Sábado, 01 de Junho de 2019 - 05:12

O ofício da paixão

por Damário da Cruz

O ofício da paixão
Foto: Acervo pessoal

TODO RISCO

 

A possibilidade

de arriscar

é que nos faz homens.

 

Vôo perfeito

no espaço que criamos.

 

Ninguém decide

sobre os passos

que evitamos.

 

Certeza

de que somos pássaros

e que voamos.

 

Tristeza

de que não vamos

por medo dos caminhos.

 

 

 

 

BREVIÁRIO

 

Em breve dia

escreverás

a tua carta definitiva.

 

Por enquanto

inventas

pequenos bilhetes

de sobrevivência,

envias minúsculos recados

na boca da vida.

 

Por enquanto

não és,

nem destinatário

nem remetente.

 

 

 

 

 

AVISO PRÉVIO

 

Os meus amigos

não apareceram;

e solitário,

procuro o buraco

na lona do circo.

 

Os meus amigos

se calaram;

e solitário,

descubro o silêncio

mais profundo.

 

Os meus amigos

saltaram o muro

que não alcanço

e partiram

sem aviso-prévio.

 

 

 

 

 

CALMARIA

 

A que porto

busca este barco

de madeira podre?

 

Haverá cais livre

nos mares humanos

que hospede silenciosamente

um navegante suicida

num barco podre?

 

Os portos estão fechados

às naus da liberdade.

Os corações dos homens

já não acalmam

as correntes violentas

da razão dominadora.

 

O barco

da liberdade

apodrece nas mãos de todos.

 

 

 

 

 

SEM ESSA DE VOLVER

 

Sou um homem de

        direita

e aguardo teu ataque.

 

Sou um homem

       de esquerda

e aguardo teu ataque.

 

Enquanto isso,

a cidade festeja

a sorte de seus defuntos.

 

 

 

 

 

 

OBSERVAÇÃO DO TEMPO

 

Amanhecemos

com os olhos no amanhã

e o dia é hoje.

 

Anoitecemos

com os sonhos de ontem

e a noite é hoje.

 

E de tanta falta

de sintonia,

de tanta busca

e farta agonia

rabiscamos no calendário

a morte dos dias.

 

 

 

 

 

ARMADILHA

 

A vida

teima em ser

mais curta

e menos útil.

 

A vida

inventa

mil atalhos

provocando fugas.

 

A vida

não se engana

(não se engane!)

a vida só vale a vida.

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