Sábado, 30 de Março de 2019 - 05:04

A USP: admirável mundo novo

por Nelson Cerqueira

A USP: admirável mundo novo
Foto: Arquivo Pessoal

Depois das aventuras e dúvidas sobre todo acontecido em Florianópolis, Jane chega a São Paulo. Desembarca sozinha. Aquele aeroporto era um zoológico. Muita gente, muitos tipos, muitas faces. Diferente de Salvador da cultura negra ou Santa Catarina de maioria branca de olhos azuis e verdes. São Paulo parecia um caos social. Impressionante o número de turbantes, burcas; impressionante o número de judeus ortodoxos. E os chineses para cima e para baixo correndo com pequenos passos para não perder o voo. Sentia-se perdida, sem referências. Filas e mais filas, sem nem saber para que. Lanchonete, fila; banco, fila, cabeleireiros, fila; Mac Donald, fila; desembarque, fila; ônibus, fila; tudo, tudo fila.

 

Vinha uma onda enorme de pessoas em sua direção; queria perguntar aonde estava o ponto de ônibus, mas a quem. Tanta gente e ninguém! Era um anonimato de boiada de gado; só que aqui corriam igual a formiga quando perde a direção de casa; blocos de muitas em direção sem nenhuma direção. Pareciam haver saído de um manicômio, loucas em grau diferente, em cores diferentes, mas todas no mesmo passo: rapidez. Sempre que tentava parar alguém para perguntar algo, a pessoa se esquivava como se estivesse fugindo de alguma ameaça. Ficou assim, barata tonta, após receber um jato de detefon. Até que se aproximou de um ortodoxo que brincava com sua barbicha e disse:

— Shalom! Shalom !

O homem levantou um olhar esverdeado, olhou Jane com uma face meio apreensiva. Afinal as pessoas comuns não iriam falar para ele em hebreu. Olhou e esperou o que ela poderia estar desejando.
“Shalom! Shalom!” , respondeu. Aí, a Jane não hesitou e perguntou.

— Desculpe incomodar, mas não sou daqui e queria pegar um ônibus para a USP. O senhor sabe onde há um ponto de ônibus? Já tenho meia hora tentando falar com alguém sem conseguir, finalmente o senhor me ouve; as pessoas parecem estar com medo de mim, como se tivesse uma doença.
A Jane continuava a falar de modo desenfreado, palavras ladeira abaixo, enquanto o ortodoxo ouvia sem mudar a expressão da face; Jane olhando e falando, dizia ser de Salvador e mais um quantidade enorme de informações para alguém que queria apenas pegar um ônibus.

— Não se assuste, São Paulo é assim mesmo, mas as pessoas podem ser boas. A senhora pega essa saída 14 ali em frente, dobra à esquerda e ponto de ônibus logo lá. Certamente haverá uma fila. Saem ônibus para seis regiões diferentes. Pergunte qual irá passar pela USP.
— Puxa! Muito obrigado por sua gentileza. O senhor acaba de quebrar meu medo por São Paulo. Nem havia chegado e já estava decepcionada. Cidade grande, aeroporto gigante; um pouco desumana, pensava em meus primeiros contatos.
— você não está de todo enganada. Essa cidade é monstruosa, mas você vai descobrir que cada bairro é uma cidadezinha com coisas próprias. Você não precisa da cidade toda, seu bairro lhe basta. Grave isso e a cidade bem mais próxima e agradável. Aos outros bairros você pode ir como turista. Vai, curte e volta para o que lhe é familiar e onde você conhece pessoas.
— não esquecerei essa orientação, garanto. Como é nome do senhor.?
— Ezra. Ezra Levin. Tenho um escritório de advocacia perto da USP. Se um dia precisar de ajuda legal, estarei a disposição. Eis meu cartão, com endereço e telefone.
Ezra estendeu a mão para um cumprimento formal. Jane apertou a mão do ortodoxo e achou macia.
Quase erótica. Coisas da Jane, sempre se apressando em suas análises de situações.
Jane segurou a mão de Ezra por alguns segundos e notou que ele começara a suar, sem mais nem menos. Pensou: “deve estar apreensivo que eu segurei a mão dele por muito tempo e não sou ortodoxa. Pode ser errado”. Ninguém jamais saberá como é porque a Jane pensou aquilo. Mas o Ezra também não tinha como adivinhar nada sobre a Jane que usava uma bermuda azul acima do joelho, blusa colorida com estampas floridas, com um decote que mostrava um pouco da parte superior, superior mesmo, dos seios, argolas grandes, de ouro, presente da avó materna, sapatos de salto alto azuis, e cabelo estilo rabo de cavalo. Enfim, Jane se despediu e andou em direção à saída para ver o ônibus.
— Lehitraot!
— Lehitraot!, veio a breve resposta.
Jane saiu andando, já na saída deu uma olhada para trás, Ezra olhava em outra direção. “Ele deve ter me achado estranha e nem me acompanhou com o olhar. Mas, foi gentil e me ajudou. O que mais eu queria.” O que intrigava a Jane era porque Ezra tinha começado a suar frio no aperto de mão corriqueiro e formal. Tentou lavar a mente e foi para a fila de ônibus com umas 60 pessoas, calculou pelo comprimento.

Durante toda a viagem do aeroporto para a USP, Jane permanecia meditativa a cabeça rodando em memórias de como fora educada pela família, de como é o que deveria fazer para se tornar um boa pessoa, como ser feliz e como vencer em todas as áreas que atuasse. Como ser a melhor.
As imagens rodavam. E aquele dia que teria de ser a número um no volley ball.
Entre uma imagem e outra o encontro fortuito com o Ezra, de repente, trazia à tona todos os detalhes de uma menina criada como judia.
Jane olhou suas coxas meio descobertas e a memória trazia as repressões de infância, quando tudo tinha que obedecer a alguma passagem do Torá. O código de design de roupa também: precisa cobrir tudo. Modéstia, modéstia se espalhava sobre homens e mulheres. Roupas modestas e cobrindo tudo. O que teria pensado o Ezra ao olhar suas pernas e decotes?! A pedida era roupas sem colorido, sem decotes, não podem ser justas, blusas cobrindo os cotovelos e saias cobrindo os joelhos; as casadas como nossa mãe- que também não obedecia tanto- necessitava cobrir a cabeça como um sinal de comunicação não verbal de que era casada. Até eu mesmo era às vezes chamado a atenção para meus shorts, embora os homens tivesse muito mais espaço para transitar que as mulheres. Pensava às vezes: coitada da Jane. Nesse momento em seu decote colorido e pernas aparente, parece até que se sentia culpada. Tudo porque o ortodoxo fora gentil, no aeroporto. “Até calças era proibidas para mulheres”, pensou Jane em suas lembranças. Haviam estórias de mulheres que nunca descobriam a cabeça, nem mesmo em casa, na busca de servir melhor!
Lembro-me que Jane fazia alguns trabalhos junto com minha mãe, mas dizia que quando crescesse não queria o papel de mãe judia. A única coisa que fazia com prazer era acender s velas, talvez porque gostasse de brincar com fogo. Ficava correndo e voltando para ver a vela se derretendo. Achava uma coisa linda. Minha mãe era restrita com as normas de alimentação, sobretudo como a comida era preparada. A gente apenas comia, mas para cada coisa tinha um ensinamento e um conjunto de normas. Jane sempre me dizia, às escondidas, que adorava a comida, mas não gostava de tanta norma “que porre”, aduzia:
— felizmente nasci no Brasil país anárquico, onde se pode mandar as normas às favas.
— mas, Jane, tenha cuidado, a família pode ficar chateada. Melhor contornar ou até fingir para evitar conflito.
— Conflito já vivo desde que nasci. Talvez fosse melhor um aborto que aturar minha mãe. E meu pai cheio de histórias mal contadas. Muitas contradições e mentiras em sua aparência de sujeito perfeito, zeloso, cheio de respeito e obediência aos rabinos. Coitados dos rabinos!
— que é isso menina?!
— um dia ainda lhe conto o que ouvi do meu pai. Por hoje, mantenho os segredos secretos.
— conta! Conta! Estou curioso.
— eu também, completou Jane. Mas hoje não era o dia para contar nada, apenas para afirmar que não gostaria de ser uma mãe judia, tradicional. Não aguentaria tal pressão! Jane confessava que às vezes não se sentia religiosa suficiente para tantas regras. Queria ir para a praia de biquíni sem se sentir culpada em alguma norma de indumentária e modéstia.

Hoje, após o papo com Ezra, lembrando dessa conversa, a Jane até se sentia meio culpada. O ortodoxo tinha sido tão gente boa. Melhor que toda a liberalidade superficial brasileira que não se importava com ninguém; apenas com seu umbigo. E olhe que ortodoxo é ortodoxo, cheio de regras e normas, até mais que da família. O episódio do aeroporto gerou todo um contraponto na cabeça de Jane.
— terei mais cuidado, concluiu temporariamente, em voz alta.

Não ficava claro o que pretendia pensar ou externar com aquele fragmento de pensamento. Quem sabe, um dia voltaria a essa ideia e tornaria claro. Até eu fiquei curioso, dentro de minha limitação narrativa.
No ônibus, a Jane tentou puxar conversa com um asiático, mas ele parecia tão concentrado em sua meditação tibetana que ela depois de 5 tentativas desistiu, virou o olhar para a paisagem, deixando o mundo passar na janela, como se estivesse perdida na vida. Não sei explicar porque as mulheres gostam tanto de interagir, mesmo com desconhecidos. Talvez esteja no sangue, ou na estrutura conceitual do cérebro. Se fora eu, haveria sentado à janela e não abriria a boca. Talvez no final para desejar boa viagem, ou nada. Mas homem é diferente nesse aspecto e em muitos outros. Lembrei dos livros “sexo para os homens” e “sexo para as mulheres”. Os livros mostraram as variações e expectativas de cada sexo em relação ao oposto e o que o oposto pensava diante de situações rigidamente iguais. Macho é macho, fêmea é fêmea, não o importa o nível de trans-sexualidade ou trans-gênero. Haverá sempre uma diferença na absorção de testeterona e desenvolvimento de músculos.
Jane via o mundo passar e divagava entre lembranças da infância e prognósticos de sua vida na USP. Pensava em se envolver na direção de alguma revista, nem sabia qual. Lembrava do jornal da escola primária e do grupo de música que lhe convidará para fazer parte: 10 pessoas: 6 meninos e 4 meninas. Ponderava consigo mesma que naqueles tempos antes do feminismo era mais interessante. Menina e menino, homem e mulher, tudo junto era divertido. Mas, contra-argumentava consigo mesma que nem sabia realmente o que era o feminismo. Talvez tomassem algumas disciplinas sobre a temática, na USP, para explorar um melhor significado do termo e da tendência. O que havia lido era coisa superficial ou hiper carregada de clichês, alguns de caráter duvidoso.

O ônibus passava agora em frente a uma favela que chamou a atenção da Jane. O casario, as telhas de zinco e de cancerígeno amianto, a falta de ruas, os becos e construções amontoadas, uma imagem de esgoto a céu aberto, tudo era parecido com o miolo de Salvador ou os bairros periféricos. Pensou: porque a lógica das favelas era a mesma, porque algum líder da comunidade não poderia pensar diferente e criar alguma outra solução é mais porque os estudantes de engenharia, urbanismo e arquitetura não buscavam, estudavam, concebiam um outro modelo para as favelas. A Jane piscou o olho e concluiu temporariamente “que besteira estou pensando; deve ser essa viagem longa do aeroporto à USP”; mas pensando bem talvez não fosse tão besteira assim. Enquanto o ônibus passava a imagem da favela que poderia ser voluntária de um movimento assim.
— Quem sabe?


 

 

 

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