclusive nas Cruzadas e na Idade Média, existiu uma sociedade secreta chamada de “O Intervalo do Diabo”, onde a entidade era reverenciada como deus da fortuna para uns poucos e da desgraça para os que se arrastavam na miséria e na ignorância.


 Com ou sem sociedade, o Diabo, que não é nada de pobre, não dispensa seu intervalo na concorrência com Deus e sempre aumenta seu espaço através dos tempos, ainda mais materializada nos atuais, sem precisar de muito esforço e tentação. Às vezes, Ele se disfarçar de Deus para atrair a atenção e conseguir mais e mais intervalo, inclusive em horários nobres. A competição é uma arte na busca por mais clientes, e a disputa é acirrada.


  Sem perceber, Salustiano sempre está caindo no papo Dele, mas não é só ele que é iludido, é muita gente mesmo, sem contar que o danado Rabudo é exímio marqueteiro e garoto propaganda dos templos sagrados. Se nas inquisições da Idade Média Ele deitou e rolou, agora na era do consumismo o Lúcifer está se esbaldando. O charme é que para confundir, o Diabo tem vários nomes e passaportes diferentes. Roda o mundo em mil disfarces exibindo suas artimanhas. Pode até ser feio para muitos, mas que o bicho é popular, isso é!


 Tem-se como certo que o Diabo é tirânico e vingador, mas esta caricatura também foi imputada a Deus pelo Antigo Testamento e através dos temidos frades pregadores da Igreja Católica com suas palavras que cortavam como chibatadas salgadas nas almas pecadoras condenadas a arder no fogo do inferno. Nos púlpitos condenatórios, o Diabo triunfa e ganha seus intervalos.
 Dizem que Ele está sempre na espreita em cada rota, em cada estrada e encruzilhada da vida atrás do seu precioso intervalo em forma de prazer e dor. Salustiano Querosene sempre teve um bom coração e cuidou bem da sua família. Quando podia, ajudava seus semelhantes e procurava cortar outro caminho para desviar do Diabo, mas o capeta estava sempre na moita.


 Um dia Ele chegou na varanda de sua casa bem de mansinho e cochichou uma intriga em seu ouvido de que sua mulher estava lhe traindo com seu melhor compadre. Pior que Salustiano já trazia uma ponta de cisma da amizade e do olhar entre os dois. Com o intervalo que conseguiu, o Chifrudo agora podia voltar depois para fazer o serviço completo.


  Com aquilo no juízo, Salustiano Querosene, marcado pelas labutas do dia-a-dia, sem sucessos e sem garantias de uma vida melhor, foi se enchendo de raiva e amargura em seu coração. Os pensamentos ruins formigavam em sua cabeça roendo seus neurônios. Sempre foi temente a Deus, mas o Diabo tinha seu intervalo.


   Sacudido por mais um fracasso em sua roça castigada pela seca e num intervalo fulminante da ira, Salustiano sangrou sua mulher em frente dos filhos. Matou ainda seu compadre vizinho e sumiu no mundo para terras estranhas onde ninguém nunca mais o encontro.


  Todos disseram por aquelas redondezas que Salustiano estava com o Diabo no corpo. Alguém contou que o viu com uma peixeira na mão passar veloz como o vento no cruzamento do povoado mais próximo. Parecia mais com uma onça escorraçada depois de um ataque surpresa. Rápido, o “pobre diabo” melado de sangue sumiu no agreste cinzento da paisagem árida.    
 
   


NA ESPERA DA GRAÇA
O tempo se arrasta tinhoso
Como agente espião do mundo
No árido perdido do nada,
Do riacho rachado profundo,
Onde pia de fome a perdiz,
O boi berra de sede na baixada,
E vai o velho com sua enxada,
Vagando no vento lamentoso
Na terra do Deus que assim quis.

 

A seca devorou toda a roça,
Morreu o jumento e o cavalo,
Da mandioca a última massa,
E assim o roceiro só leva coça,
Como castigo que vai e volta,
Enfrenta a dor da perda com raça,
Laça a palavra vinda do altar,
Solta sua fumaça tragada ao ar,
Esperando dos céus uma graça,
Sempre com mãos cheias de calo.

 

A procissão de pedra passa,
Como cobra cortando a praça,
Para o alto do cruzeiro sagrado,
E o povo canta, ora e chora:
Perdoai Senhor, perdoai Senhor!
Com a benção da Vossa Senhora,
Perdoai todos nossos pecados,
Por termos cometido tanto mal
Que nem a planta deu sua flora,
Perdoai Senhor, Perdoai Senhor!
Nos dê água ao invés do sal.

 

Da última chuva guardo no frasco,
Como um penitente nordestino,
Crente como beduíno em Jeová,
De uma graça sempre a esperar,
Que nos libertem deste carrasco,
Desta coberta curta do puxa e encói,
Desta taça amarga de tanta trapaça,
Dos governos e dos reais capitais,
Cheios de pontes e fachadas de cal
Que prometem o milagre do maná,
E ao invés de água nos mandam sal.

 


NAS CILADAS DA LUA CHEIA
Os lobos ficam moucos na lua cheia,
Do Planalto prateado do céu tropical,
Onde os bandos fazem sua farta ceia,
Vinda do arado suado braço serviçal.

 

As hienas viram renas na lua cheia,
Para a engorda gulosa do grande dia,
Enchendo seus trenós em cada aldeia,
Para mais quatro anos de mordomia.

 

Os ratos armam ciladas na lua cheia,
Os malignos vendem gato por lebre;
A mente pobre segue o canto da sereia,
E quem sempre paga o pato é a plebe.

 

Depois dessa festa da lua cheia,
A chama da fé começa a minguar,
Até a veia da esperança vai-se embora,
Chora o velho, a senhora e a criança,
Na falta da justiça, do remédio e o pão,
E do direito digno de viver e sonhar,
De não mais ser boiada de patrão.

 

No aboio, ou no rasgo da guitarra,
Vamos embora, minha gente!
Esse tempo de espera nos devora!
Vamos embora, gente forte valente,
Não mais no aguardo do Deus dará!
Vamos acabar de vez com a farra
Dessa vil bicharada em nosso luar.

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