Sábado, 08 de Junho de 2019 - 13:35

Boquira, a descoberta do padre

por Carlos Navarro Filho

Boquira, a descoberta do padre
Arte: Bira Paim

Faz um calor do cão nesta quarta-feira 3 de fevereiro de 1954. Desde as onze da manhã, quando deixou o velho jipe por falta de passagem no terreno acidentado, o padre Nazário sacoleja sobre a burra pela catinga, saído de Oliveira dos Brejinhos com destino à Fazenda Pajeú, em Boquira. São quase cinco da tarde e o esdrúxulo conjunto de batina de gabardine preta, aberta ao peito, camisa que um dia foi branca e colarinho eclesiástico de pano encardido e ensopado de suor, exala uma morrinha de doer. Sob os panos da batina vê-se as pernas da calça de brim marrom, bainha italiana puída pelo contínuo atrito com a botina preta de meio cano e solado de couro. Padre, gordo, ou magro, ou qualquer outro cristão que use o mesmo hábito religioso anos a fio tem um cheiro característico. Nazário não é gordo, embora já ostente uma certa pança, e também não é idoso, mesmo aparentando bem mais que os 45 anos de idade. Mas o cheiro do corpo e batina é conhecido, denuncia-o a presença. O calor e a poeira do sertão nunca o aproximaram muito de água e sabão, é useiro contumaz da meia sola no tacho de cobre, toda manhã, sobre o tampo do tanque de aparar chuva, construído em alvenaria no fundo da casa paroquial. Que o Senhor não me deixe em débito, mas já é tempo de ir embora a uma freguesia mais abastada. Aqui é só miséria, o povo não precisa mais de mim, o meu rebanho carece de um jovem com disposição de enfrentar esse clima miserável. Já estou ficando velho, enterrado em vida neste inferno.

 

   - Aquele é o Morro do Pelado. O aviso de Codó, que caminha à frente da montaria, interrompe a peroração. Um largo sorriso brota na cara do caboclo, protegida pelo chapéu de palha. Agora tá pertinho. Quase não se falaram a viagem inteira, prosear em marcha significa atraso. O sorriso largo de Codó alivia Nazário, que faz tempo tentava mudar os maus pensamentos, por medo de suas queixas estarem passando da conta.

 

   O caboclo, ainda iberbe, é o motivo momentâneo dos seus infortúnios. Os andrajos sem cor que o cobrem, um dia foram de gorgorão azul. As pracatas de verdureiro, três tiras de vaqueta e solas de pneu, expõem unhas retorcidas e pretas nos pés rachados. Na véspera, Codó bateu seis léguas varando a noite e amanheceu no ponto da estrada combinado. A avó, Deusina de Filó, está à morte e tem que receber a extrema-unção para bem chegar diante de Deus. É a tradição na família. Mulher da casa de Filomena de Botirama jamais deu gostinho a satanás de ir para o inferno. Os homens, esses que se virem, mulher não, não pode morrer sem a unção dos santos óleos.

 

   O dia inteiro mirando o cangote de Codó, no seu passo largo ali na frente, o padre, quando não está se queixando da vida, dana a praguejar o tabaréu que lhe tirou de casa para vir tão longe, como é que um infeliz desse se desgarra de tão longe com fome e sede, sem medo e sem fazer cara feia, perigando ser comido por onça naquelas serras, preocupado com sacramentos para uma anciã que ninguém sabe se à esta hora já está morta. Missa nem pensar, faço a encomendação, durmo e de manhã cedo pico a mula de volta.

 

   Está o padre a consolar-se nos seus fraquejos humanos quando começaram a passar pelo serrote, já na penumbra do anoitecer. De repente, um feixe de luz clareia o cume e vira um facho que encandeia e sobressalta, assustando o animal. Por pouco Nazário não desaba sobre aquelas pepitas gigantes que aparecem inesperadamente sob os seus pés. Recompõe-se, grita por Codó. Tou aqui, Codó nem se vira. Desde criança badogueia passarinho nas redondezas e está acostumado. Só não pode é olhar as pedras demorado porque cega, se o sol tiver a pino. O padre esquece as dores, comenta com sua estola empoeirada, dobrada ao meio sobre o cabeçote da sela, que esses miseráveis são todos cegos mesmo, e decide que o guia vai lhe levar de volta para casa pelo mesmo rumo. Essas pedras são ouro puro.

 

   A meia légua restante o padre antes macambúzio está animado e falastrão. Saiu da letargia da viagem inteira e não parou de atiçar o mateiro com perguntas e provocações. É preciso saber de quem são aquelas terras do governo porque não há aqui fazendeiro titulado, quantos estranhos costumam passar na região, se não tem ninguém interessado naquele morro.

 

Seja bem vindo santo padre, o recebe à porta uma mulher grisalha, seios fartos despencados sobre a barriga, pitando um pequeno cachimbo de barro cozido e canudo de saúcainha, tia Deusina  esperou vosmecê  pra morrer, cortou o último suspiro inda agorinha mesmo quando Codó bateu a cancela do terreiro com sua santa pessoa. Ainda está quentinha, a alma ainda não subiu. Pode benzer que Nosso Senhor Jesus Cristo faz bom proveito.

 

   Nazário não vai se limitar à extrema-unção. Merecerá tratamento especial uma defunta tão respeitável e temente a Deus, vai ter direito a velório de muitas carpideiras e missa de corpo presente. Se precisar faço confissão e dou comunhão, hóstia eu trago sempre no sacrário do alforje. Melhor, vou passar o dia batizando, esse povo nunca vê padre, olha o estado da capela, paredes rachadas, sem reboco, aparecendo o adobe carcomido. Jurubeba e ladainhas no velório, roupa nova na missa e enterro com um ministro de Deus. Só a matriarca Filomena, bisavó de Deusina, muitos anos passados, recebeu tanta honraria lá naquelas bandas. De fato, ninguém vai esquecer este dia.

 

   A cantoria de salmos e laudas ajudam a confortar e manter Nazário acordado depois que se recolheu por volta da meia noite no melhor quarto da casa. Cama larga, lençóis alvos e limpos cheirando a patchuli. Apaga a lamparina de óleo de mamona, recosta-se sobre os dois travesseiros de pena de galinha. Ouve a cantoria e gosta, o som faz aumentar a excitação. De olhos abertos sonha com grandes barras de ouro flutuando à sua frente, ao alcance das mãos. O dia seguinte é uma dura jornada de batizados, confissões, missa, comunhão, atende gente, dá conselhos, é compreensivo e amigo. Prolonga a hora do enterro para o fim da tarde. Às oito da noite acaba de jantar e vai dormir. De manhã, Codó já o espera paramentado para a viagem. Desta vez não está saindo às pressas, tem um jumento selado, um matolão com carne de veado moqueada, rapadura, farinha e pimenta, um embornal de milho pro animal. Água vai em um cantil de couro de três litros. Nazário não consegue conter a agitação que lhe vai nalma. Monta e nem espera, sai na frente do guia solfejando um tantum ergo sacramentum veneremur cernui. Se o padre está contente, Codó está feliz e agradecido a Deus por ter cumprido tão dificultosa missão. Logo adiante Nazário percebe que o carro vai adiante dos bois e manda que Codó assuma seu posto na dianteira. O sol nem está pleno em cima das serras quando os dois chegam ao Morro do Pelado. O padre vasculha com os olhos cada centímetro do que vê. É coberto de lajedos escuros, pedregulhos, uns raros arbustos, espinhos, xique-xique, gravatá. Visto do sopé não é mais baixo ou mais alto que os demais. Uns 50 metros de altura, lá em cima a luz do sol refletindo feixes dourados das pedras é a epifania do religioso. A pedido, Codó cata duas pedras pequenas e uma terceira de bom tamanho. Dois ou três quilos não são acréscimo de peso insuportável. O padre leva de lembrança do lugar, são pedras bonitas.

 

Viagem afora o padre está de novo calado. Desde a descida do morro Codó nota que a carranca sumiu, a cara do padre está serena, quase risonha. De fato, Nazário voa longe. Faz planos com a futura mina de ouro. Lembra da infância pobre no Cabula, em Salvador, trabalhando na horta que sustentava a família, a ordenação aos 24 anos pelo arcebispo primaz Augusto Álvaro Cardeal da Silva, a chegada àqueles grotões, dois anos depois, no segundo semestre de 1939. As imagens que passam diante dele mostram a casa humilde batizada de paroquial, sem chuveiro, luxo que também não tinha no Cabula, mas agora bem melhorada, pintada a cada três anos, tem cama com colchão de lã de barriguda, fossa séptica no lugar da antiga casinha no fundo do quintal, um quartinho de dois por dois com uma privada de tijolos, o cristão cagava em cima e os porcos disputavam embaixo, do lado de fora, enfiando as cabeças pelo buraco de saída do cocô, tem um grande tanque de água de chuva, a cisterna de água salobra que dá para lavar roupa e molhar as plantas. Mas o que é isso para quem tem ouro? Não é nada, só miséria, pobreza. O bispo vai me transferir à capital do estado nem que eu tenha de construir uma igreja rica e oferecer à diocese. Antes mostro a esses matutos prefeitos, juízes de paz e fazendeiros pobres o poder de um padre rico, não vou pedir mais um tijolo para nada, o prazer de encarar olho no olho sem fazer nenhum pedido, o que vale o respeito que o povo me devota se não tenho sequer um automóvel, para viajar é preciso tomar esse jipe da segunda guerra emprestado, ou então arrebentar lentamente as costas em cima de uma mula velha?

 

Codó é apelido. Meu nome é Clodoardo Macambira dos Santos. Era meninote, me lembro, me pediram para ir buscar o padre e Januário só teve tempo de preparar as montarias. A velha tava doente de morte e foi a primeira vez que ele pisou no Pajeú. Cheguei no pé da manhã e ele ainda não tinha aparecido. Fiquei preocupado porque Nenzinha disse que não podia perder tempo, a velha não ia aguentar o atraso. Quando ele chegou só disse bom-dia, vamos, mais não disse. Era branco, mais baixo que alto, cabelo preto meio crespo, corpulento. Tinha um vinco em cada lado do nariz grande, que não era bonito, mas homem santo é assim, muito preocupado com Deus. Foi bom não ter prosa porque era muito chão pela frente e a gente tinha que aviar. Ele tirou a rédea da burra e eu pensei, esse aí é vaqueiro. Adiante, muito pé de um umbu carregado, sem dizer palavra ele apeava enchia a casacona e só jogava caroço no mato, que nem budelo. No Morro do Pelado ele encarou a serra que não pinicava o olho. A gente chama de Pelado porque lá nunca teve mato. Na volta pensei outra vez no interesse do padre por aquela serra, coisa besta, levou aquelas pedras brilhantes como todas na região, sem qualquer serventia a não ser fazer cerca de mureta pra não deixar criação escapar.

 

O que Codó não sabe é que aquela extrema-unção em dona Neusina de Filó mudará a vida de todos em Boquira. Dois dias depois aparece o padre no povoado. Veio por um caminho diferente e entrou na rua de jipe, acompanhado de Arly Sampaio, Agenor e Serafim Oficial. Atravessou e foi direto à serra, não deu ousadia a ninguém.  Encheu o carro com quatro ou cinco pedras grandes e foi embora. Mais de mês depois, voltou só com Agenor, o farmacêutico.

 

- O primeiro exame, os cientistas disseram que deu fraco, conta o velho João de Zé de Bárbara. Daí que o padre voltou e pegou mais pedras. Desta deu galena viva. Aí ele mudou o proceder. Vinha muito aqui, duas, três vezes na semana. Passou a agradar o povo, celebrava missa todo domingo, perdendo as obrigações com a paróquia dele. No sermão dizia que precisava da assinatura do povo para um abaixo-assinado que ia levar para o governo mandar construir uma igreja nova. Numa folha de papel pautado em branco os moradores assinaram, aí quando já tinha umas duas folhas cheias de assinatura do povo tolo, o padre sumiu de novo. No fim do ano voltou, meteu o trator deixou tudo no casco. Falam que ele andou no estrangeiro vendendo a serra e na volta não deixou nenhum morador chegar perto.

 

Nazário havia dado o grande golpe da vida. Com as assinaturas colhidas, procurou um advogado em Salvador e requereu usucapião da área incluindo serras vizinhas, com todos os poderes passados em nome dele pelos moradores. A população de Boquira nada entendeu. Sabe apenas que uma grande companhia mineradora está chegando para tirar.

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